Do pronunciamento de Dilma

Do pronunciamento de Dilma

Ontem nossa presidente (que numa gestão democrática se dá o direito de fazer um ato de violência civil contra a gramática de língua portuguesa e faz descer goela abaixo dos gramáticos mais conservadores uma flexão de gênero que não é gramaticalizada nem de uso corrente) fez um pronunciamento para abrandar ânimos. Como sua fala vem após reuniões com vários de seus ministros, dentre eles a ministra-chefe da casa civil, deveríamos entender que é resultado desse diálogo. Aqui já despontam alguns dos principais equívocos do pronunciamento. A “voz das ruas” não é a voz dos ministros. Se fosse, a possibilidade de haver manifestação seria menor. Alguns desses ministros têm exatamente o perfil sufocante que tanto tem apertado a população brasileira a ponto de um ou outro tem o apelido delicado de ‘trator’ (o mesmo trator que parece passar à luva de pelica sobre quem deveria ser mais rígido/a). Há também um equívoco complexo (que resultou nesse ato corajoso de falar com o povo por dez minutos): centralizar os problemas do Brasil na figura do presidente quem quer que seja ele (muito embora algumas ações de micropoder estejam diretamente relacionadas de modo especular com um perfil político que se tem desenhado no Brasil). Acho que está na hora de cada gestor público e cada representante eletivo (deputados, vereadores, membros de conselhos…) fazer sua mea culpa. Está na hora de demonstrarem que sabem gestar sem serem capatazes do poder público estabelecido, que zelar pelo bem público não é sufocar seus coordenados diminuindo nesses o direito à fala e exigindo desses ‘sacrifícios’ pelo bem público, que bem administrar o bem público não é tampar buracos por causa da precariedade mas pressionar as instância superiores para melhor atender as necessidades dos usuários do serviço prestado, que representar não é votar (na câmara ou num conselho escolar) conforme o que lhe dá na telha, mas o que deseja quem lhes elegeu ou indicou (não prego assembleísmo, mas deve-se ouvir a base). Ler o pronunciamento da presidente é também ler o que passa na mentalidade de muitos gestores brasileiros e aqui minha interpretação não se dirige apenas a companheira Dilma (que parece ir tão bem assessorada quanto a ex-governadora do Pará, a também companheira Ana Júlia).

De início, pensei numa leitura ponto a ponto de todo o discurso, mas isso resultaria num texto três ou quatro vezes maior que o pronunciamento. Além do mais eu cometeria aquele mesmo equívoco viciado pela mídia que pulverizou a/s pauta/s e que ocupou muito do discurso da presidente (refiro-me aos atos de vandalismo). Resolvi, por isso, pontuar algumas considerações especialmente sobre o que há de proposta. Embora não acha proposta alguma explícita, alguma coisa com muita muita boa vontade se pode retirar daí; nem todas positivas, infelizmente, nem todas sem equívocos, novamente. Dilma, após falar sobre as lutas de sua geração (e aqui a leitura da “Revolução dos Bichos”, de George Orwell, é imprescindível), sintetiza as reivindicações nas seguintes palavras: “A mensagem direta das ruas é pacífica e democrática. Ela reivindica um combate sistemático à corrupção e ao desvio de recursos públicos. […] exige serviços públicos de mais qualidade […], quer escolas de qualidade; ela quer atendimento de saúde de qualidade; ela quer um transporte público melhor e a preço justo; ela quer mais segurança. Ela quer mais.” Nenhuma palavra sobre a PEC 37. Nenhuma palavra sobre biopolítica. Nenhuma sobre o excessivo uso da força policial ou política (política! Decisões que forçam decisões!). Nenhuma palavra sobre a alta carga tributária.

