Ao pó voltaremos

Ao pó voltaremos

Crônica, Abilio Pacheco

Há dias estava por minha cabeça de escrever sobre este episódio, mas inúmeras atividades outras (que não cito pois aí iria a crônica toda) me fizeram adiar a escrita e a imediata publicação desta crônica. Hoje, entretanto, após ler uma postagem no Facebook de minha ex-colega de graduação em Letras – minha amiga Solange Ricarte – convenci-me de fazer este texto sair no jorro. Solange postou que um grupo de alunos de uma universidade foram transportados do Campus num ônibus junto com o pessoal da limpeza e que os alunos ficaram revoltados e ameaçaram reclamar na reitoria para que isso não mais acontecesse.

* * *

Após chegar de uma das minhas viagens de professor saltimbanco (pois na Amazônia a gente sempre está viajando para ministrar disciplinas em outras cidades), eu esperava à esteira de restituição de bagagem no aeroporto de Belém quando uma senhora encostou o carrinho ao meu lado. Eu tinha o rosto voltado para o meu lado direito, ela estacionou seu carro cobrindo minha visão e se interpôs a minha visão. Eu imaginei que o fizera de propósito, mas não teria como imaginar o motivo.

Virou-se para mim e logo encetou um diálogo. Cumprimentos de praxe e deu-lhe a falar da viagem. Disse-me de onde vinha e o que fora fazer. Falou do desconforto da cadeira, da comida não muito boa. Ela sempre viajara de avião, mas de uns tempos para cá as viagens, na sua opinião, não eram mais as mesmas. Os preços se tornaram mais acessíveis, mas em compensação… Eu acho que ela ora concentrava-se na minha feição (como se buscasse o meu rosto na sua memória), ora virava o rosto para ver se sua mala estava vindo. Eu permanecia olhando sempre na mesma direção, apenas inclinando a cabeça uns dez ou doze graus.

Em dado momento, ela disse me conhecer de algum lugar. Naturalmente que sim, pensei. Eu a havia conhecido de imediato e disse-lhe: Eu trabalhei no Hospital junto com o Dr. “…” (e aqui omito o nome e a relação entre os dois). Ela respondeu-me: Ah sim! Sem muita convicção. Continuou olhando ora para minha ora para o local de onde saiam as bagagens e prosseguie falando amenidades. Perguntou, sem me deixar responder, se eu saberia se haveria chovido nos dias anteriores, falou do calor insuportável, e que não sei onde era melhor, do tempo de espera das malas… Até que me pediu desculpas pois ainda não se lembrava exatamente de mim. Eu, afinal, trabalhava na enfermaria, ambulatório, apartamentos ou centro cirúrgico?

Eu sorri dizendo que trabalhava em todos. Eu pensava que isso seria divertido para quem conversava tão descontraidamente, mas ela apenas apertou o senho e quis saber “como assim?”. Respondi-lhe que era simples. Eu trabalhava no apoio, era eletricista, por isso trabalhava no hospital inteiro. Eu esperava um sorriso espontâneo, mas sequer recebi um sorriso educado. Em vez disso, ela vez um longo Ah sim! E virou o rosto para o buraco de onde sua bagagem ainda demoraria algum tempo a surgir. Perdurou entre nós um silêncio indefinido.

Quando chegou-lhe a bagagem, ela pegou a mala e colocou-a no carrinho. Como eu estava ao seu lado esquerdo, ela virou-se para o seu direito e foi-se embora sem um bom dia, um tchau ou mesmo um olhar de asco.

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