abilio pacheco

professor de literatura (ufpa), escritor e revisor de textos

Entrevista a Paula Cajaty

Posted by Abilio Pacheco em 26 de janeiro de 2013

Entrevista concedida a Paula Cajaty em 2010

1) Você publicou Poemia em 1998 e, dez anos depois, Mosaico Primevo, lançado em 2008. Logo em seguida, em 2009, organizou o primeiro volume da Antologia Literária Cidade, que foi um sucesso estrondoso, abrindo o caminho para mais seis volumes (estamos hoje no Volume VII). Você sentiu diferença na recepção de público, e na divulgação do seu trabalho de escritor e organizador, com o uso da internet?

R= Paula, o desejo de organizar livros (coletâneas, antologias…) é da época em que em morava em Marabá e mandava pelos correios cartinhas sociais (de um centavo, existem ainda) e tinha contato com quase 300 autores. Depois que entrei no curso de Letras, eu sumi. Hoje, muitos desses autores com quem me correspondia, eu reencontrei por email. Alguns deles, inclusive, estão nas páginas da Antologia Cidade. Na época em que trocava cartas, também fiz antologias, mas todas xerografadas e grampeadas, artesanais, quase rústicas. Acho que tangenciei um pouco, né? Hoje, são mais de 300 autores somando aqueles que publicaram na antologia, que participaram do concurso (literacidade) e que estão nas páginas da agendinha de bolso. Isso sem contar aqueles com quem me correspondo independente de publicações. Desse modo, o uso da internet possibilitou um leque maior de contatos com outros autores. Tornou também o contato meio impessoal, mas faço o possível para diluir essa impessoalidade. Quanto aos leitores, é claro que hoje meu círculo de conhecimento também é maior. Dez anos é um bom tempo. Além de ter conhecido muitas pessoas, ter trocado de cidade e de instituição algumas vezes até chegar à UFPa, o que possibilitou novos círculos de conhecidos, é importante verificar que o fato de ser professor possibilita o contato com uma quantidade grande de pessoas e sempre em renovação a cada ano. Isto sem contar que além das aulas, ministro palestras, minicursos, oficinas etc. e troco emails com alunos para os quais dei aulas há dez anos, sendo que muitos ex-alunos também estão entre meus amigos no orkut e agora no facebook. Se não houvesse Internet, é provável que esses ex-alunos, ex-colegas de faculdade etc teriam sumido. Boa parte de meus leitores, estão são exatamente pessoas desses círculos, alunos, ex-alunos, ex-colegas de curso e até mesmo do ensino médio, ex-colegas de trabalho e colegas atuais etc. A Internet favoreceu esse contato, mas também favoreceu o recebimento de ideias,sugestões e opiniões. Por exemplo, muitos leitores que compraram o Mosaico Primevo (onde republiquei o Poemia) sugeriram o Poemia numa publicação à parte.

2) Eu participei das Antologias I e III. E o que mais me impressionou foi a transparência, a organização e a rapidez na transmissão das informações. De modo que, como escritora, eu estava sempre a par de todo o desenrolar do processo de publicação e de lançamento da Antologia. Você e Deurilene, como organizadores, consideram que isso é um dos diferenciais para o sucesso de uma obra coletiva?

R= Não sei se é um diferencial para o sucesso. Fizemos isso por dois motivos: primeiro por ser necessário conquistar credibilidade e segundo por que tentamos agir como gostaríamos que agissem conosco como autores. Não queríamos que algum autor que fosse participar da antologia se deparasse com "vamos estar verificando a possibilidade de…". Queríamos oferecer um tratamento transparente e mais pessoal.

3) A dobradinha com Deurilene ainda rendeu o Prêmio Literacidade, cuja segunda edição está em andamento, a Agenda Literária de 2011, e um projeto para livros de ensaios. Como é a recepção dessas atividades no contexto do mercado literário do Pará, e em especial dentro da comunidade universitária da UFPa, onde vocês são professores?

R= Tem também a Revista LiteraCIDartes. Todos os projetos (e outros que serão colocados em prática em 2011) estavam nos planos. Mas era preciso conquistar algum reconhecimento e mostrar algum resultado, antes de avançar com novos projetos. Quanto ao mercado literário paraense, cremos que não é muito diferente do mercado carioca ou paulista. Há diferenças, lógico. Talvez por haver editoras e uma tradição de circulação do objeto livro, o mercado no sul e sudeste seja melhor, mas creio que para o autor alternativo não haja grandes diferenças. Não gosto muito de pensar no mercado, pois as antologias (normalmente sobram entre 100 e 200 exemplares de cada edição) não têm o objetivo de comercialização no sentido tradicional. Elas servem muito mais para levar os autores aos leitores. Hoje, fazemos uma coisa que não fizemos quando você publicou conosco: fazemos uma lista dos locais para onde os livros gratuitos são destinados. Boa parte deles vai para bibliotecas públicas do interior do Pará. Em breve, vamos fazer projetos que orientei o professor como explorar didaticamente as antologias no trabalho de incentivo à leitura e produção escrita (literária ou não). Quanto à comunidade universitária, a recepção parece tímida, mas é natural. à medida de que essas ações vão aparecendo em outros lugares do Brasil, o reconhecimento local vai aumentando. Apesar disso, alguns professores universitários que também produzem textos de criação literária, já publicaram conosco (é caso de Nilo Carlos, de Belém, Tânia Sarmento-Pantoja, de Abaetetuba, e Eliane Machado, de Marabá) e de outros que já acenaram positivamente com vontade de publicar. Também alunos de graduação da UFPa publicaram conosco (Carlos Augusto Correa, de Abaetetuba, e Mauricirlene, de Bragança). Entretanto, Paula, é importante dizer que há uma recepção relativamente boa em Belém no meio literário alternativo. Basta ver a quantidade de autores (a maioria de Belém, mas também de Cametá, Castanhal, Itaituba, Marabá, Igarapé-miri, etc.) que publicaram na Antologia Cidade. Alguns, inclusive publicando textos pela primeira vez em livro.

