Bosi, professor de muitos

Bosi, pai de tantos, avô de muitos… uma descendência enorme
Este texto foi postado por Tiago Bosi Concagh, no Facebook. Segurando a vontade de chorar por Bosi, pela tristeza de tantas mortes e pela raiva por causa de tanta injustiça, eu resolvi trazer o texto para cá. Certamente, eu irei ler e reler muitas e muitas vezes.

Meu avô se foi. Fez sua passagem e descansou por fim de uma vida dedicada a poesia, a literatura, ao humanismo e a militância socialista em busca do progresso humano.
É difícil encontrar as palavras para esse momento de luto. Escrevo para exorcizar a dor.
Lembro de meu avô contando que em 1961 ganhou uma bolsa de estudos para estudar literatura italiana em Florença: Pirandello, Leopardi, Gramsci, Vico, Croce, Manzoni, Giotto.
E Leonardo Da Vinci.
Ele tinha enorme paixão pelo tema do renascimento e humanismo italiano.
Estudou profundamente Dante e me ensinou que "Nel mezzo del cammin di nostra vita
mi ritrovai per una selva oscura", é possível entender a utopia que os olhos dos quadros de Giotto sutilmente escondem: utopia mística contra o realismo cínico maquiavélico.
Meu avô se emocionava muito ao ver o filme sobre a vida de São Francisco de Assis e Santa Clara de Zeffirelli – "Irmão Sol, irmã Lua". E da relação entre a canção de gesta medieval e a acumulação primitiva de capital do complexo econômico veneziano que fizeram, quinhentos anos atrás um jovem antever a relação predatória do homem frente a natureza que rege o capitalismo.
Quando criança meu vô se fantasiava de lobo e eu de São Francisco para interpretarmos a passagem do Lobo de Gubbio que atormentava os habitantes de Assis. Meu vô de lobo fingia ferocidade e eu o acalmava até ele se tornar dócil e me abraçar. Ríamos.
Depois de estudar literatura italiana a fundo, meu vô, por um movimento de amor ao nosso país resolveu se voltar a literatura brasileira.
Se tornou um pensador gigante se valendo de sua crítica literária aguçada para interpretar o Brasil pelo olhar de Machado, Rosa, Drummond, Graciliano.
Sua obra está ai, para ser lida e relida.
Mas seu último livro foi sobre uma paixão antiga: Leonardo da Vinci.
Um livro conciso. Que guarda dentro de si os enigmas do olhar de Alfredo Bosi. Leiam com atenção e afeto.
O que poucos sabem é que em 2019, a Unidos do Parque Aeroporto, em Taubaté, homenageou São Francisco – padroeiro da cidade.
Por meio do afeto das relações verdadeiras, meu avô foi consultado para o samba-enredo oferecendo uma aula magna sobre a grande lição de São Francisco: o amor à natureza; natureza essa que padece perante a ganância insaciável do lobo-homem. O desfile teve esse tom e eu tive o privilégio de participar carregando São Francisco num andor.
Alfredo Bosi se foi, mas foi sambando junto com São Francisco.
Da Itália ao Brasil, à Itália de novo e de novo ao Brasil.
O filho prodígio de uma costureira e um ferroviário da Barra Funda.
E lá no alto está, nesse momento, rodeado por todos os bambas do renascimento e da literatura brasileira. E minha vó já preparou um batucajé de três dias. 57 anos casados na terra: vó Créa e vô Fredo agora estão juntos pela eternidade.
E, assim, termino com a frase de Leonardo que meu vô viu na casa do renascentista, em Amboise, e que também é a última frase de seu último livro sobre Da Vinci:
"Nenhum ser vai para o nada".
Alfredo Bosi vive em nós.
como disse João Nogueira, meu vô vive agora "em nossas casas, bibliotecas e mentes" – e em nossos corações.

120 grandes obras da Literatura Brasileira

Ontem, 07 de abril de 2021, faleceu o professor, pesquisador, crítico literário e escritor Alfredo Bosi.
Um dos principais autores que todo estudante e pesquisador de Letras/Literatura lê durante o curso, durante a vida.
Em 2005, ele fez esta lista de obras imprescindíveis da Literatura Brasileira atendendo uma solicitação do Museu da Língua Portuguesa. Eu resolvi transcrever a lista aqui.
Listas sempre são problemáticas, criticáveis e, de certa forma, pessoais. Você certamente tiraria algum livro daí e certamente colocaria algum que falta na sua opinião.
É assim mesmo, cada um de nós tem sua própria lista na cabeça.

