Sobre o Despropósito

Comentário ao meu romance Em Despropósito, feito pela escritora Conceição Maciel, de Capanema-PA.

 

Após ler “em despropósito (mixórdia)” do escritor Abílio Pacheco, sinto-me motivada a escrever algo sobre este surpreendente romance. Como o próprio nome sugere, uma mistura de fatos ou acontecimentos oportunos ou não. Alguém falou que a obra é uma salada, realmente tenho que concordar, “em despropósito ” é uma deliciosa salada, a melhor que já havia experimentado, com sabores que prendem a atenção e inspiram na busca por descobrir seus ingredientes. O romance é basicamente uma mistura de sentimentos e acontecimentos que tumultuam a vida de um homem, refletindo em sua vida amorosa. O autor entra sucintamente na questão sobre as mortes de trabalhadores rurais em Eldorado dos Carajás e descreve Marabá com a autoridade de quem já morou ou mora lá. Percebo a obra centrada na figura da mulher, uma confusão, uma profusão de mulheres que mexem com aquele homem que guarda em si mágoas, rancores de um passado que não passa, que permanece vivo em cada pedacinho dele, mas o mesmo ser que o encanta e o leva ao paraíso, é o mesmo que o leva ao inferno e é o mesmo que dar sentido à sua vida e faz dela uma mixórdia de sentimentos que vai do ódio à ternura e o prazer da paternidade até a desgraça de se descobrir |||||||||||||||||||||||||||, seu grande amor. A obra se assemelha à uma tragédia, como a de Édipo Rei com um final surpreendente. #RECOMENDO

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Comentário sobre o Despropósito

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Marcos Samuel Costa postou esta foto e fez a seguinte postagem em seu perfil do Facebook:

“Estava conversando esse semana com uma amiga sobre formas interessantes de escrita. Ela citou um amigo nosso de São Paulo, o Santana Filho. E eu falei para ela desse romance do paraense Abilio Pacheco. Para mim, esse foi um dos melhores romances publicado no estado nos últimos anos. E como disse a minha amiga, uma pena que ele passou tão despercebido pelos leitores.”

 

Eu respondi:

“Ele [Marcos Samuel] comenta que o romance passou despercebido pelos leitores. Eu concordo com ele. Mas é preciso lembrar que vivemos um momento bastante diferente em relação às grandes obras, aos grandes homens (ou mulheres) e às grandes narrativas. As explicações do mundo apresentadas por um Homero (que na verdade explicou apenas uma parcela do mundo grego) já não são mais o que procuramos. Quando eu vejo as editoras grandes (e que estão cada vez menos grandes) querendo apresentar certas leituras do que é ser brasileiro ou de como é nossa “gente”, o que vejo que sempre serão posições parciais, mas que ao serem publicadas por editora grande soam como se fossem universais. Quando Tolstoi afirma “quer ser universal, canta tua aldeia”, ele talvez queira dizer exatamente isto: “Não se iluda, não existem universais, apenas aldeias”. Eu quis apenas apresentar isso, uma leitura desse pedaço de terra que bem conheço. O amigo Gutemberg Armando Diniz Guerra, que escreveu uma resenha ao romance e publicou na revista acadêmica Margens Abaetetuba, entendeu muito bem isso. Talvez as perguntas sejam exatamente estas: Que são esses leitores que temos em mente? Será que esperava que o livro tomasse grandes proporções, vendesse milhares e eu sequer pudesse responder aos emails sobre ele? E que hoje estaria aqui uma secretária ou assessora escrevendo para vocês? Claro, que quanto mais leitores melhor. Entretanto, eu mesmo não saberia agora enumerar os nomes de todas as pessoas que leram este livro e comentaram algo. Alguns comentários me chegaram via redes sociais (e mesmo no Skoob), eu postei no meu site. O romance foi citado numa dissertação de Mestrado defendido na UFRGS por Fidelainy Sousa. Mesmo quem conhece o romance e nunca disse nada sobre ele, me pergunta quando virá o segundo. Teve uma aluna que queria fazer o TCC sobre o romance mas queria que eu fosse o orientador. Não faz sentido. Recusei. Ela desistiu. Hora ou outra alguém me escreve perguntando algo sobre o romance e eu respondo. Samantha de Sousa começou uma sequência de anotações para escrever um artigo. E por aí segue… Eu penso que a gente precisa entender que muitas coisas em literatura (e quem for alternativo mais ainda e quem for da amazônia mais ainda e quem for alternativo na amazônia mais ainda do mais ainda… quase-Macondo) demandam a paciência de quem planta. A gente planta aqui planta acolá. E sai plantando… Sai regando… Nós, escritores, muitas vezes somos imediatistas. Queremos alguma resposta logo, a gente só falta é correr com uma caneta atrás de um leitor para autografar o livro para ele. Por fim… ainda sobre as repercussões do romance, tem quem me escreva falando sobre uma edição revisada. Talvez eu faça depois da tese”.

