abilio pacheco

professor de literatura (ufpa), escritor e revisor de textos

Casa da Cultura de Marabá

Posted by Abilio Pacheco em 22 de janeiro de 2013

Casa da Cultura de Marabá: lugar de memória

Tenho uma aluna em Capanema que é louca por Marabá, não sei se de pedra ou de lua, mas louca – mais ou menos como eu. Pedi a ela um lugar, um único lugar que lembrasse a cidade. A Casa da Cultura, sem dúvida – ela disse. Também é um dos lugares de meus afetos na boa terrinha. Não só de quando menino, mas também de hoje. A Casa da Cultura atravessa toda minha vida de memórias afetivas sobre “a mesopotâmia do sol” e da poesia. Minha lembrança mais antiga sobre a Casa é da época que ela nem pertencia à prefeitura. Lembro-me do helicóptero da CVRD, ou VALE, pousando onde hoje é um jardim circular, em frente ao prédio de madeira que ainda está lá e no qual durante muito tempo funcionou a instituição.

Nem conto quantas vezes fui fazer pesquisas. Ia da folha 17 para lá a pé, faltavam-me bicicleta e din dim para o ônibus. Às vezes, ia só para ler, trocar algum livro, folhear dicionários e enciclopédias. Há algum saudosismo nisso? A primeira vez que vi a imagem de um cabriolé e de um tilburí, foi numa dessas pesquisas. Quando visitei uma exposição de carruagens do século XIX em São Luís e apontei uma vitoriana, a moça-guia olhou-me como eu fosse de outro planeta. Hoje, vá lá, curioso no google imagem, não vai gastar nem dois minutos. Só não vai sentir o mesmo que eu ao atravessar a Nova Marabá esbranquecendo o meu quichute, nem o prazer de caminhar pela FCCM, de conhecer pessoas como o Professor Noé von Atzingen, presidente da FCCM, e a Dona Júlia, musicista.

O primeiro concurso de poemas do qual participei foi organizado pela Casa. Foi também um dos concursos literários mais importantes dos quais participei. Era um concurso local, eu estava esperançoso e confiante. Seria premiados os dez melhores textos de autores diferentes. Eu não apareci nem na foto. Foi importante exatamente por isso: eu não escrevia coisa que se aproveitasse e se eu tivesse ficado em “ônzimo” já seria motivo para continuar escrevendo de mal a pior. Textos daquela época devem ter sobrado só cinza e lembrança vaga.

Logo em seguida conheci alguém que mudou minha vida em termos de poesia: Heliana Barriga. Participei de uma “Oficina da Palavra” e comecei a ter contato com outras pessoas que escreviam. Chegamos a organizar uma Associação do Poetas de Marabá, ou Marabaenses. Faziam parte o excelente sonetista José Pontes (já falecido), Manuel Nunes da Silva Reis (de uma escrita moderna peculiar com metáforas na época estranhas para mim), e os mais jovens como: Jeani Macedo Cantanhede, Célia, Flamarion… Cometo a injustiça de não citar todos, mas seria mais injusto se omitize os que eu lembrei.

Mas tarde, quando comecei minha vida profissional, depois de ter sido eletricista no Hospital Celina Gonçalves, do qual o dr. Geraldo Veloso (anos depois prefeito) era dos principais acionistas, fui trabalhar na Escola Salomé Carvalho, numa biblioteca 3×4 (hoje bem maior que antes, obra da boa mão da professora Lúcia Bechara e da multiplicação dos pães, como disse o já e então prefeito G. Veloso). Foi um grato período de 05 anos, nos quais fiquei dedicado a FCCM, posto todas as bibliotecas ou salas de leituras da escolas municipais serem ligadas à Casa, para onde eu deveria ir todos os meses entregar relatório e participar de uma reunião de “convivência”. Sempre gostei de meus colegas de outras bibliotecas, mas já na época era arredio a confraternizações. Lembro de alguns nomes e de vários rostos: Rosivan, Caio, Olavo, Manuel P. Machado, Elena Borges…

Depois que saí da biblioteca e comecei a trabalhar feito louco para ganhar a vida (pão e leite para as crianças) fiquei vários lapsos temporais sem ir à casa. Não vi ocas serem construídas, dei por mim elas estavam erguidas formando um conjunto arquitetônico que em si trescala cultura e arte, serenidade e sabedoria. Lembro-me de terem me chamado para uma reunião não sei ao certo com que finalidade e, lamentalmente, tinha que declinar, pois minha cabeça estavam apenas nas minhas aulas na UFPA (era substituto) e nas disciplinas do mestrado.

