Honorato mestre

Honorato, mestre

Já faz um tempo que tento calcular a quantidade de alunos para quem lecionei. Comecei a fazer umas listas, até, mas a tarefa se mostrou enfadonha e estou quase a concluir que não darem conta dela. Talvez apenas chegue a um número aproximado. Talvez, depois que concluísse ou atualizasse, tentasse saber onde cada um desses discentes estão, o que fazem… aí realmente seria bem complicado dar cabo da missão. Alguns sei onde andam, o que fazem, e (imagino!) o quanto pude fazer diferença no que fazem, positivamente ou mesmo negativamente.

Hoje, entretanto, senti a vontade de anotar, calcular a quantidade de professores que lecionaram para mim. De supetão, a tarefa se tornou mais fácil, por isso tentadora. É provável que eu emperrasse em algum nome. Lembrasse face e escola, mas escapasse-me o nome. Daí pensei em escolher um para homenagear neste texto, já que amanhã é dia dos professores. Logo saltaram alguns nomes, logo cortei alguns e sobraram dois. Um professor e uma professora. Não me sentirei à vontade de escrever sobre a professora, posto estar muito próxima e eu sentir-me envergonhado amanhã, quando provavelmente vá surpreendê-la em sua casa na hora do almoço. Se não amanhã, sábado.

Nós o chamávamos de mestre. Sabíamos e não sabíamos o que era aquilo. Ninguém questionava, pois já era assim quando entramos no SENAI. Para a maioria de nós, mestre era apenas uma forma diferente de chamar o professor. Quem sabe para diferenciá-lo dos professores da escola regular. Brincávamos com a coisa. Mestre remetia a dois filmes do nosso imaginário de crianças e adolescentes: Jornada nas Estrelas e Karatê Kid. De uma ou de outra forma, ele remetia ao mestre Yoda e ao senhor Miyagi. Fisionomia, ensinamentos e postura diferenciada, ares de sabedoria. Sobrou o senhor Miyagi. Talvez somente agora, se este texto lhe chegar aos olhos, é que ele saiba que alguns de nós o chamávamos assim.

Anos depois de ter terminado meu curso de eletricidade, voltei ao SENAI-CFP de Marabá para lhe pedir uma opinião, um conselho. Eu havia passado num concurso público e iria deixar meu emprego de eletricista para trabalhar numa biblioteca. Eu sabia que seria um caminho sem volta, adeus chaves de fenda, fios e alicates – pelo menos profissionalmente. Queria relembrar o que pensei até chegar ao SENAI, o que pensei no caminho que fiz até a oficina e o que pensei até começar a lhe dizer o sentido de minha visita. Se fosse escrever um conto ou capítulo de romance, faria um flashback ou reminiscência. Meu personagem lembraria do mestre assoviando sempre a mesma canção, enquanto nós tentávamos contar os fios magnéticos de um motor, enquanto nós tentávamos montar um circuito automático com contactores; lembraria como o mestre agia com firmeza nos detalhes: se lhe caísse algo das mãos e algum aprendiz estivesse perto, ele apenas daria um passo atrás que nós entenderíamos e colheríamos o objeto para entregá-lo. Talvez meu personagem se lembrasse de algo bem específico e individual: uma inesquecível lição de estética quando o mestre dobrou os fios do circuito elétrico um a um e calmo mandou refazer o circuito de modo a não parecer uma teia de aranha. Mas não creio ter lembrado nada disso. Lições do cotidiano, de vivência e convivência creio que façam parte daquilo que Walter Benjamim nomeia sabedoria. Daí não caberem nesta crônica: educação para a cidadania, para a convivência, para o respeito, tudo que nossas escolas não ensinavam nem ensinam.

