prelúdio

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Prefácio à antologia de texto erótico-sensuais “Para amar em todos os tons: em rosa em roxo em rubi”

Prelúdio, preâmbulo, prefácio ou preliminar… o que vem antes. Antes do principal. Antes da brincadeira. Do ludus. Brincadeira antes do brincar. Mas o ‘ante’ do ludus é também ludus… e chega a ser maior, mais demorado que o ludus. Indispensável, diga-se, mas não inconfundível. Apenas o prelúdio não seria, em muitos casos, de per si o gran-ludus?

Ao convidar autores a editora solicitou ‘textos que versassem sobre ou apresentem conteúdo romântico-libidinoso, sensual ou erótico, que despertassem desejo, apresentassem certas insinuações, possibilitassem fantasiar, descrevessem jogos de sedução, mas não de modo literal e explícito o ato sexual ou mesmo tendessem a obscenidade’.

Solicitou-se, então, textos em três níveis diferentes rosa (romântico-libidinoso), roxo (sensual) e rubi (erótico). O livro teria três partes bem demarcadas, mas… que graça teria? Os limites são por demais tênues e bem relativos, cabe ao leitor dizer o que mais lhe é rosa, roxo ou rubi.

Vamos aos textos, pois o prefácio aqui deve ser curto. Discreto. Dispensável. Embora um pouquinho lúdico.

amor e seu anverso

amor e seu anverso

Abilio Pacheco

Prefácio ao livro Amor à mostra de Airton Souza

De memória relembro os versos de um outro poeta marabaense sobre o amor: “tudo traz em si o seu inverso / sedas da secreta essencial” é o que nos diz Ademir Brás. Neste pequena antologia poética pessoal lírico-amorosa, encontramos versos que bem seguem esta máxima. São textos que falam de amor e desamor, amar e desamar; não à toa o poema da página 24.

Por se tratar de poemas de épocas distintas, os poemas oscilam no estilo e deixam a leitura ao sabor de um balanço de rede. No saldo, Airton mantém aqui algumas de suas marcas: a seleção vocabular, a consciência de escrita, certo ludismo e em vários poemas (creio que nos mais recentes) o seu exílio na palavra.

Livro para presente, lembrança, cabeceira, para cabeças e corações.

Palavras púrpuras para o caminho

Palavras púrpuras para o caminho…

Abilio Pacheco

Prefácio ao livro (in) versos versos de Rodrigo Araújo e Castro

Em versos carregados de eterelidades perenes e diáfanas, este primeiro livro de Rodrigo Araújo e Castro abre aos nossos olhos trilhas líricas para o mistério das coisas. As palavras púrpuras que traduzem os hieróglifos possibilitam reflexões nas proximidades da compreensão acerca da essência do sublime. Não à toa, o poeta aqui conclama os Poetas-primeiros. Eles que são ‘desbravadores de mundos’.

A fim de conduzir o leitor neste caminho, a poesia se apresenta vertiginosa, desrítmica mas cíclica, redemoinha e envolvente. As metáforas, marcadamente visuais e com frenquência sintaticamente nominais (substantivos e adjetivos), dão agilidade à busca ensejada pelo eu-lírico, reforçam a riqueza lírico-imagética (entre penumbras, cores quentes e claras) e ressaltam o clima enigmático geral presente nesta poética.

Para escavar o etéreo e perscrutar o sublime, o poeta provoca o leitor a retornar ao clássico, a especulá-los. O caminho para o inefável lírico passa necessariamente por aqueles que dominaram o reino da palavra e que edificaram mundos exteriores, interiores e etéreos bem como conformaram pessoas, suas alegrias e suas dores.

O caminho são as palavras e encontro pode estar (in)versos.

Uma nascente lírica

Uma nascente lírica

Abilio Pacheco

Prefácio ao livro Nascente de Palavras de Rafael Miranda

Ao ler a capa deste livro, o leitor tem uma expectativa do que encontrar. Mas não é sempre assim? Claro que é, mas neste caso gostaríamos de destacar o quanto Márcia Abath captou o espírito da lírica de Rafael Miranda e presenteiou ao leitor com a belíssima re-leitura que esta na capa deste volume. ‘Nascente de palavras’ é um livro de origem, de brotação vertiginosa, jorro de sons e palavras, como parecem espandir-se na capa as imagens e cores da capista carioca.

