falando agua

Falando água

A região era inóspita, quente e seca, além do ar rarefeito; carecia de chuva. E de um milagre. Profetas, anciãos, pregadores… já haviam tentado rezas, orações, sacrifícios. A ciência também não deu jeito; quando foram bombardear as nuvens o céu estava limpo.

O filho do prefeito disse que deveriam chamar um primo parolador. Afinal, todos diziam que ele só falava água.

A primeira dama trouxe-o de uma cidade vizinha e levou-o a mais alta torre.

De lá o primo começou um discurso lento e longo. E úmido. Logo o calor e a aridez foram vencidos por gotículas de saliva.

Abilio Pacheco

A casa do gênio (conto breve)

A casa do gênio

Abilio Pacheco

Todos diziam que ele era muito inteligente. Que era um gênio.

Como poderia ter tantos problemas, financeiros inclusive, e não conseguir resolvê-los? E o rol era grande. Difícil de listar.

O que mais incomodava, porém, era a falta de uma moradia, faltava-lhe casa própria.

Dias depois desaparecera, mas logo o encontraram acomodado dentro de uma garrafa.

Um continho de Natal

Noel

Abilio Pacheco

Nunca entendera direito o porquê de seu nome. Na escola, as brincadeiras e gozações duravam o ano todo, mas pioravam em dezembro. Na idade adulta, uniam nome e homem, punham-lhe barba, gorro e roupas vermelhas. Nos anos em que as finanças estavam complicadas, para ganhar um extra, a solução era incorporar o bom velhinho em lojas de brinquedo e de departamento. Nesses anos, o ano novo mais lhe trazia melancolia que esperança renovada.

No último natal, não era necessário faturar um extra. Mesmo assim vestiu-se de vermelho, pôs gorro, barba, barriga, gargalhada e voz rouca. Com um saco de pano nas costas partiu rumo à carruagem com renas e anões que o esperava em frente ao shopping. Sentou-se às rédeas, disse os nomes das renas e uma por uma moveu orelhas e abriu olhos. Aí soltou a inconfundível gargalhada, brandiu a brida e adejou pelos céus de dezembro.

Amante das Leituras

Amante das Leituras (*)

Abilio Pacheco

O cônjuge não apresentava os sinais que lhe ensinaram. Mas havia algo. Sentia. Embora faltasse descobrir o pivô, tinha certeza. Era necessário observar mais atentamente.
Cuidados, afetos, carinhos eram mesmos, mas o olhar distante, como se vazado, o gesto frouxo, como se exausto, e o pensamento moroso, como se custasse a alcançar o que via ou ouvia… Daí, suspeita se firmava pachorra e inequívoca.
Montou tocaia. Preparou-se para o que fosse. Iria descobrir este comborço, camélia , valete de baralho. Caminhou pezinho ao de leve, girou lenta a maçaneta, abriu porta e descobrindo-o metido entre pilhas de volumes soube que o cônjuge era amante dos livros.
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(*) Conto escrito especialmente para o desafio de prosa da lista de discussão “Amante das Leituras“. Com este ainda belisquei o Segunda lugar.

Conto breve – promoção

Promoção

Abilio Pacheco

Estava já enfadado das partidas. Para si o resultado era sempre o mesmo. Perdessem ou ganhassem os jogadores, ele sempre seria trocado ou sacrificado; talvez chegasse à sexta casa, mas quando era promovido normalmente era capturado antes mesmo que o jogador escolhesse dama, torre ou cavalo.

Vivia inconformado, pois era feito do mesmo material que outros. Tomado por uma atitude decisiva, tão logo puseram a partida em andamento, após avançar duas casas, derrubar um peão oponente na diagonal adjacente, avançar novamente e capturar um cavalo, pulou na oitava casa. E, antes de qualquer coisa, saltou do tabuleiro escolhendo sua promoção: KASPAROV!!