Mataram o cara

Mataram o Cara (*)

O título desta crônica é, por si, deveras horrível. Não imagino um leitor que lendo o título e sabendo do que se trate tenha sentido vontade de ler o texto por causa dele. Salvo por alguma repugnância. Dar a notícia desse jeito é banalizar o fato. E vou meter-me em terreno, agora, perigosamente delicado. Como falar da imensa indignidade que é um assassinato por motivo fútil, sem inseri-lo numa sequência de eventos semelhantes de modo a transformá-lo em algo corriqueiro e cotidiano semelhante a olhar para os lados antes de atravessar a rua?

Por isso, não ataco o centro nem passo ao largo da morte a facadas do professor de educação física Kassio Vinícius Castro Gomes. Ele – para usar a chatinha linguagem do direito que tem invadido os noticiários – fora supostamente assassinado por um aluno que supostamente teria se chateado com uma suposta nota baixa. É melindre demais. Por que não dizer o estrito, direto, caroço? Mas voltemos… Não pretendo passar ao largo, pois seria uma conivência, quase uma cumplicidade. Mas também não posso atacar o centro, pois aí eu seria parcial e quase sumário. Como não sei detalhes dos motivos nem posso dar ao (suposto – sic) culpado o direito de defesa ou de voz, termino indo ao mais amplo e geral.

Vi numa reportagem sábado que nossas escolas são palco de violência e que grassa a insegurança e a impunidade. Não o nego, mas não ‘calango’. Pouco se escuta falar que em nossas escolas e – pasmem – faculdades, proliferasse não só discursos, mas também práticas de promoção automática, de superprotecionismo, de cuidado excessivo para não constranger o aluno, de cuidado para não prejudicá-lo com uma reprovação ou nota baixa.

Não me entendam mal. Não sinto prazer nisso. Não é meu trabalho, nem trabalho de professor algum que eu conheça e possa apontar atribuir nota baixa a algum discente por prazer ou perseguição. Não nego que isso exista, só quero que entendam que não faço apologia. Entretanto, trabalho mal feito, copiado de Internet, atendendo parcialmente instruções e enunciados… Deixem o professor trabalhar. Deixem que o professor atribua o conceito em conformidade com seus critérios e com suas orientações. Deixem-no fazer isso que também é seu trabalho: ensinar ética, ensinar promoção por merecimento, ensinar que a matrícula no curso não é garantia de aprovação. Deveriam preocupar-se com aqueles que não fazem isso e por não fazê-lo prestam um desserviço.

Aí, a atividade não merece nem um “I” e chega-lhe o orientador de pesquisa para lhe dizer que seja condescendente. Se tiver baixo rendimento, tadinho, fica sem bolsa. Não deveria ser o contrário? Não deveria, desde o primeiro dia ter consciência de que não poderia tirar menos que “B”? A obrigação de bom rendimento para bolsistas não deveria ser um instrumento de promoção automática, mas de incentivo ao bom rendimento. Quer dizer: A obrigação de bom rendimento para bolsistas não deveria ser um instrumento de promoção automática, mas de incentivo ao bom rendimento?

Fiquei esperando ainda que a reportagem atacasse ou discutisse as causas de violência na escola. Esperando que apontassem a falta de limites de nossos jovens secundaristas. Ou falassem do pensamento pedagógico que tem predominado nas instituições de ensino brasileiras, cuja meta principal tem sido estáticas de promoção e de não evasão, e agora os índices qualitativos governamentais, em detrimento de fatores ligados à verdadeira aprendizagem e à promoção por mérito.

Acostumados desde as séries iniciais ao protecionismo absoluto, à não-reprovação e à falta de limites éticos, nossos jovens têm chegado desse jeito a faculdades e universidades. Disse que era delicado e perigoso esse terreno. Disse também que não iria atacar o centro do problema nem passar ao largo… O leitor já percebeu claramente: enquanto esse quadro perdurar em nossas escolas, a insatisfação por uma nota baixa ou uma reprovação, em vez de motivar o aprendizado, ainda poderá resultar em outros Kassios mortos a facadas, a tiros, a pontapés… a indignidade.

Belém, 13 de dezembro de 2010.
Abilio Pacheco

(*) Texto originalmente escrito para o Bar ContemporArtes da Revista ContemporArtes ISSN – 2177-4404 e foi publicado em: http://revistacontemporartes.blogspot.com/2010/12/mataram-o-cara.html na última terça-feira.

3 respostas para “Mataram o cara”

  1. Violência nas instituições de ensino é mais velho do que eu. O “centro do problema”, como você diz, é realmente abstrato. De modo geral, toda a sociedade é culpada… Os massacres nas instituições de ensino norte-americanas expõe o assunto como ele é. O motivo sempre é uma humilhação sofrida, que se soma a um crônico problema psicológico ignorado pela família e, também, pela comunidade… Parafraseando uma amiga minha, mais do que nunca, que a convivência, nas instituições de ensino ou fora delas, “[…]seja um momento de repouso, nas lutas da vida”.

  2. Mattoso Câmara já afirma que a sociedade brasileira é “relacional” enquanto a norte americana é “individual”.
    Ser relacional é depender de um grupo de pessoas “protecionistas” para conseguir seu valor (ou direitos). Contrariamente, ser individual é conseguir ver o valor em si próprio, não necessitando de relações alguma para que as leis sejam cumpridas, ou seja, enquanto aqui temos a cultura das relações entre compadrinhos ou gente de poder na sociedade, nos Estados Unidos cada indivíduo tem seus direitos acessíveis.
    Portanto, enquanto houver essa “relação” protecionista, o termo “cidadão”, em seu mais claro e brilhante significado, será encerrado.
    Se o professor Kassios foi assassinado por motivos fúteis,
    talvez seu mentor tenha acreditado não ser punido, de acordo com o exposto acima. Ou se por outros motivos por exemplo, socioeconômicos e educacionais, é por consequência do mesmo exposto anteriormente que causa a má administração política e consequentemente a impunidade.

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