Lembro-me bem que disse isso a ele. Ele lamentou pelas escolas, lamentou por eu ter posto em segundo plano o aprendizado profissional e lamentou pois queria-me Engenheiro Elétrico (como um pai, ele deve dizer isso a todos), mas deu-me um conselho que me deixou leve: faz o que o teu coração manda, Caboclo. Queria uma opinião, um conselho para um dilema e ele me deu de presente uma chave para vários outros. Se bem entendi, segui o que me disse meu relógio de peito e creio que meu trabalho na biblioteca foi um caminho para meu curso de Letras, para minha formação (ainda em curso) de escritor, para meu trabalho como professor, para chegar ao mestrado e para o que ainda há de vir.

Anos depois, já morando em Belém, estava às vésperas de defender minha dissertação de mestrado. De tanto ex-professores, telefonei para dois. Para a professora com quem trabalho hoje no mesmo grupo de pesquisa e para o Mestre Honorato. Ele me parabenizou, brincou com o fato de nós o chamarmos de mestre sem que ele tivesse ou tenha o título acadêmico. No fundo, ele deve saber que isso não importa. O que fez mesmo diferença em nossas vidas não cabe num papel universitário, nem no espaço dessa crônica. Afinal, mestre não é aquele que “cinzela o boneco e seus riscos no barro e no caráter” (como afirma o poeta e crítico José Fernandes em seu poema “Mestre” – http://poetacriticojf.blogspot.com/2009/07/mestre.html)? Mestre não é aquele que faz a diferença positiva e significativamente na vida, por toda a vida, de seus alunos?

Talvez eu faça a lista de todos os meus ex-professores. Quem sabe todo ano escreva sobre um deles. Não sei se escrevei sobre inesquecíveis que devemos esquecer, embora também sejam importantes, pois aprendemos com eles o que não ser. É certo que não farei a lista e a conferência dos nomes de todos os meus ex-alunos até hoje. Entretanto, vou dar-me por satisfeito se souber, não hodiernamente, mas distante no tempo, anos depois de ter lecionado para algum deles, que, de algum modo, influenciei positivamente em suas vidas.

Belém, 14 de outubro de 2010.

Abilio Pacheco, professor, ops!
hoje devo assinar:
Abilio Pacheco, aprendiz, sempre!

45 respostas para “Honorato mestre”

  1. Olá! Tio Abilio.
    Parabéns pelo texto.Gostei muito, me fez lembrar-lhe. E com certeza sempre que relembro dos tempoos do CEFET lá está o meu mestre das letras, que jamais vou esquecer “loiro, alto…rssrs” com um sotaque estranho,ensinando métrica ‘que eu nunca aprendi’ mas deu pra ingressar no curso de Direito(agora sei que isso não é vida, fazer o que, bem que fui avisada), pena que não deu pra passar em letras senão seria sua fiel escudeira… afinal Tio Abilio o Sr. é minha fonte de inspiração nas letras.
    Parabéns, sucesso, felicidades…
    Ps: Se listar os alunos não esqueça de mim certo?
    Abrç.
    Stephanie Nunes

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  2. Parabéns pelo belíssimo texto.

    Os professores entregam parte de sua vida,doando o próprio suor em prol de um futuro melhor,

    desde os primeiros passos no conhecimento, desvendando a magnitude do saber.

    Obrigada pelas belas palavras de sabedoria

    Feliz dia dos Professores

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  3. Caro Abílio, seu texto é maravilhoso e me levou de volta ao Grupo Escolar Paulino de Brito, ao IEP, ao Augusto Meira e todas as escolas por onde passei.
    Também tenho saudades dos meus Mestres.
    Há alguns anos precisei falar com minha filha, aluna de uma famosa escola particular de Belém e fui até a sua escola. Já na sala de aula, dois alunos sentados na mesa do professor atiravam bolinhas de papel em uns outros presentes. Chega o professor, entra, senta atrás dos “estudantes” que apesar de tê-lo visto entrar continuam a brincadeira e aí, eu sim, totalmente constrangida, pedi licença e de lá saí sem presenciar os “finalmente”, mas que minha filha disse ser “normal” acontecer.

    Um abraço.