Dilma diz que “as instituições e os governos devem mudar”, que irá “conversar, nos próximos dias, com os chefes dos outros poderes para somarmos esforços” e que irá “convidar os governadores e os prefeitos das principais cidades do país para um grande pacto em torno da melhoria dos serviços públicos”. O problema, companheira, é que todos eles devem mostrar a cara e também se pronunciarem, mas não de modo vago e impreciso, os próximos pronunciamentos precisam indicar ações claras. Há muito tempo as pessoas reclamam. Como sintetizou Geneton Moraes Neto: “Há um sentimento de cansaço generalizado contra os desmandos”, há décadas dizemos que a saúde pública é um absurdo e que o salário do professor é uma vergonha, lamentamos o desperdício de dinheiro público, pedimos que o dinheiro pago em impostos volte ao cidadão em forma de serviços públicos de qualidade, constatamos diz que dinheiro de empreiteira termina no bolso de governantes e políticos bandidos, temos visto em jornais fotos de gente que morre na frente de hospital por falta de atendimento, etc. Falta ainda algo que nos faça crer que agora sim haverá melhoria dos serviços públicos. O pacto com governadores e prefeitos ainda precisa ser desenhado e explicitado. O povo espera por isso. Não esqueça que o demo não dorme. (leiam também o Discurso Imaginário, escrito por Geneton).

Ao bater o diapasão, novamente dissonâncias: “O foco será: primeiro, a elaboração do Plano Nacional de Mobilidade Urbana, que privilegie o transporte coletivo. Segundo, a destinação de 100% do petróleo para a educação. Terceiro, trazer de imediato milhares de médicos do exterior para ampliar o atendimento do SUS.” Transporte, educação, saúde. Ela também não entendeu que o transporte foi apenas o estopim, por isso colocou-o em primeiro lugar. Verbas para a educação são bem-vindas, mas se continuarem sendo gastas em livros que vão parar no lixo, se a merenda escolar continuar sendo desviada, se as verbas para as construções das escolas não forem fiscalizadas e resultarem em escolas caindo aos pedaços, etc. Além disso, é necessário definir com mais exatidão o que pode ser colocado na rubrica da educação, tem prefeitura colocando os gastos de iluminação nas proximidades das escolas como gasto com educação. Ora, verbas para educação são bem-vindas, entretanto, se “um dos maiores ralos do dinheiro público” continuar sendo na rubrica da educação (CNTE), alocar 100% do petróleo para educação pode corresponder a alimentar cada vez mais o escoamento pelo ralo. Quanto a trazer “médicos do exterior”, se antes a ideia era péssima, agora veio em hora despropositada. Ela acalma um enxame mas atiça um vespeiro. Os médicos brasileiros há tempos reivindicam a favor do “revalida” (aqui, por exemplo). Médicos formados em outros países não estudaram doenças tropicais e endêmicas, não entendem impaludismo ou malária. Existem muitos mitos e muitos mintos.

Dilma anuncia que vai “receber os líderes das manifestações pacíficas, os representantes das organizações de jovens, das entidades sindicais, dos movimentos de trabalhadores, das associações populares”, novamente faz parte dos vestígios de mau assessoramento. Fora o MPL, não existem organizações, entidades, associações, lideranças… A capacidade que o governo (ou daqueles que o fazem) tem demonstrado de cooptar para o bem de todos, distribuindo cargos comissionados e solapando as vozes contrárias, resultou em completo descrédito em representatividades instituídas (que precisavam ser reinventadas e ser de fatos autônomas dos governos, poucas escapam). Além disso, as últimas greves (capitaneadas por sindicatos, obviamente) não resultaram em algo que, de fato, agravasse, as categorias. As últimas greves têm indicado a falência da capacidade de negociação dos sindicatos, a ineficácia do instrumento de reivindicação e o quanto o governo pouco se importa com as categorias que pleiteiam. Entendem que uma greve bem sucedida é aquela que tem um fim negociado entre governo e sindicato e não aquela que resulte em contentamento da categoria ou classe. Existe, de fato, uma necessidade de uma “profunda reforma política, que amplie a participação popular”, mas para isso é preciso que os mandatos não pertençam nem aos políticos eleitos nem aos partidos, mas ao povo, a fidelidade não deve ser ao partido, mas ao povo que elegeu. Exigir que senadores, deputados e vereadores votem conforme o partido é um expediente contrário ao pensamento democrático (infelizmente o PT é pródigo nisso, aqui, aqui, aqui). Pode até ser equívoco, como a companheira diz, pensar “em prescindir de partidos”, mas como está não dá para continuar, a população não acredita nesses partidos e nesses políticos. Nós não contamos nem podemos contar com eles.