As 120 grandes obras da Literatura Brasileira, segundo o professor Alfredo Bosi
Para você usufruir e construir sua cultura literária

Colônia – séculos 16, 17 e 18

1. Pero Vaz de Caminha – Carta a Dom Manuel (1500)
2. José de Anchieta – Autos e Poesias (1550)
3. Padre Manuel da Nóbrega – Cartas (1553)
4. Gabriel Soares de Sousa – Tratado descritivo do Brasil (1587)
5. Bento Teixeira – Prosopopéia (1601)6. Frei Vicente do Salvador – História do Brasil (1627)
7. Padre Antônio Vieira – Sermões (1638-1695)
8. Gregório de Matos – Poesias – (ca 1680)
9. Manuel Botelho de Oliveira – Música do Parnaso (1705)
10. Antonil (pseud. de João Antônio Andreoni) – Cultura e opulência do Brasil (1710)
11. Nuno Marques Pereira – Compêndio narrativo do Peregrino da América (1718)
12. Academia Brasílica dos Esquecidos (1724) e Academia Brasílica dos Renascidos (1759)!
13. Cláudio Manuel da Costa – Obras poéticas (1768)
14. Basílio da Gama – O Uraguai (1769)
15. Fr. José de Santa Rita Durão – O Caramuru (1781)16. Tomás Antônio Gonzaga – Cartas chilenas (1789?)
17. Tomás Antônio Gonzaga – Marília de Dirceu (l792)
18. Domingos Caldas Barbosa – Viola de Lereno (1798)
19. Silva Alvarenga – Glaura (1799)

Século 19 – Romantismo, Realismo, Parnasianismo e Simbolismo

20. Gonçalves de Magalhães – Suspiros poéticos e saudades (1836)
21. Martins Pena – O juiz de paz na roça (1838-1842)
22.Joaquim Manuel de Macedo – A moreninha (1844)
23.Gonçalves Dias – Primeiros Cantos (1846)
24. Gonçalves Dias – Segundos Cantos e Sextilhas de Frei Antão (1848)
25. João Francisco Lisboa – Jornal de Timon (1852-1854)
26. Alvares de Azevedo – Obras (1853-1855)
27. Francisco Adolfo de Varnhagen – História geral do Brasil (1854- 1857)
28. Junqueira Freire – Inspirações do claustro (1855)
29. Manuel Antônio de Almeida – Memórias de um sargento de milícias (1855)
30. José de Alencar – O Guarani (1857)
31. José de Alencar – O demônio familiar (1858)
32.Luís Gama – Primeiras trovas burlescas (1859)
33.Casimiro de Abreu – Primaveras (1859)
34.Tavares Bastos – Cartas do Solitário (1862)
35.Fagundes Varela – Cântico do Calvário (1865)
36.José de Alencar – Iracema (1865)
37. Qorpo-Santo – Comédias (1866)
38. Sousândrade – O Guesa (1867-1884)
39. Castro Alves – Vozes d’África, O navio negreiro (1868)
40. Castro Alves – Espumas flutuantes (1870)
41.Visconde de Taunay – Inocência (1872)
42.Machado de Assis – A mão e a luva (1874)
43.José de Alencar – Senhora (1875)
44. Bernardo Guimarães – A escrava Isaura (1875)
45. Machado de Assis – Iaiá Garcia (1878)
46. Machado de Assis – Memórias póstumas de Brás Cubas (1881)
47. Machado de Assis – Papéis avulsos (1882)
48.Joaquim Nabuco – O Abolicionismo (1883)
49.Raimundo Correia – Sinfonias (1883)

50. Raul Pompéia – O Ateneu (1888)
51. Olavo Bilac – Poesias (1888)
52. Sílvio Romero – História da Literatura Brasileira (1888)
53. Aluísio Azevedo – O cortiço (1890)
54. Machado de Assis – Quincas Borba (1891)
55. Cruz e Sousa – Broquéis (1893)
56. Rui Barbosa – Cartas de Inglaterra (1896)
57. Artur Azevedo – A Capital Federal (1897)
58. Joaquim Nabuco – Minha formação (1898)
59. Alphonsus de Guimaraens – Dona Mistica (1899)
60. Machado de Assis – Dom Casmurro (1899)

