Sr Antonio – personagem no desproposito

Trecho do “Em Despropósito (mixórdia)”:

“Acorda, Seu i-n-ú-t-i-l! Sempre ao chegar na minha casa, Sr. Antônio me chamava desse jeito. Dizia fazendo bico como imitasse algum personagem. Nem chiava, nem sibilava ‘ss’. Erguia voz na sílaba breve-tônica de modo a última deslizar alongada. Aquilo era uma brincadeira desde quando eu era seu servente e ele era meu mestre nas obras por essas Folhas. Embora a fala fosse sempre no mesmo tom, às vezes parecia assumir algum outro peso. Além daquele episódio do trinta, ele me recolheu do resultado da esbórnia outras vezes. Eu e outro servente, junto com os pedreiros, um dia demos de tomar umas tantas todas e paramos no mercado central da Velha para bebericar água vetada a aves. Os pedreiros, menos um, eram perversos comigo, me judiavam. Diziam ser preciso apanhar para não abrandar. O bar de canto, perto da igreja de São Felix dos Valois, eu julgava carecer de algum feito de nosso serviço. Era construção antiga, paredes grossas, reboco de muita areia, tijolos maciços, sem furo, pé direito muito alto, sem forro. Eu já era de olhar as coisas demais fora do trabalho. Ralhavam comigo. Havíamos acabado de sair de uma reforma em casa de fachada feia e interior de um luxo nunca visto por mim. Dei pelo despropósito e explicaram-me o blefe da inversão. Por fora pão bolorento, por dentro a bela viola. Fachada de luxo chama bandido e, sendo político, pobres pedintes. Eu observava as telhas de barro e as prateleiras do bar, quando colocaram na mesa os copos com um líquido verde e como tira-gosto uns pires com carambola cortada em cubos. Eu não tinha acordo dessas bebidas com nome de enrolar a língua quando a gente fala, coisa de bacana. O copinho americano com talho na borda. Aquilo não era uísque ou vodka, bebidas que conheci quando estava enrolado com a paranaense. Todos pegaram seus copos para brindar ou para cumprimentar o santo. Como eu relutasse, É licor!, mas outro disse ser Huck. Brindei e tomei. Ah, era uma cachacinha de nada, coisa de criança, pedi mais uma e mais uma e já era. A quarta dose me desnorteou. Ainda tomei mais uma para disfarçar, ora. Apaguei. Olhos reabertos estava com uma caneca de caldo na sua casa e ouvindo-o me chamar i-n-ú-t-i-l.”

Pacheco, Abilio. Em despropósito (mixórdia). Belém, Literacidade. 2013. pág. 92-93.

Em desproposito (deguste)

em despropósito
divulgação capa

Em despropósito (mixórdia)

Abilio Pacheco

Capítulo I

Parti de Marabá rumo a Belém num ônibus das 22 horas que saiu quase meia-noite.

Muitas das histórias desse trecho, tão repetido por mim, são pouco agradáveis de se contar. Delas, das genéricas, pouco ou nada devo explanar aqui; apenas digo ser devido a elas eu não costumar dormir antes de chegar a Jacundá. Quem tem costume nestas plagas sabe que entre uma e outra cidade a distância é de 150 km, cerca de hora e meia, e, no permeio, duas paradas: a primeira em Morada Nova, ainda Marabá, mas a 12 km da sede do município, ou antes, a 12 km da ponte sobre o Rio Tocantins. A segunda parada é em Nova Ipixuna, onde minha alma gêmea, Irma, morou – como ela diz – um curto-longo tempo, intermináveis cento e dois contados dias. Lá nos conhecemos e namoramos de início…

Continue Lendo “Em desproposito (deguste)”