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  4. Abílio, parabéns, pela sensibilidade.
    Rememorar os grandes nomes que se passaram (e ficaram ali gravados) pela nossa vida é um momento de deleite, que nos remete o quanto podemos ser, fazer, construir junto ao outro.
    Sempre que inicio minhas aulas nos cursos de Formação para Professores, proposto pelo Centro Paula Souza, peço que cada docente compartilhe com os demais “o professor que cada um tem na memória”.
    Essa troca é esse muito rica e recheada de momentos marcantes na vida de cada um.
    Ser professor é algo realmente mágico e como diz já um velho ditado ” o professor nunca sabe até onde irá sua influência”.
    Boas lembranças e responsabilidade sobre o que dizemos, escrevemos e somos.

    Grande abraço

    Geraldo

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  5. Prezado Abilio,
    Me sinto embuído nesta crônica, fostes muito feliz na escolha… Um dia desses encontrei o mestre, continua sabedoria… Com a palavra você descobriu a sabedoria e sabedoria vem Deus, sabedoria que nos encanta e torna os sentimentos… presente, passado, fututo… em miléssimos de segundos!!
    Desde daquelas epócas a poesia ja permeava o seu coração, eu lembro. Bom conselho e boa decisão!! Parabéns meu amigo, fiquei muito emocionado!!
    Lembrei de quando abandonei o curso e fui pra São Paulo, tentar resolver meus problemas, e por lá, descobri muitas potencialidades: a música, o instrumento (violão), a comunicação, a engenharia… O restante você ja sabe… O novo e que vou compartilhar a docência, peço licença a vós, na esperança de exercer esse chamado com sentimentos nobres: amor, sabedoria, dignidade… E quem sabe quando olhar pra trás. Relembrar e ser muito feliz!!!
    Abraços, meu amigo!
    Franklin Romel

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  6. Caro Abílio,
    Parabéns pelo texto. Faz-nos ele navegar por essa imensidão que tentamos atravessar, quando decidimos ser professor(a). Aqueles que passam por nossas vidas, aqueles com quem compartilhamos, dialogamos, discutimos, aprendemos. E aí, é verdade, nesse pensar, se misturam mestres e discentes que constituíram e constituem esse nosso viver.
    Lendo o trecho sobre o seu professor, aquele seu mestre, tão mestre, sem o título acadêmico de mestre, lembrei-me de ter lido algo sobre professor e educador, quando o educador é definido como aquele que tem como ferramenta o coração. Creio que assim também é aquele a quem chamamos de Mestre. Não é sempre a academia que o capacita nesta função, mas sim esse jeito de mestre que para mim é acima de tudo a humildade de lembrar, reconhecer e buscar os seus velhos mestres, quando já se é, também, um mestre.
    Parabéns pela sensibilidade, pela maneira tão singela e profunda com que expressa o seu sentir, neste seu texto. E obrigada por compartilhá-lo, nesse jeito bonito de buscar a interação, a troca bonita que só um mestre sabe como construir.
    Parabéns, mestre!
    Um grande abraço.

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  7. Aqui meu despretensioso poema em agradecimento ao seu. Obrigada. Maria (maria-13@uol.com.br)

