Do pronunciamento de Dilma

Do pronunciamento de Dilma

Ontem nossa presidente (que numa gestão democrática se dá o direito de fazer um ato de violência civil contra a gramática de língua portuguesa e faz descer goela abaixo dos gramáticos mais conservadores uma flexão de gênero que não é gramaticalizada nem de uso corrente) fez um pronunciamento para abrandar ânimos. Como sua fala vem após reuniões com vários de seus ministros, dentre eles a ministra-chefe da casa civil, deveríamos entender que é resultado desse diálogo. Aqui já despontam alguns dos principais equívocos do pronunciamento. A “voz das ruas” não é a voz dos ministros. Se fosse, a possibilidade de haver manifestação seria menor. Alguns desses ministros têm exatamente o perfil sufocante que tanto tem apertado a população brasileira a ponto de um ou outro tem o apelido delicado de ‘trator’ (o mesmo trator que parece passar à luva de pelica sobre quem deveria ser mais rígido/a). Há também um equívoco complexo (que resultou nesse ato corajoso de falar com o povo por dez minutos): Continue Lendo “Do pronunciamento de Dilma”

A voz das ruas

A voz das ruas

A insatisfação é geral! O movimento que teve início após as manifestações em São Paulo e que nos próximos dias ainda resultarão em protestos em várias outras capitais e outras cidades do Brasil (além dos apoios de brasileiros que estão morando em outros países) é fruto de uma insatisfação geral. O Brasil vai bem na foto. Todo cidadão Europeu, pensa que aqui não existe crise, que o país (por estar em ascenção econômica sendo o quinto/sexto mais rico) resolveu seus problemas internos mais gritantes, que os brasileiros estão usufruindo dessa rica e que são hoje o que um cidadão europeu era há 30 anos, que a população tem acesso a direitos básicos com qualidade. Mas não é nada disso. “Quem quiser venha, mas só um de cada vez”, como diz a letra do Mosaico de Ravena (e eu tenho sempre a impressão que na Amazônia a coisa está muito pior). E afinal, quais os porquês dos protestos? Continue Lendo “A voz das ruas”

Resenha – Mosaico Primevo

-Pacheco, Abílio. Mosaico primevo. Belém: edição do autor, 2008. – Por Paula Cajaty

À título de esclarecimento prévio, Abílio conta ao seu leitor que o mosaico do livro foi montado aos poucos, num ‘navegar por entre rochas’, trabalho artesanal e ininterrupto da vida. E, entre essas pedras no mar de si mesmo, Abílio avisa dos altos e baixos das marés.

Silvio Hollanda, prefaciando a obra, reconhece nela três temas nítidos, ligando os poemas: o questionamento da palavra poética, o tempo/memória afetiva e o sobrevoo na paisagem urbana.

Ao questionamento da palavra poética, o próprio poeta reconhece: ‘Quem sabe minha resposta ainda/ esteja no prelo’. Enquanto não se tem a resposta, continuamos perguntando, e em verdade é essa a inquietação que dá à luz a poesia.

Aliás, Abílio diz tecer versos. E será que tecer versos é abrir sulcos em si mesmo, ou apenas reparar nesses sulcos abertos pelo tempo? Isso o poeta não responde, mas oferece pistas em certos versos esparsos no texto onde exibe seus olhos-testemunhas, que envelhecem(‘Eu não tinha estes olhos de agora/ Tão rubros, tão turvos, tão vagos’), transcendem(‘e os meus olhos assustados e despertos/ Já não habitam mais em mim’), morrem(‘É preciso enterrar nossos olhos/Nossos dentes, nossas línguas, nossos tímpanos/ Já não mais nos ouvimos a nós’), e renascem(‘o meu grito se perde/ pelas frestas da porta/ rompe a rua silente/ e desperta os olhos de mim’), modificados e refundados(‘E sou, portanto, este olhar brilhante, (…) Que corre lento assim de encontro ao mar’).

Abílio segue tecendo sulcos em si mesmo, sangrando palavras da casca ríspida, áspera, buscando a essência do verso que reside por dentro, e oferece ao leitor esse néctar, dedicando-lhe o poema: ‘Para que tu, só tu possas sugar o cerne dos versos’.

Junto ao Mosaico Primevo, há o livro Poemia, uma espécie de segunda parte. Em Poemia, a noite se personifica, é testemunha, e repara nas máscaras que se usam na parte escura do dia (da vida), máscaras necessárias à boemia, momento em que se expurga a solidão e se promove a catarse de todo o trauma acumulado durante a parte clara, real e objetiva da vida.

Poemia é uno, apenas um poema separado em várias partes que representam as etapas necessárias para atravessar a noite – ou para a própria noite, ali personificada, atravessar-se a si mesma, até que ‘o tempo no relógio/ lhe acalente com sua eterna cantiga de ninar’.

Assim, Mosaico Primevo e Poemia de certa forma se unem, o primeiro à luz do dia, busca respostas. O segundo, no escuro, não precisa mais de respostas, prefere apenas esquecer a vontade de perguntar.

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