Ao retornar a vida literária ‘alternativa’, subterrânea ondulante, fui à casa visitar e deixar uns livros. Não deveria ter me impressionada, mas fiquei deveras contente com o que vi. Além da arquitetura, a Casa estava muito bem cuidada, organizada e diversa. Na ocasião, ao passar por algo relacionado a atividade dos índios da região alguém disse que eles estavam sendo se civilizando. Logo, o professor Noé retificou afirmando que, na verdade, nosso modelo de civilização estava interferindo no modelo de civilização deles. Bingo! Não dá para esquecer afirmação tão pontual, sábia e certeira.

Hoje estou novamente ligado à Casa, ligado quase indefinidamente. Mais pelo que esperam de mim que pelo que eu realmente sou, fui indicado membro correspondente da Academia de Letras do Sul e Sudeste Paraense, cuja sede – provisória – fica na FCCM, mas tem entre seus membros o presidente da Casa, Professor Noé von Atzingen. Dezembro, quando estive em Marabá para conversar sobre literatura com alunos de ensino médio e de graduação em Letras, e passei o dia inteiro na Casa até o horário de pegar o voo de retorno a Belém, tendo assistido a uma exposição de artes plásticas e tido a felicidade de ver minha colega de Letras/97, Francisca Cerqueira, ser premiada num concurso organizado pela Academia, dei-me conta da inexorável, e nem por isso desagrável, ligação ad eternum com a Casa.

Ouvi umas vezes dizerem que quem faz cultura sempre deve retornar à Casa da Cultura. Dela, é um dos espaços de meu afeto, um dos meus lugares de memória em Marabá, será que dela em algum momento, de fato, consegui sair?

Belém/Capanema, 22 de Janeiro de 2013.
Abilio Pacheco, professor, escritor.
Professor universitário, escritor de prosa e verso, revisor de textos e organizador de antologias. Mestre em Letras (UFPA) e doutorando em Literatura (THL-UNICAMP). Três livros publicados. É membro correspondente da Academia de Letras do Sul e Sudeste Paraense (com sede em Marabá), Cônsul dos Poetas Del Mundo para o Estado do Pará, Embaixador da Paz pelo Cercle Universal des Ambassadeurs de la Pax (Genebra-Suiça) e faz parte da AVSPE.

3 Respostas to “Casa da Cultura de Marabá”

  1. Parabéns Abílio pela crônica, também tenho uma relação de amor com a Fundação Casa da Cultura e creio que todos nós que fizemos pesquisas, seja no ensino médio, seja na graduação temos boas recordações da FCC e do Noé. E quando lá vou, no mínimo uma vez por mês, para as reuniões da Academia de Letras do Sul e Sudeste do Pará, olho para a velha casa e lamento o dia em que ela vier a baixo. Que tal um movimento para revitaliza-la? Abçs.

  2. Parabéns pela narrativa Abílio.

    Saudações,

    Patrick Roberto Carvalho – jornalista

  3. Rapaz!… Viajei no tempo e no espaço, lendo sua crônica, Abilio. Fiquei emocionado, porque, embora não tenha uma ligação com a Casa tão linda, tão rica, tão emocionante, como você tem, acho o lugar muito lindo e, poeticamente, aconchegante. Lá tenho ido muito poucas vezes (quatro ou cinco, no máximo), mas tenho paixão pela beleza física do lugar. Aquele canteiro (jardim?) oval da rotatória da VP-8, em frente à Casa, cheio de sumaúmas demais componentes da vegetação que o embeleza, é, para mim, paradisíaco. Sempre foi. Tenho – aliás, sempre tive – um apego todo especial à VP-8, com sua arborização, cujo crescimento tenho, com alegria, vivenciado ao longo desses anos.

    Guardarei sempre na memória a imagem noturna da VP-8 que eu apreciava todos os dias (todas as noites, para ser preciso), de 1996 a 1998, anos em que trabalhei no Departamento de Apoio ao Discente (DAD), da Universidade Federal do Pará. Saía da sala de aula, como aluno de Direito, às 18 horas, e entrava no DAD, onde trabalhava sozinho – ressalto, sozinho – até as 22 horas. Saía, quase sempre muito cansado, e ficava a contemplar a Avenida VP-8 iluminada e a imensidão do céu, até que passasse o coletivo que me levaria para casa. Jamais esquecerei. Caramba! Saíram lágrimas agora. Acredite!

    Parabéns! A Casa da Cultura bem caracteriza a Marabá que eu amo.

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