    Mestre

    – Quero ser mestre, Sócrates, que me recomendas?
    Mesmo sabendo que o amor mais que a competência
    possa fazer de mim bom professor.
    – Dizes bem, meu jovem, embora eu pense
    que o amor e a competência
    da mesma moeda educativa são as faces.
    E como pretendes exercer tua profissão?
    – Ah, Sócrates, numa ensolarada manhã,
    pensando na saúde para o corpo e para a alma,
    caminhando ao sol, levar à praça meus discípulos,
    fazendo que observem, árvores e aves,
    flores e insetos, sons, cores e odores,
    sentindo a Natureza na diversidade.
    – E que mais?
    – Numa noite enluarada, descrever a Lua,
    majestosa a deslizar no céu;
    falar dos astros, da poeira das estrelas
    da qual viemos e para onde iremos todos.
    E declamar com eles um poema de Bilac,
    Ora (direis) ouvir estrelas!
    E aproveitando o ensejo,
    falar da beleza da poesia em diferentes formas,
    despertando o gosto pela arte literária,
    tentando que livremente criem também
    de cada um respeitando o estilo.
    – Depois?
    – Como tu, procuraremos eu e eles
    a verdade pela indagação.
    Há que argumentar e contra-argumentar,
    descobrindo que há sempre um outro lado;
    e mostrando que a vida,
    mesmo em grandes tempestades,
    pode ser bem conduzida
    pela força da vontade.
    – E esperas ser sempre bem sucedido?
    Que teus alunos estarão sempre a te bendizer?
    Que teu esforço será sempre bem recebido?
    – Não, Sócrates, haverá pedras e quedas nos caminhos.
    Onde existe luz, existe sombra, disse o Buda.
    Mas, estarei preparado,
    sendo simultaneamente o mestre e o discípulo
    numa intercomplementaridade que integra e ilumina,
    embora saiba que a completude jamais se alcança neste mundo.
    – E quanto à recompensa aos teus esforços
    para que tenhas uma existência digna?
    Para que possas dedicar-te
    com tranquilidade ao teu trabalho?
    – Se for justa, a bendiremos.
    Se não for, eu e todos que o exercemos com merecimento,
    teremos que lutar para que seja.
    O trabalho feito com amor e competência
    deve ser bem remunerado.
    – Abençoado sejas, meu jovem professor!
    Que os deuses te dêem paz e vida longa!

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  8. Caro Abílio Pacheco. Seu texto me agradou muito, pelo muito de sensibilidade que deixa transparecer. A palavra mestre, ou simplesmente professor, é algo que se mantém acima do nosso próprio questionamento na ocasião em que nos mantemos sob o seu controle.Não sei se me expressei bem. O que pretendo dizer é que só mais tarde,talvez no execício do mesmo cargo é que costumamos dar ao professor o verdadeiro reconhecimento do seu valor e o quanto lhe devemos!
    Baseio-me em dois fatos, vividos por mim. Quando tu tinha apenas 11 anos e ingressava no curso ginasial (o que hoje tem outra conotação) defrontei-me com uma professora, temidíssima pelo seu conhecido rigorismo!
    Entreguei-lhe o primeiro pedido de tarefa de casa: Uma
    redação sobre “A Morte do Sabiá”.(texto que guardo até hoje, e me agrada o conteúdo poético da redação, feito por aquela menina tímida como eu era, e com apenas 11 anos de idade. Pois bem. No dia de saber as notas, eu ansiosa, fui buscar a minha e me despontei. Recebera apenas um 6 e a admoestação desestimuladora: “Isto foi feito com a mão do gato!” Nem me defendi! Voltei para o meu lugar arrazada! Dalí para a frente, na minha ingenuuidade, só escrevi coisas bem modestas e curtinhas, para que parecesse terem sido escritas por uma criança! Reação infantil, é claro. Essa mesma professora, mais tarde, foi minha grande incentivadora,
    e se sei algo de portugês, é a ela que devo. E, hoje, analisando friamente, dou a ela, todo o mérito do primeiro prêmio de literatura que recebi,pois, duvidando da minha capacidade, minha mestra mostrou ter valorizado muito aquele meu primeiro trabalho!
    Outra professora,esta uma Irmã de Caridade,
    tb ficou no meu coração.Eu já cursava a Escola Normal, aula de Psicologia. Menos tímida, fiz-lhe uma pergunta e depois de pensar um pouco disse-me ela,com a maior naturalidade: “Carolina, na verdade, não sei. Mas darei a resposta na próxima semana.” Ela que, não só para mim, era uma sumidade no assunto,cresceu ainda muito mais!!!
    Desculpe-me. O tema saudosista me empolgou e fui além do pretendido!
    Meu fraterno abraço. Feliz Dia do Professor!
    Carolina Ramos

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