O romance em uma frase

O romance em uma frase

Depois que publiquei na internet e na ‘fanpage’ do facebook uma mostra do romance que vou lançar em Abril em Marabá, recebi emails, postagens e mensagens ‘inbox’ variados. A todos respondi pontual. Entretanto, é a partir desse diálogo que resolvi escrever esse texto.

Li, numa entrevista com editores, que todo grande romance, todo bom romance, pode ser resumido em uma frase. Assim, meu problema estaria resolvido e já terminaria aqui este texto. O fato é que a narrativa (mixórdia) a ser lançada não é um grande romance, nem digo ‘bom’, pois não cabe a mim fazer esse juízo. Ainda assim tentei resumir num email dizendo que a narrativa é em primeira pessoa e “que tem relação com essa fração do espaço social da região Norte e com as questões ligadas à constituição de ‘um’ marabaense em específico diante de um drama pessoal que lhe faz revisar a vida num tempo constelar, não-linear, não necessariamente psicológico, mas ‘como um andar de bêbado, num compasso de velório’. Some-se a isso a reflexão sobre problemas típicos da região e a peculiar opinião do protagonista sobre a imagem construída sobre a cidade – Marabá ‘tem histórias [de violência] que abrindo jornal em qualquer outra cidade, termina perdendo feio’.”

Entretanto, eu mesmo não me dou por satisfeito com o resumo. Sabendo, inclusive, que mesmo as grandes narrativas podem ser resumidas em poucas frases verdadeiras (!), mas não destendenciosas. A história de Collodi, por exemplo, que é mais conhecida como a história de um boneco de madeira que ganhou vida e cujo nariz cresce quando este mente, pode também ser sintetizada como a história de um boneco de madeira (antropomorfizado) que deseja ser um menino de verdade. Uma terceira possibilidade seria focalizar o ‘coadjuvante’: a história de um velho ranzinza fabricante de bonecos, que vive sozinho e detesta crianças, até que uma de suas criações ganha vida e nele cria-se um forte apego a ponto de o velho não se ver mais sem companhia. O primeiro resumo destaca um fundamento moral próprio dos livros didáticos ou dos usos didático-moralistas da literatura; o segundo destaca o problema da identidade (excelentemente explorado por Steven Spielberg, em Inteligência Artificial) concernente a essencialidade humana, ou a respeito da foraclusão (um dos problemas sérios da discussão identitária, mas aparentemente negligenciado por críticos e analistas, embora abundante na produção narrativa); já o terceiro tem um fundo mais psicanalítico: Pinóquio teria realizado uma operação catártica em Gepeto, que dominado pela empatia em relação ao menino peralta, termina expurgando sua rejeição a crianças. Curioso nenhuma delas incluir um episódio secundário (?) que as crianças adoram: quando Pinóquio está à deriva no mar. A história é a mesma, mas a forma de resumir em poucas frases termina revelando pontos de vista e escolhas. Vale lembrar: o texto literário, a obra de arte, sempre comunica muito mais do que simples diz.

Se ‘Em despropósito’ o fará, não sei. Quero apenas descolar do ‘zero’, pôr o texto a público e, a partir das reações, amadurecer a forma de narrativa longa para outros momentos. Desde muito jovem sempre quis escrever e publicar um romance. Já comecei uns sete, que foram para o lixo, e outras estão aqui e ali por gavetas e pastas do computador. Existem ainda outras três narrativas longas começadas. Essas, curiosamente, têm o mesmo enredo dessa mixórdia que vou por a lume. A espinha dorsal é a mesma. Afinal, não “estamos sempre contando a mesma história”!? Esta narrativa, entretanto, veio-me com texto – a materialidade – de assalto e furou a fila. Uma das outras, que sempre dizia ser a minha preferência, estava me consumindo demais. Comecei a escrevê-la há cinco ou seis anos, quando ainda lecionava no Rego Barros (ETRB) e morava no bairro da Campina (Belém). Era um texto que me destruia, a história era fragmentada e a narração saía do íntimo e das vozes de muitos perosonagens/narradores. A coisa era visceral; tirava sono, apetite e eu amanhecia o dia com vinte e poucas linhas escritas. Imprimia o texto ainda riscava e ia dormir pesado como se tivesse passado 24 horas a galope (metáfora/analogia) no meu trabalho de eletricista no Hospital Celina Gonçalves. Só relaxava do texto quando escrevia uma espécie de diário paralelo ao mesmo e a literatura só voltava suave quando eu escrevia algum dos meus conticos, contos curtos. Nela eu sofria, como afirma Milton Hatoum, num esforço de fazer a linguagem render, tendo certeza que a linguagem sempre pode render mais. Também não conseguia escrever de fio a pavio, nem me concentrava no texto apenas diante do papel ou da tela. Personagens, enredo e palavras perseguiam-me o tempo todo e existem por aí inúmeros pedacinhos de papel com fragmentos de frases que pretendia (pretendo?) incluir no romance. (Esquizofrênico. – ?)

