abilio pacheco

professor de literatura (ufpa), escritor e revisor de textos

Aliquando bonus

Posted by Abilio Pacheco em 18 de maio de 2011

Aliquando bonus

“Aliquando bonus dormitat homerus”, “de vez em quando o bom Homero cochila”, ou “mesmo homens da grandeza de Homero cometem pequenos erros”, ou simplesmente “até o sábio se engana”. Existem outros provérbios correlatos: “quem come um boi, se engasga com um mosquito”, “mata cobras, teme lagartas”, “quebra toras, tropeça em gravetos” ou o mais recente: “todo mundo tem cinco minutos de idiotice por dia”.

Na literatura, acho que a frase de Mário de Andrade para conceituar o conto ilustra bem o ditado. O modernista heróico (!?) de São Paulo afirmou que conto é tudo aquilo que o autor chamar de conto. Poderia contrapô-lo apenas citando uma frase de Shakespeare na famosa cena da sacada: “se a rosa não se chamasse rosa, não teria por acaso o mesmo perfume?”. Ou seja: não importa o nome que se dê para a coisa, ela não deixará ou passará a ser apenas por causa do nome que lhe derem ou lhe tirarem.

Mas o maior problema da frase de Mário de Andrade em seus cinco minutos de “desgenialidade” não está no fato dele a ter dito. Ele tem todo o direito de ter seu “aliquando bonus”. O problema maior o quanto ela é repetida. Ora, a teoria é, por si, um terreno movediço. Para piorar, mestres e doutores em Letras repetem a exaustão esta afirmação instável. Talvez por isso tantos autores têm dúvidas sobre a diferença entre conto e crônica (existem outras dúvidas binárias que deixo para outras reflexões).

A explicação pode ser longa, deveria ser longa, mas simplifico. O conto (assim como as narrativas literárias maiores, a novela, o romance, a saga…), aprendi isto com a Professora Doutora em Literatura Tânia Sarmento-Pantoja, tem que ter conflito. A crônica, não. A crônica deve falar de assuntos relativos ao cotidiano. Ela pode até ser narrativa, mas o conflito, se existir, estará a favor da informação cotidiana e não para causar suspense e levar o leitor à expectativa, até meio catártica, do clímax e do desfecho. Vejam as crônicas escritas a partir de notícias publicadas na Folha de São Paulo, pelo escritor gaúcho Moacyr Scliar e que o autor denominou de crônicas ficcionais. Não custa nada lembrar que o Bruxo do Cosme Velho também era costumaz em escrever crônicas ficcionais.

Para não ficar apenas num critério, vale acrescentar que o conflito é essencial para o conto e incidental para a crônica. Consequentemente poderíamos afirmar que o cotidiano é essencial para a crônica e incidental para o conto. Entretanto, o conto pouco se prende ao cotidiano e, quando se refere a este, procura diluir tempo presente tornando-o a-histórico. As crônicas ficcionais não se apresentam atemporais.

Eu, por minha vez, penso em fazer crônicas com um toque bem pessoal (o que é óbvio). Numa ou noutra tenho apresentado ao leitor a minha “poética para a crônica”. O leitor atento já pode ter percebido isto, por exemplo, nas crônicas sobre política (entre elas a “Operação Cavalo de Tróia“), em “Cheiro de café” e na “Crônica de retorno”. Nelas, e sempre que possível, discuto no fio do texto minha forma de conceber o gênero, no que se refere ao estilo e ao fator mais discutido na crônica que é sua efemeridade e sua perenidade.

Agora, é importante pontuar que tanto crônica quanto conto não são textos de aconselhamento. A experiência – algo importante para a literatura em prosa – não está abolida. Conselhos, porém, no imperativo, aborrecem a literatura e fácil, fácil, cambam para a auto-ajuda. Isto talvez seja o pior de tudo: autores iniciantes (e mesmo uns que a mídia tem promovido) pouco trabalham o texto e o transformam em lições de vida; abandonam a estética, a memória, a narrativa ou a reflexão hodierna para “enquadrarem o leitor”. Este, melindrado e bombardeado por lições de todo tipo (como falar corretamente, como se vestir direito, como agir no trabalho, como pentear o cabelo), encontra lições de bem viver em textos (que se apresentam como) literários.

Muitos outros pequenos problemas existem em torno da teoria literária. Oportunamente ainda poderei meter meu bedelho em um ou outro. Sem esquecer que o meu é um ponto de vista. Menos que aplausos, espero provocar reflexão. Afinal, receitas fáceis, mastigáveis tem aos montes e eu poderia ter feito uma crônica desse tipo: “conceito de crônica: tudo que o autor chamar de crônica, será crônica” ou para sair da paráfrase e cair (propositalmente) na paródia: “tudo que o autor chamar de crônica, será dito por um autor crônico”.

Belém, 18 de maio de 2011
Abilio Pacheco

Professor universitário, escritor, revisor de textos e organizador de antologias. Três livros publicados. É membro correspondente da Academia de Letras do Sul e Sudeste Paraense (com sede em Marabá), integra o conselho de redacção da Revista EisFluências, de Portugal, é Cônsul dos Poetas Del Mundo para o Estado do Pará e é Embaixador da Paz pelo Cercle Universal des Ambassadeurs de la Pax (Genebra-Suiça).
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3 Respostas to “Aliquando bonus”

  1. morani said

    Meu caríssimo cronista:

    Há muito tempo eu não lia um texto com rara inteligência esmiuçadora. Diz-se que quem “esmiúça” não tem concepção firme sobre o que escreve seja mesmo uma página literária: crônica ou conto, novela ou romance.
    Estou com você e não abro ao afirmar que o conto não pode prescindir aos fatos crônicos dos dramas; as crônicas, essas sim, devem apelar aos fatos dramáticos do cotidiano. Falam das coisas acontecidas que valem à pena apresentar aos leitores. O que o preclaro escritor falou, está falado. Carlos Drummond de Andrade está cheio de sabedoria para os contos e de clara visão para as crônicas. De qualquer modo, ambas as expressões literárias se revestem de interessantes momentos de prazer saídos de suas penas: uma para o conto e outra para crônica.

    Abraços

  2. Luciene said

    Legal a provocação!

    Leva-nos à reflexão nos momentos de leitura e escrita.

    Abraços!
    Luciene

  3. :) Poeta – digo eu… -, nem contista, nem “croniqueira” :)) e com muito pouco tempo livre para “digerir” convenientemente tudo o que leio, dei comigo a sorrir de orelha a orelha e a acenar afirmativamente ao penúltimo parágrafo desta sua crónica, Abílio. É que – tantas vezes! – é exactamente assim que me sinto; “bombardeada por lições de todo o tipo… em textos que se apresentam como literários.”
    Gostei muito!
    Um abraço desde este meu pequeno e assustado Portugal.

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