Deixa-nos muito felizes encontrar autores como Rafael que escrevem de modo bifrontal, bi-cronos. Sua lírica é vazada tanto em versos metrificados na forma de sonetos, quanto em versos livres com ar de modernidade. Nesta lírica, também encontramos poemas com temática clássica na literatura, quanto podemos nos deparar com temas e motivos próprios de nosso tempo, a exemplo da temática da interconectividade da vida digital.

Em sonetos ou em versos livres: reflexões filosóficas, reflexões que espelham a idade adolescente, muitas sobre o amor e as mulheres, também ganham relevo neste trabalho poético. Ora ou outra com alguma ironia. Não estranhe o leitor se encontrar versos ao sabor de Álvares de Azevedo, seja no poema em que Rafael canta o cotidiano, aparentemente não lírico como a nudez da camaleoa, seja no desejo/medo de amar ou mesmo nos jogos cromáticos (como no ‘Soneto Lunar’).

Entretanto, ao contrário do poeta romântico a morte não tem aquele mesmo carater desejosamente mórbido. Rafael trata esta com uma proximidade não temerosa a ponto de querer convidá-la para uma cerveja no bar. A morte é parceira em vida, companheira vital, ante-tumular.

Também ao contrário de Álvares de Azevedo, a relação com a mulher aqui pode até apresentar um pouco de idealismo, mas está prenhe de uma carnalidade e de uma efusão de realidade e realismo próprios de uma experiência aparentemente verdadeira, coisa que só o poeta pode declarar; mas não o perguntemos.

Queríamos destacar ainda a força de seus poemas sobre a arte de escrever e sobre a arte de modo mais amplo. O poema ‘Arte’ revela um artista sintonizado com as questões mais presentes do pensamento estético enquanto ‘Autobiografia’, por exemplo, revela um autor com um alto grau de consciência de seu trabalho poético.

Rafael Miranda escolheu primorosamente o título de seu trabalho. ‘Nascente’ tanto se refere a algo que está no início quanto algo que continua, que prossegue… as águas correm para o mar. Para onde seguirão seus versos?

as exilias matinais

às exilias matinais

Abilio Pacheco

Prefácio ao livro Manhã Madrugada de Adriano Apocalypse, Literacidade, 2014.

O título deste prefácio causa-lhe estranheza? Leia-o outra vez, e outra… Pela quinta leitura ainda poderá soar estranho, ou poderá amoldar-se ao paladar de seu olhos e ouvidos, mesmo que ainda lhe fique algum ranço. A lírica de Adriano é praticamente toda atravessada por esta incomum mas deliciosa sensação.

A literatura feita por jovens atualmente – a exemplo do que temos lido de autores de até 40 anos ultimamente, mesmo de poetas de variados lugares – parece-nos morar na mesma casa de linguagem que a poesia de Herberto Helder e Leopoldo María Panero. Após a imitação de ações e a imitação de emoções, e mesmo os exercícios de poesia pura, arte pela arte, a poesia de muitos bons poetas novos escava a linguagem em busca de essências e de morada. É uma poesia que constrói pela destruição, ou, usando uma imagem muito cara à Cortázar, que se edifica do mesmo modo como se faz um túnel.

Como se trata de uma poética bastante volátil, entre si os autores se assemelham principalmente pelo fato de cada um ter sua ilha. Uma poética (no sentido de norma, regra) absolutamente a-poética. No primeiro poema, está claro: “não comece dando ordem”. Embora os poemas seguintes sejam metrificados (em metros diferentes), o monóstico inicial deixa evidente que a liberdade poética e de linguagem deve ser esperada pelo leitor.

Outro poema que bem evidencia parte da proposta poética de Adriano é o “Soneto vazio” (página 15). ‘Destituído de sentimento’, o poema não mais mimetiza, não mais representa… também não é utilitário (aliás, o que lhe fere deleteriamente), o poema apenas “é”, existe. Lugar e acontecimento; coisa feita pelo poeta. Casa na qual faz morada.

Neste exílio, Adriano apresenta uma lírica cuidadosa com o material de trabalho, com as palavras. Boa parte de seus poemas podem ser metrificados, mas mesmo nestes há um aroma, uma essência de modernidade, em boa parte devido a escolha de sonoridades próximas e por combinações semânticas inesperadas, surpreendentes.

As intertextualidades e as ironias, especialmente nos poemas com epígrafes e nos poemas curtos, também conferem um sabor de atualidade e re-atualidade para esta lírica vicejante que ainda muito vai nos revelar.