Mãos de peixe

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Mãos de peixe

Todos os sábados escamava peixe. O dorso da faca raspava o dorso do peixe chapiscando escamas por mãos e braços. Prateada pele pontilhada de gotas argentinas. Derme e epiderme admiráveis. Deixava. Balançava o braço com orgulho.
Um dia deram de queixar se do braço argentino. Era tarde. Tinha já as mãos de peixe.

A partir da foto desafio enviada por Marcos Samuel da Costa.

Ritornelo

Ritornelo

Abilio Pacheco

Todos os dias ordenava que se lhe contassem aquela história da reconquista. Sempre dormia e esquecia o enredo no dia seguinte. Mesmo que lhe dissessem tê-la ouvido ontem, não lembrava sequer de ter pedido que contassem.

Décadas atrás, por retaliação, a propriedade fora invadida, o dono assassinado a facadas durante o sono e a mulher violentada e deixada inconsciente num ermo qualquer. Uma vintena de anos mais tarde, o filho daquele mal-feito, alimentado a leite e ódio, voltaria para vingar-se.

Nunca alteravam o grosso da história; mas mudavam um ou outro detalhe: o herdeiro dia entrava pela janela, dia arrombando a porta, dia escondido num barril, dia se passando por mascate para depois lhe desfechar uma punhalada na cabeça.

Tirando da gaveta

Tirando da gaveta

Acordou com idéia fixa, mas evitou a decisão precipitada. No criado-mudo, guardava seus textos: poemas, contos, romances iniciados, um quase no fim.

Passou o dia pensando na decisão. Não poderia ser algo fruto apenas do impulso. Mas estava decidido que não passaria desse dia. Na hora do almoço, sentou-se à beira da cama. Olhou demoradamente antes de se inclinar e abrir a primeira gaveta. Nas últimas vezes, apenas pusera uma bola de naftalina em cada.

Desta vez, não. Há muito tempo já deveria ter resolvido tirar dali os manuscritos e dar-lhes o destino merecido. Não havia porquê esperar. Junto-os todos do jeito que estavam e desceu às pressas as escadas que levavam à varanda. Antes que capitulasse, jogou tudo num dos tonéis de lixo e ateou fogo.

Abilio Pacheco.

Ano novo

Ano novo

Abilio Pacheco

Disse que o próximo ano seria diferente.
Pegou a agenda, abriu na lista de resoluções do ano passado e saiu riscando o que não conseguira cumprir.
Riscou, riscou, riscou e no último item leu: “não dizer que o próximo ano será diferente!”