4) Abílio, você acha que ainda hoje exista a questão da importância do eixo Rio-SP para a divulgação de um escritor em âmbito nacional, ou repara no surgimento de outros pólos de difusão literária, sobretudo em Minas, Brasília, Porto Alegre, e no Pará?

R= Sim e sim. Uma importância construída historicamente não será sobrepujada com facilidade, entretanto existem pólos importantes que se destacam nacionalmente (como Porto Alegre e Belo Horizonte) ou que se destacam nacionalmente por serem pólos regionais (como Brasília para o centro-oeste, Pará para a região norte, e São Luís e Salvador para o nordeste). Mas o circuito alternativo é diferente do comercial. É difícil dizer como funciona, mas, no circuito alternativo, muitos autores são conhecidos e reconhecidos entre si. Dificilmente um nome alternativo salta para o comercial. Passei seis anos vivendo o circuito alternativo através de correios, fiquei 7 anos afastado totalmente, quando voltei, soube de umas perdas (como Eno Teodoro Wanke e, ano passado, Miguel Russowsky), vi alguns (muitos, na verdade) novos nomes, outros simplesmente sumiram ou que ainda não reencontrei (como Ricardo Fingolo, do jornalzinho maringaense, que em 92 tinha 12 anos), entretanto pelo menos um terço dos antigos correspondentes continuam os mesmos. Escrevendo, mandando cartas e emails, publicando livros por conta, risco e amor, participando de concursos e conquistando prêmios, publicando em periódicos alternativos (jornais, revistas, fazines…) e em antologias cooperativadas.

5) Com a ajuda da tecnologia, ficou mais fácil ou mais difícil ser escritor?

R= Vejo e não vejo diferença. Os elementos com que se trabalha para produzir literatura permanecem os mesmos: a palavra (no geral), a música (para o lirismo), a memória (para a narrativa) e o homem (como o objeto de investigação), dramas, paixões, afetos etc continuam os mesmos. Com ou sem tecnologia. Não me parece haver diferença entre o ribeirinho que, ciumento e certo de ter sido deixado, se suicida (para causar sei-lá-o-quê na esposa?) e o japonês que, ciumento e certo de ter sido trocado por outro, liga a webcam, entra no chat com a namorada e se mata na frente dela. Também não vejo muita diferença entre o escritor que "luta com as palavras" com um toco de lápis perto de um toco de vela mas, mesmo cheio de ideias, as palavras não veem, e um escritor diante de um notebook tamborilando na mesa sem conseguir escrever. Tanto num caso como no outro, a tecnologia não ajuda nem atrapalha. Por outro lado, a circulação e a transmissão de ideias e informações, a facilidade com que nos deparamos com uma realidade que causa assombro, e novas possibilidades técnicas de uso da palavra terminam por fazer a tarefa do escritor ser outra, o compromisso ser outro e em outro nível. Tudo também vai depender do que o autor quer para si. Mas uma ressalva é necessária, são muitos brasis. Desde o Brasil da tv digital ao Brasil que usa ferro de brasa. Ainda existem muitos brasis onde a tecnologia não chegou, e mesmo tendo chegado, mesmo o governo tendo enviado através de projetos computadores e antenas para captar o sinal, tem dia que falta energia, tem dia que o sinal da antena não funciona e se funciona a banda larga existe só nos relatórios, falta quem instale o software, quando tem quem instale, falta quem dê manutenção no soft e também no hardware, falta quem abra a sala, falta escola de informática, etc. Não, Paula, não estou falando que isso ocorre em Belém. Mas isso não é exclusividade do Pará. Ou seja, com a tecnologia e sendo um escritor que tenta ter conhecimento da realidade local dos interiores, das cidades interioranas (pelo menos do norte-nordeste), mas também estabelecendo contato com as realidades brasileiras dos grandes centros, é importante ter em mente um pensamento bipolar, dicotômico sobre a tecnologia. Para ser escritor na região norte (mesmo morando numa capital como Belém) creio que é uma obrigação reconhecer a importância que a tecnologia tem para a circulação e transmissão de ideias e informações, mas também reconhecer o quanto comunidades estão (a despeito de se afirmar que estão conectadas e interligadas, ou até por isso mesmo) cada vez mais isoladas. (Você já deve ter percebido que sempre que estou viajando há demora nas respostas dos emails.) Não dá para escrever somente em sites e blogs, os informativos impressos e os livros são até mesmo uma necessidade.

Uma resposta to “Entrevista a Paula Cajaty”

  1. Escrever, simplesmente escrever, é uma necessidade básica, não?

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