Palimpsesto sem fim

Meu romance Em Despropósito (mixórdia) completou 5 anos, mil exemplares esgotados, alguns comentários recebidos pela internet (e que publiquei neste site), uma citação numa dissertação de mestrado na UFRGS (Dissertação de Fidelainy Sousa) e uma resenha publicada em revista acadêmica (escrita pelo professor Gutemberg Armando Diniz Guerra). É também parte de uma pesquisa sobre a literatura amazônica ou literatura da Amazônia Paraense (pesquisa realizada pela professora Tania Sarmento-Pantoja). Há também uns dois ou três artigos que escrevi e faço referências a ele, mas isto não conta.
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Ano que vem pretendo fazer uma segunda edição revista. Retirar algumas gralhas e fazer algumas pequenas modificações em alguns trechos, mas o enredo será exatamente igual, muito embora partes desta história fictícia tenha saltado como verdadeira na minha frente. Muitos trechos que não eram biográficos, pois se relacionavam apenas a vida do protagonista narrador, eu descobri que falavam na verdade sobre mim.
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Isto me fez repensar inclusive algumas questões de pesquisa. Ricoeur afirma que o passado não pode ser modificado. Mas afinal o que é o passado senão uma narrativa? Já que o passado em si não é outra coisa a não ser uma abstração?
Eu entendo o passado como a narrativa de fazemos dele, e como narrativa é possível ser modificado. Um fato revelado ou descoberto do passado lança outros esclarecimentos sobre o passado. As escavações arqueológicas, as pesquisas em arquivos, descobertas de documentos não revelados, novas formas de ler a História são exemplos de como o passado histórico tem sido reescrito.
Não duvido que algo semelhante possa ocorrer na vida pessoal. As narrativas literárias desde Édipo Rei, ou antes, exploram isso.
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O passado se modifica, sua narrativa muda sempre que novos dados, fatos ou informações aparecem. Se novamente descobrimos outro algo, reescrevemos a narrativa. Novas descobertas, novas narrativas. Num palimpsesto sem fim.
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um estudo de etimologia

um estudo de etimologia
abilio pacheco
 
bando sm. ajuntamento de pessoas.
 
abandono sm.
1. ato ou efeito de largar, de sair sem a intenção de voltar; afastamento.
2. falta de amparo ou de assistência; desarrimo.
 
abandonado
sm. indivíduo desassistido, desamparado, posto de lado.
mas também:
adjetivo
1. deixado ao abandono; desamparado.
2. que não recebe trato algum; negligenciado.
3. que se encontra desocupado, vazio.
 
abandonador (isto é algo novo para mim)
adjetivo substantivo masculino
quem ou o que abandona, desiste ou despreza.
 
o verbo parece bem mais interessante:
 
abandonar verbo
1. transitivo direto – deixar, afastar-se de (um lugar) para sempre ou por um longo período.
2. transitivo direto – deixar à própria sorte; desamparar.
3. transitivo direto – largar, deixar ficar (em determinado lugar).
a palavra “bando” também deu origem a
– ‘banda’,
– ‘bandido’ de forma pejorativa;
– ‘bandeira’,
– ‘bandagem’.
 
Com certeza, ‘band-aid’ é algo bem conhecido.
 
Em Portugal, chama-se HQ de ‘banda desenhada’
 
A etimologia latina tardia explica um pouco:
bandum < got. *bandwa ‘senha, sinal que identifica um grupo, bandeira’ p.ext. ‘conjunto, facção’
 
Em outros idiomas, vindos do latim existem palavras derivadas dessa raiz. Todas com o mesmo sentido de ligar, unir, atar, formar qualquer coisa ou grupo com alguma característica ou qualquer algo em comum.
(Eu ficaria linhas e mais linhas citando exemplos.)
Da mesma forma, em vários desses idiomas existem palavras derivadas para significar ‘abandodo’: tirar do bando, separar do bando, apartar do bando… Em alemão, é verlassen; algo como deixar largado, jogado.
O sentido pejorativo para agrupamento também existe em alemão e em inglês, “bandit”. Ao ouvir isso em qualquer idioma parece que a carga emocional do termo vem quase que imediatamente, como a arma num assalto chega junto com o medo.
 
Entretanto, quando leio ‘abandono’, ‘abandonar’, ‘abandonado’… acho o sentido tão chocho, tão inócuo, tão isento de carga emocional quanto uma explicação técnica.
 
Àquele que é retirado do ‘bando’, o que resta?
O ermo da estrada? O exílio do mundo? O charco?
Tinha uma palavra até bonitinha que ouvi numa canção de MBP, mas a memória não me traz agora.
 
As palavras, elas bem dizem muito sobre o mundo, as pessoas e as coisas. As ações. Então, eu escrevo, mas também ‘re’escrevo; eu posso ser feliz, ou ‘in’feliz, ou ‘des’infeliz (como dizia Mário de Andrade). A gente até inventa quando o termo não existe: por isso, ‘imorrível’, ‘impodível’…
 
As línguas, os idiomas são flexíveis. Tão flexíveis quanto a própria verdade das coisas. Mas ambas tem seus limites.
 
Nenhum idioma tem algo como o que seria em Português:
 
– des-bandono ou de-abandono, in-abandono, re-bandono,
– des-bandonar ou de-abandonar, in-abandonar, re-bandonar,
– des-bandonado ou de-abandonado, in-abandonado, re-bandonado.
Se a língua não suporta a invenção da palavra, é porque o que há de sentido nela não pode existir.

 

2º Período Nacional

Material da disciplina:

Literatura Brasileira 2º Período Nacional
UFPA – Capanema – Julho de 2018

A) Material completo da disciplina: Download.
(Capa, ementa, referências, objetivos, cronograma, etc.)

