Despropósito por Denis Girotto

desproposito[comentário extraído do perfil do facebook de Denis Girotto Brito]

Terminei agora a pouco de ler o livro “Em despropósito (mixórdia)”, do caríssimo Abilio Pacheco.

Recebi o livro da Editora LiteraCidade como parte da premiação pelo 3° lugar no PLC – Prêmio Literacidade 2015 e confesso que não me senti muito atraído, a princípio, a adentrar essas páginas. A explicação é simples: o velho hábito de julgar o livro pela capa (sim, eu faço muito isso). A imagem desfocada do Rio Tocantins (creio que seja) subposta a uma cadeia de DNA realmente não chamou minha atenção. Talvez por eu ter algum trauma escolar com a biologia ou simplesmente por algum rigor estético exclusivo meu. Sabe-se lá.

O fato é que ontem me atacou um alergia seguida de um resfriado e a missão de me manter em casa, meio acamado, me levou à curiosidade de lê-lo. Já ouviram o ditado “tem males que vêm para o bem?”. Pois é, bendito resfriado! Hehehe
Logo no primeiro capítulo fiquei encantado com o poder de narração do Abilio Pacheco. Não só o poder, mas a forma, a estética, o desenvolvimento. No texto, que o próprio autor diz não ser um romance, mas notas de terapia, o leitor se perde e se encontra em tempos e acontecimentos. A ordem cronológica da história é periodicamente interrompida por lembranças inseridas cá e acolá. Tudo de tal forma que prende muito bem o leitor nas nunces e segredos dos personagens. O protagonista, e narrador da própria história, pode muito bem coincidir com o autor do livro, embora isso não fique claro. E mesmo que seja, sabe lá quais trechos narrados são verídicos e quais são fantasiosos, pois como me disse certa vez uma amiga: escritores mentem.

Algumas questões políticas, sociológicas, históricas e psicológicas são abordadas. A mais evidente, sem dúvida, foi o conflito em Eldorado de Carajás na década de 90. O autor aborda muito bem sua visão e experiência sobre o caso, relatando episódios acontecidos na época e que, por ter morado ali próximo, teve contato direto. Friso pois, que essa visão é pessoal, embora compartilhada por tantos outros. Talvez se o livro tivesse sido escrito por uma policial envolvido no conflito ou por um integrante do movimento sem-terra o enredo tomasse outros rumos e conclusões.

Enfim, o que posso dizer é que o conteúdo do livro me surpreendeu. E foi uma bela surpresa. Bem feito pra mim que, a priori, quis julgar o livro pela capa. Rsrs

Parabéns pela belíssima obra, Abílio.

E agradeço à Editora Literacidade por ter-me presenteado com essa maravilha. Abraços do Girotto!

Mãos de peixe

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Mãos de peixe

Todos os sábados escamava peixe. O dorso da faca raspava o dorso do peixe chapiscando escamas por mãos e braços. Prateada pele pontilhada de gotas argentinas. Derme e epiderme admiráveis. Deixava. Balançava o braço com orgulho.
Um dia deram de queixar se do braço argentino. Era tarde. Tinha já as mãos de peixe.

A partir da foto desafio enviada por Marcos Samuel da Costa.

sobre o despropósito

Terminei de fazer a leitura de “em despropósito (mixórdia)”. Confesso que o título do livro não despertaria de imediato meu interesse em lê-lo. É coisa minha ser fisgada pelo nome estampado na capa. Todavia, começada a leitura a primeira impressão dissipou. Fui seduzida pelo enredo que me pareceu confuso, porém instigante, de modo que me fez desejar aprofundar para saber aonde iria dar a continuidade da leitura. Embrenhei-me tentando alcançar a ponta de um fio de meada – o entendimento. E me vi no meio de bifurcações procurando alcançar a intenção do autor entre revelações que não permitiam, de primeira, serem apanhadas pela logicidade e coerência. Daí, creio, vem a tônica inicial de sustentação do interesse de leitura, que tenho como aspecto positivo. Em momento algum durante a leitura, busquei ir para a parte final a fim de antecipar entendimento. A leitura estava gostosa, prazerosa, instigante. Há trechos em que os fios do entendimento (para mim) parecem amarrados, mas logo escapam da tentativa de apreensão de sentido. O inconsciente, pela sua linguagem, não é apreendido obedecendo a uma lógica temporal. Em seu romance Em despropósito (mixórdia) escorreu por entre os lapsos, os vai e vêm, retornos, digressões, que enriqueceram o conteúdo, tornando-o interessante, pois prendeu minha atenção de tal modo que, chegando a parte final, fui tocada por um sentimento de alegria e tristeza. Tristeza por refletir sobre as verdades que ajudam a construir uma história de ficção; e alegria por sentir-me agraciada pelo aspecto relativo ao trabalho do Psicólogo em escutar almas. Isso é algo que tenho grande gosto em fazer.

Abraços!

Ana Meireles