Crônica de retorno

Crônica de retorno

Ora, ora, a última crônica que publiquei aqui foi em 16 de fevereiro. Havia dito que o bom cronista tem textos nas mangas para urgências. Mas eu não sou um bom cronista, sou um cronista aprendiz, mesmo assim tinha (e tenho) uma meia dúzia de crônicas para este fim e só não publiquei nenhuma delas porque…

Sei lá… acho que fiquei meio em choque com tanta coisa acontecendo e eu aqui neste notebook escrevendo crônicas. Morreram Moacyr Scliar, Alonso Rocha, Benedito Nunes… e eu não publiquei uma linha a respeito. Não publiquei, mas escrevi. Talvez esse seja meu principal defeito como cronista. O leitor espera (e a crônica, não o nego, em geral é assim) algo no calor da hora, enquanto eu necessito que ideia amadureça.

Ocorreu a tragédia na escola Tasso da Silveira no Rio e a mídia nos bombardeou principalmente falando sobre bullying. Lá fui eu garatujar um punhado de linhas sobre o que penso desses modismos terminológicos que terminam mascarando os nomes corretos a que todos melhor entendemos e conhecemos. Mas não publiquei, teimo que a crônica não pode ser mero exercício mental irreflexivo que depois o cronista se arrependa ou se envergonhe.

Uma plebeia virou princesa e o santo papa João Paulo II foi canonizado. Assunto para crônica foi que não faltou. Mais perto daqui: o primeiro de maio na praça da República e meus dedos pipocando de vontade de falar da impensada atitude deixar os vendedores de alimento sem seu espaço de trabalho. O poder público que proteje o cidadão é o mesmo que deixo o outro cidadão sem renda. Vou cutucar mais fundo isso ainda.

Por fim, “mataram o Bina”. O bandido havia matado várias pessoas na minha Macondo. Ouvi no rádio que “a polícia alvejou o larápio” e logo o carro do corpo de bombeiros passeiou pela cidade carregando o corpo. Apupos e aplausos, vivas e mais vivas. Durante algum tempo pensei que isso fosse provincianismo, coisa de terceiro mundo, de falta de justiça, de estado atrasado na civilização e quejandos. Acabei de aprender que minha Macondo já era, na verdade, em termo de avanço de mentalidade de dh, uma verdadeira jetsons city.

Foi muito assunto, mas não vou escrever uma crônica sobre nenhum deles. Antes a crônica de hoje será como descrevi: tema hodierno, mas sem o calor da hora, pesada, medida, com ideia amadurecida, mesmo que parcialmente.

Tentando não ficar tanto tempo longe novamente, vamos à crônica de hoje…

Belém, 04 de maio de 2011.
Abilio Pacheco

Professor universitário, escritor, revisor de textos e organizador de antologias. Três livros publicados. É membro correspondente da Academia de Letras do Sul e Sudeste Paraense (com sede em Marabá), integra o conselho de redacção da Revista EisFluências, de Portugal, é Cônsul dos Poetas Del Mundo para o Estado do Pará e é Embaixador da Paz pelo Cercle Universal des Ambassadeurs de la Pax (Genebra-Suiça).

3 respostas para “Crônica de retorno”

  1. bom retorno.
    tanto pra se falar e o cronista ali, sofrendo nas armadilhas da criação. procurando voz que se faça ouvida. há quem publique sem respeitar o leitor. este certamente tem vida curta na fidelidade do seu público. já aquele que sofre e mesmo assim não sucumbe, ah, ele terá sempre o merecido apreço. tu és um destes. parabéns!

  2. Estimado mestre Abílio Pacheco,
    Os nefastos acontecimentos levam-nos a concordar com o manancial
    registrado na literatura Evangélica…; mais precisamente a tocante
    as “Profecias”.
    Como bem falou Frei Vidal da Penha: “Haverá época em que a roda pequena esmagará a grande”.
    Veja que os chefões…são comandados pelos nocivos à sociedade…
    Você, por exemplo – vive enclausurado no seu habitat.
    -Por que isso?
    -Ora, ora…! É porque se usufruir-se do livre-arbítrio o dono do alheio tira-lhe a vida e AQUELES…os aplaudem, concordas…?
    Por senso Crístão, deixemos que os mortos para nós, e vivos para
    Deus – repousem em paz.
    Parabéns pela leve e bela “Crônica”.
    Abraço.
    Gilford Meneses.

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