Luciana Hidalgo sobre Despropósito

Caro Abílio,
finalmente tive tempo para ler seu “Em despropósito (mixórdia)”.
Muito bem escrito. Parabéns. Boa história, a da Irma/Irmã. Muito bem ambientada, a história, no Brasil de Bartolomeu, do nosso velho e violento patriarcado, de mulheres marcadas a ferro. A sua descrição de Marabá (pp.68-69) é um dos meus trechos preferidos – além de outras tantas frases bem trabalhadas alinhavando a prosa. Gosto muito também da metaficção, que permeia toda a narrativa. Incrível, no final, saber que o “não-romance” é fruto de “notas de terapia”. Lembrei-me imediatamente de Serge Doubrovsky e seu “Fils”, é claro. Mas pode ser apenas ficção. Daí a curiosidade: trata-se de uma autoficção? Grande abraço, Luciana.

lucianahidalgo

Luciana,
Eu utilizo boa parte da minha experiência de viver a região sul e sudeste do Pará (este pedaço da Amazônia Brasileira) e também a experiência do trânsito que fiz por lugares onde os personagens passam, mas o romance não é uma auto-ficção.
Grato pela leitura e pelo comentário,
Abilio Pacheco

Despropósito por Denis Girotto

desproposito[comentário extraído do perfil do facebook de Denis Girotto Brito]

Terminei agora a pouco de ler o livro “Em despropósito (mixórdia)”, do caríssimo Abilio Pacheco.

Recebi o livro da Editora LiteraCidade como parte da premiação pelo 3° lugar no PLC – Prêmio Literacidade 2015 e confesso que não me senti muito atraído, a princípio, a adentrar essas páginas. A explicação é simples: o velho hábito de julgar o livro pela capa (sim, eu faço muito isso). A imagem desfocada do Rio Tocantins (creio que seja) subposta a uma cadeia de DNA realmente não chamou minha atenção. Talvez por eu ter algum trauma escolar com a biologia ou simplesmente por algum rigor estético exclusivo meu. Sabe-se lá.

O fato é que ontem me atacou um alergia seguida de um resfriado e a missão de me manter em casa, meio acamado, me levou à curiosidade de lê-lo. Já ouviram o ditado “tem males que vêm para o bem?”. Pois é, bendito resfriado! Hehehe
Logo no primeiro capítulo fiquei encantado com o poder de narração do Abilio Pacheco. Não só o poder, mas a forma, a estética, o desenvolvimento. No texto, que o próprio autor diz não ser um romance, mas notas de terapia, o leitor se perde e se encontra em tempos e acontecimentos. A ordem cronológica da história é periodicamente interrompida por lembranças inseridas cá e acolá. Tudo de tal forma que prende muito bem o leitor nas nunces e segredos dos personagens. O protagonista, e narrador da própria história, pode muito bem coincidir com o autor do livro, embora isso não fique claro. E mesmo que seja, sabe lá quais trechos narrados são verídicos e quais são fantasiosos, pois como me disse certa vez uma amiga: escritores mentem.

Algumas questões políticas, sociológicas, históricas e psicológicas são abordadas. A mais evidente, sem dúvida, foi o conflito em Eldorado de Carajás na década de 90. O autor aborda muito bem sua visão e experiência sobre o caso, relatando episódios acontecidos na época e que, por ter morado ali próximo, teve contato direto. Friso pois, que essa visão é pessoal, embora compartilhada por tantos outros. Talvez se o livro tivesse sido escrito por uma policial envolvido no conflito ou por um integrante do movimento sem-terra o enredo tomasse outros rumos e conclusões.

Enfim, o que posso dizer é que o conteúdo do livro me surpreendeu. E foi uma bela surpresa. Bem feito pra mim que, a priori, quis julgar o livro pela capa. Rsrs

Parabéns pela belíssima obra, Abílio.

E agradeço à Editora Literacidade por ter-me presenteado com essa maravilha. Abraços do Girotto!

sobre o despropósito

Terminei de fazer a leitura de “em despropósito (mixórdia)”. Confesso que o título do livro não despertaria de imediato meu interesse em lê-lo. É coisa minha ser fisgada pelo nome estampado na capa. Todavia, começada a leitura a primeira impressão dissipou. Fui seduzida pelo enredo que me pareceu confuso, porém instigante, de modo que me fez desejar aprofundar para saber aonde iria dar a continuidade da leitura. Embrenhei-me tentando alcançar a ponta de um fio de meada – o entendimento. E me vi no meio de bifurcações procurando alcançar a intenção do autor entre revelações que não permitiam, de primeira, serem apanhadas pela logicidade e coerência. Daí, creio, vem a tônica inicial de sustentação do interesse de leitura, que tenho como aspecto positivo. Em momento algum durante a leitura, busquei ir para a parte final a fim de antecipar entendimento. A leitura estava gostosa, prazerosa, instigante. Há trechos em que os fios do entendimento (para mim) parecem amarrados, mas logo escapam da tentativa de apreensão de sentido. O inconsciente, pela sua linguagem, não é apreendido obedecendo a uma lógica temporal. Em seu romance Em despropósito (mixórdia) escorreu por entre os lapsos, os vai e vêm, retornos, digressões, que enriqueceram o conteúdo, tornando-o interessante, pois prendeu minha atenção de tal modo que, chegando a parte final, fui tocada por um sentimento de alegria e tristeza. Tristeza por refletir sobre as verdades que ajudam a construir uma história de ficção; e alegria por sentir-me agraciada pelo aspecto relativo ao trabalho do Psicólogo em escutar almas. Isso é algo que tenho grande gosto em fazer.

Abraços!

Ana Meireles