Em relação à Copa, faremos sim uma grande copa e seremos excelente anfitriões como fomos em outros grandes eventos sediados aqui nos últimos anos (Fórum Social Mundial e Pan-americano no Rio, por exemplo). O fato de o dinheiro ser “fruto de financiamento” não significa que possa ser desperdiçado (aqui um exemplo de forte intervenção do TCU), nem significa que tenhamos que ficar engolindo sapos por causa de atraso (o chute no traseiro que deveria ter sido aceito humildemente pelo Ministro Aldo Rabelo, que não está maduro para ouvir críticas)… Além disso, as obras de infraestrutura e de acesso (mobilidade=transporte) precisam ser devidamente concluídas e não apenas as “arenas”.

Eu já havia começado um outro texto tentando pontuar algumas conclusões das manifestações, das declarações dos políticos e das tentativas da imprensa de explicar. Vou trazer para cá alguns destes apontamentos:
– Parece-me que eles não estão entendendo nada!
– Talvez a imprensa viva num mundo etéreo e paralelo, onde não padecem dos mesmos problemas que o ‘povo’ que está nas ruas.
– É irritante ver que o prefeito da maior cidade da América Latina não sabe o que é ‘padrão FIFA’. Isso só pode significar uma das mais altas formas de alienação política.
– Não é difícil entender que as passagens já poderiam ter sido baixadas e, portanto, muitos outros produtos e serviços podem ter preços mais acessíveis. Afinal, assim como tem sempre ocorrido, as reduções de impostos feitas pelo governo federal não tem sido repassadas para a população;
– Inevitavelmente existem oportunistas de todas as formas e não há motivação alguma para que seja tirados prefeito/s, governador/es ou a presidente;
– A ausência de uma pauta indica a obviedade das manifestações, ninguém está esperando uma mesa de negociação;
– O maior problema é que o Brasil vai bem, obrigado; mas os brasileiros vão mal, obrigados.

Eu esperava mais e ainda espero mais. Espero que as tais reuniões com governadores e prefeitos resultem em pronunciamentos destes, não basta deixar que Dilma mostre a cara e todos os outros se escondam (mas se for para aparecer como fez o Haddad, por favor). Espero que nos próximos pronunciamentos sejam apresentadas ações claras, apenas dizer que o dinheiro vai para isso ou aquilo não basta. Do pronunciamento da companheira Dilma, esperava opiniões mais precisas, é necessário correr certos riscos ou tergiversar em algumas coisas. É ou não contra a PEC 37? Tem ou não uma opinião sobre o insano Feliciano? As prefeituras têm ou não têm obrigação de repassar as desonerações federais para o cidadão? Etc.

E, por fim, faltou – no meu ponto de vista – coragem para, enfim, convocar uma assembleia geral constituinte. Algo que não está nas pautas, mas é uma necessidade para a nossa remendada meia constituição.

Belém, 22 de junho de 2013.

2 respostas para “Do pronunciamento de Dilma”

  1. Esperamos que as pessoas possam realmente tomar “consciencia” e cobrar permanentemente as propostas que estão sendo colcoadas em pauta, haja vista que as eleições de 2014 estão próximas. Chega de promessas o povo já está cansado. (ex. desse cansaço: é atransamazônia que está pra ser asfaltada a 40 anos….e até agora….NADA!!!)

  2. Excelente texto caro Abílio, chega de blá blá blá, estamos cansados de tanta corrupção, desmandos e mentiras, as manifestações sobre a tarifa foi apenas o início do fio da meada que deve continuar (de modo pacífico) e com demonstrações de cobrança das promessas que os políticos sempre fizeram e as pautas atuais com contra a PEC 37 e as punições dos políticos corruptos(Ex. Mensalão) e outras.
    Parabéns e que a população brasileira continue a cobrar e pressionar a classe política dominante.

    Abraços.

    There Válio

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