Brecht – poema

… porque assim – do nada – deu vontade de ouvir Brecht.

O Vosso tanque, ó General, é um carro forte
Derruba uma floresta esmaga cem
Homens,
Mas tem um defeito
– Precisa de um motorista

O vosso bombardeiro, general
É poderoso:
Voa mais depressa que a tempestade
E transporta mais carga que um elefante
Mas tem um defeito
– Precisa de um piloto.

O homem, meu general, é muito útil:
Sabe voar, e sabe matar
Mas tem um defeito
– Sabe pensar

Como ciganos à noite

Sabe quando a gente escuta uma música cuja letra é um verdadeiro poema. Sem raízes (No Roots), de Alice Merton, é um desses “poemas que gostaria de ter escrito”.

Peguei a letra no Vagalume e fiz umas mudanças, mas a autoria ainda é dela; por favor.

Sem Raiz
Alice Merton

Eu gosto de cavar buracos
e esconder coisas dentro deles
Quando eu envelhecer, eu espero
Não esquecer de encontrá-los
Pois tenho lembranças
e viajo como os ciganos à noite

Eu construí uma casa
e aguardo alguém que a derrube
E então, empacoto em caixas
Direto para a próxima cidade
Pois tenho lembranças
e viajo como os ciganos à noite

Milhares de vezes
Eu já vi esta estrada
Eu não tenho raízes
meu lar nunca foi no chão

Eu gosto de ficar parada
Mas isso é só um plano
Pergunte-me de onde eu venho
Toda vez responderei uma terra diferente
Mas eu tenho lembranças
e viajo como os ciganos à noite

Eu não posso dizer frases no ouvido
jogando "telefone sem fio"
Apenas os lugares mudam
o resto continua o mesmo
Mas eu tenho lembranças
e viajo como os ciganos à noite

Eu não tenho raízes
Minha casa nunca foi no chão
Eu gosto de cavar buracos
esconder coisas dentro deles
Quando eu envelhecer
Não esquecerei de encontrá-los

Talvez você estranhe a apresentação do texto e a troca que eu fiz do jogo “advinha o nome” por “telefone sem fio”.

De todo modo, vamos lá ouvir a canção também, né?

Poema Habitat

O perfil de instagram @cuiraliteraria , de @izabelacristian , publicou este meu poema.
Faz tanto tempo que eu não releia que até estranhei o poema. A análise de hoje é bem outra depois de quase 15 anos.

Este poema foi publicado no meu livro mosaico primevo publicado em 2008.

Hodierno

Hodierno
Abilio Pacheco

 

Encontro-me entristecido neste tempo de flores
Que recendem sussurros muito de leve,
Pouco nítidos, em voz reticente e breve
E que eu nem bem os consigo sentir direito.

É um tempo de sons persistentes, repetidos,
Como num conhecido bolero de ritmo em crescente
De todo repetido pouco menos de dois centos de vezes
Porém de se vencer o entendimento de modo frouxo
Ou preferível pelo repetir insistentemente o invero

Meu ouvido foge de ser conduzido por esse ritmo
Recuso-me ser um simples resiliente neste movimento
Pleno de homens e mulheres que vejo rotos
Esse som eu dessigo-o de lento e ouço-me
Por inteiro descrente de meus olhos níveis e ouvidos mocos