Esta narrativa que lanço em abril… não me consumiu nem me destruiu. Deixou-me viver de uma tal forma que só conseguia pensar no enredo, personagens, palavras e ritmo, quando estava com o arquivo aberto ou fazendo a leitura impressa. (Esquizofrênico também?) Isso é deveras curioso: o texto que me veio de assalto inicialmente, ficava sempre repousando nas profundezas do meu pensamento e só retornava depois de eu muito gritá-lo. Fazia-o retornar lendo dois ou três capítulos e, só assim, ele me chegava para a escrita continuada. Quando comecei a escrevê-lo, tinha por plano um conto longo, partindo de uma ideia banal, mas com uma pitada de acaso, relacionada a um perfume usado por uma personagem (etc. não vou estragar sua leitura do livro) e aí o texto acabaria no que agora está no sétimo capítulo. O texto faria parte de um livro de contos longos que aguarda atenção e destino. Quando fui fazer a revisão final das 12 páginas, senti as palavras voltarem e se ajustarem novamente no papel, inclusive, fanzendo-me retornar para o início do texto para intercalar as palavras que demandariam o restante da narrativa. De 12 páginas o texto alongou-se para 21 páginas e de quatro capítulos estendeu-se para sete e com isso veio a ideia-base da minha matriz meio arraigada de narrativa, que busca proporcionar uma leitura que se relacione com o caráter identitário (de novo e sempre) do ser marabaense e por extensão o tal drama humano em busca de um lugar no mundo. Some-se a isso um e outro algo da experiência hodierna, com pitadas de relatos banais que estão no texto de modo secundário e – poderia dar uma piscadinha de olho – não deixa de o professor de teoria da narrativa meio problematizar o gênero romanesco (coisa que já se inicia desde a anotação abaixo do título e de todo o capítulo 17 enviado para uma revista acadêmica).

Como você certamente notou, nem é um grande romance resumível por mim em uma frase (quem sabe você faça isso após a leitura) nem eu expliquei muita coisa nessa crônica (?). Muita coisa só vai fazer sentido após a leitura da mixórdia. Parece que aqui eu apenas aticei sua curiosidade. Ora, ora. Um dos propósitos (rs) era esse mesmo.

Belém/Campinas, 28 de fevereiro de 2013.
Abilio Pacheco
Professor universitário, escritor de prosa e verso, revisor de textos e organizador de antologias. Mestre em Letras (UFPA) e doutorando em Literatura (THL-UNICAMP). Três livros publicados. Estão no prelo Canto peregrino à jerusalém celeste (poemas) e Em Despropósito (mixórdia) (romance). É membro correspondente da Academia de Letras do Sul e Sudeste Paraense (com sede em Marabá), Cônsul dos Poetas Del Mundo para o Estado do Pará, Embaixador da Paz pelo Cercle Universal des Ambassadeurs de la Pax (Genebra-Suiça) e faz parte da AVSPE.

5 respostas para “O romance em uma frase”

  1. Abílio, eu também sou atormentada pelas palavras e tenho muitos textos embargados.
    Seria isso um vício?
    Lendo seu texto fiquei curiosa e gostaria de ler teu livro.
    De onde nos conhecemos? Talvez de meu antigo blog O Empório do Café Literário, você lembra? Se lembrar me conte.
    Gostaria que lesse algo meu, se tiver tempo.
    Obrigada
    abraços
    Lu C.

  2. Prezado Abílio, sou uma humilde professora “primária” do interior da Bahia, que apesar da tensão da escola, me deixo cair em tentação e às vezes atravesso noites envolvida com textos literários. Assim, espero em breve o seu livro para umas noitadas destas.

  3. Bem, Abílio, como candidato a escritor, compreendo o seu dilema. O dilema de resumir o romance numa só frase. Considero isso tudo uma bobagem necessária. Faz parte do espetáculo. É condição, muitas vezes, da recepção por parte de críticos e/ou leitores ocupados e exigentes. Mas não quer dizer nada. Sua crônica prova isso. E na verdade reforça o testemunho de todos os escritores de que escrever é um processo desgastante, sofrível, sobretudo a partir do momento em que o texto se rebela, ganha autonomia, suscita novas questões, e cobra alto preço para adequá-lo, configurá-lo aos propósitos titubeantes do escritor. Tenho uma amiga, também candidata, que começa pelo fim. Diz ela que assim é mais fácil encontrar os caminhos de chegada. E ainda lhe pedem que resuma tudo numa frase!! Ora, vamos ao seu romance, de cujo lançamento terei notícia por receber sua notas e notícias. Grande abraço.
    .

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