B) Materiais para os seminários:
O romance regionalista de 30

Todos os grupos deverão ler o texto:
BUENO, Luís. Os três tempos do romance de 30. Download.

Grupo 1 – Graciliano Ramos – São Bernardo e Vidas Secas

Cronograma de São Bernardo.

CALEGARI, Lizandro Carlos; HAISKI , Vanderléia de Andrade. A perspectiva crítica em Rachel de Queiroz e em Graciliano Ramos. Download.

QUELHAS, Iza. O enigma da chama: autor, leitura e leitor em São Bernardo, de Graciliano Ramos. Download.
MARQUES, G. Geografias do drama humano: leituras do espaço em São Bernardo, de Graciliano Ramos, e Pedro Páramo, de Juan Rulfo. Download.

PATTO, Maria Helena Souza.O mundo coberto de penas: Família e utopia em Vidas secas. Download.
BOTOSO, Altamir. Opressores e oprimidos: uma leitura do romance Vidas secas, de Graciliano Ramos. Download.

Grupo 2 – Raquel de Queirós – O quinze e Memorial de Maria Moira

GOMES, Carlos Magno. A aula de alteridade em O quinze. Download.
CALEGARI, Lizandro Carlos; HAISKI , Vanderléia de Andrade. A perspectiva crítica em Rachel de Queiroz e em Graciliano Ramos. Download.

MEDEIROS, Lígia Regina Calado de. A metonímia do corpo em conceição de O quinze. Download.

PAGANUCCI, Jeanne Cristina Barbosa; FREITAS, Zilda Oliveira (Orientadora). Rachel de Queiroz e autoria feminina leitura literária e leitura cultural. Download.

COQUEIRO, Wilma dos Santos. As Metáforas da sociedade patriarcal no romance de Rachel de Queiroz: o percurso da narradora protagonista Maria Moura. Download.

Grupo 3 – José Lins do Rêgo – Menino de engenho e Fogo morto

DUARTE, Mariana. MENINO DE ENGENHO, USINA E FOGO MORTO: Uma proposta de trilogia para os romances de José Lins do Rêgo. Download.
SANTOS, Enoque Bernardo. Carlos de Melo vai à escola. Download.
MARQUES, Helton. Ficção, História e Memória em Menino de engenho, de José Lins do Rego. Download.

SILVA, Mirian Cardoso; COQUEIRO, Wilma dos Santos. A representação da mulher na sociedade patriarcal do século XIX: uma leitura de “Fogo Morto”. Download.

Albuquerque Júnior, Durval Muniz de. De Fogo Morto: mudança social e crise dos padrões tradicionais de masculinidade no nordeste do começo do século XX. Download.

Grupo 4 – Jorge Amado – Jubiabá e A Monte de Quincas Berro D’água

ORLANDINI, Giovani Buffon. Engajamento Literário em Jubiabá: o horizonte político da classe trabalhadora na posição ideológica do narrador. Download .
BRIGNONI, Bianca. O ABC do negro em Jorge Amado: Jubiabá e Tenda dos Milagres. Download.
Roéfero, Marilani Soares Vanalli. “Jorge Amado e a consciência discursiva em A Morte e A Morte de Quincas Berro D’água” Download.
Fonseca, Marisilvia Aparecida. A pluralidade cultural em A Morte de Quincas Berro D’água. Download.

Grupo 5 – Érico Veríssimo – Incidente em Antares e Caminhos Cruzados

SILVA, Márcia Ivana de Lima e. O fantástico e a censura: Incidente em Antares de Erico Verissimo. Download.
TORRES, Daniela Freitas; SANTOS, Elaine dos. História, Literatura e Ditadura: o caso João Paz em Incidente em Antares. Download.

SCHEFFEL, Marcos. Da janela do Clarimundo: a condição do intelectual em Érico Verissimo. Download.
SANTOS, Donizeth. A técnica narrativa do contraponto no romance Caminhos Cruzados, de Erico Verissimo. Download.

Sobre o Despropósito

Comentário ao meu romance Em Despropósito, feito pela escritora Conceição Maciel, de Capanema-PA.

 

Após ler “em despropósito (mixórdia)” do escritor Abílio Pacheco, sinto-me motivada a escrever algo sobre este surpreendente romance. Como o próprio nome sugere, uma mistura de fatos ou acontecimentos oportunos ou não. Alguém falou que a obra é uma salada, realmente tenho que concordar, “em despropósito ” é uma deliciosa salada, a melhor que já havia experimentado, com sabores que prendem a atenção e inspiram na busca por descobrir seus ingredientes. O romance é basicamente uma mistura de sentimentos e acontecimentos que tumultuam a vida de um homem, refletindo em sua vida amorosa. O autor entra sucintamente na questão sobre as mortes de trabalhadores rurais em Eldorado dos Carajás e descreve Marabá com a autoridade de quem já morou ou mora lá. Percebo a obra centrada na figura da mulher, uma confusão, uma profusão de mulheres que mexem com aquele homem que guarda em si mágoas, rancores de um passado que não passa, que permanece vivo em cada pedacinho dele, mas o mesmo ser que o encanta e o leva ao paraíso, é o mesmo que o leva ao inferno e é o mesmo que dar sentido à sua vida e faz dela uma mixórdia de sentimentos que vai do ódio à ternura e o prazer da paternidade até a desgraça de se descobrir |||||||||||||||||||||||||||, seu grande amor. A obra se assemelha à uma tragédia, como a de Édipo Rei com um final surpreendente. #RECOMENDO

comentariodesproposito