Século 20
61. Euclides da Cunha – Os Sertões (1902)
62. Rui Barbosa – Réplica às defesas de redação do Projeto do Código Civil (1902)
63. Graça Aranha – Canaã (1902)
64. Cruz e Sousa – Últimos sonetos (1905)
65. Capistrano de Abreu – Capítulos de história colonial (1907)
66. Vicente de Carvalho – Poemas e canções (1908)
67. Augusto dos Anjos – Eu (1912)
68. Lima Barreto – Triste fim de Policarpo Quaresma (1911)
69. José Veríssimo – História da literatura brasileira (1916)
70. Monteiro Lobato – Urupês (1918)
71. Valdomiro Silveira – Os caboclos (1920)

(Modernismo)
72. Mário de Andrade – Paulicéia desvairada (1922)
73. Manuel Bandeira – Ritmo dissoluto (1924)
74. Oswald de Andrade – Memórias sentimentais de João Miramar (1924)
75. Oswald de Andrade – Pau-Brasil (1925)
76. Guilherme de Almeida – Raça (1925)
77. Simões Lopes Neto – Contos gauchescos (1926)
78. Alcântara Machado – Brás, Bexiga e Barra Funda (1927)
79. Mário de Andrade – Macunaíma (1928)
80. Cassiano Ricardo – Martim-Cererê (1928)
81. Manuel Bandeira – Libertinagem (1930)
82. Carlos Drummond de Andrade – Alguma poesia (1930)

(Depois do modernismo)

83. Raquel de Queirós – O Quinze (1930)
84. José Lins do Rego – Menino de engenho (1932)
85.Gilberto Freyre – Casa grande e senzala (1933)
86.Graciliano Ramos – São Bernardo (1934)
87.Jorge Amado – Jubiabá (1935)
88.Sérgio Buarque de Holanda – Raízes do Brasil (1935)
89.Érico Veríssimo – Caminhos cruzados (1935)
90.Rubem Braga – O conde e o passarinho (1936)
91.Dionélio Machado – Os ratos (1936)
92. Graciliano Ramos – Angústia (1936)
93. Otávio de Faria – Tragédia burguesa, I, Mundos mortos (1937)
94.Graciliano Ramos – Vidas secas (1938)

95. Marques Rebelo – A Estrela sobe (1938)
96.Murilo Mendes – A poesia em pânico (1938)
97.Jorge de Lima – A túnica inconsútil (1938)
98.Cecília Meireles – Viagem (1939)
99. José Lins do Rego – Fogo morto (1943)
100. Carlos Drummond de Andrade – A rosa do povo (1945)
101. Guimarães Rosa – Sagarana (1946)
102. Vinicius de Moraes – Poemas, sonetos e baladas (l946)
103. Henriqueta Lisboa – Flor da morte (1949)
104. Érico Veríssimo – O tempo e o vento (1949-1961)
105.João Cabral de Melo Neto – O cão sem plumas (1950)
106.Carlos Drummond de Andrade – Claro enigma (1951)
107.Jorge de Lima – Invenção de Orfeu (1952)
108.Cecília Meireles – Romanceiro da Inconfidência (1953)
109.Graciliano Ramos – Memórias do cárcere (1953)
110.João Cabral de Melo Neto – Morte e vida severina (1956)
111. Guimarães Rosa – Grande sertão: veredas (1956)
112. Guimarães Rosa – Corpo de baile (1956)
113. Clarice Lispector – Laços de família (1960)
114.Guimarães Rosa – Primeiras estórias (1962)
115.João Antônio – Malagueta, Perus e Bacanaço (1963)
116.Clarice Lispector – A paixão segundo G.H. (1964)
117.Osman Lins – Nove novena(1966)
118. Antônio Callado – Quarup (1967)
119. Haroldo de Campos – Xadrez de estrelas (1974)
120. José Paulo Paes – Um por todos (1986)

Alfredo Bosi, novembro de 2005.