abilio pacheco

professor de literatura (ufpa), escritor e revisor de textos

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O futebol é uma caixinha

Posted by Abilio Pacheco em 24 de outubro de 2016

 

O Futebol é uma caixinha
Abilio Pacheco

A frase completa é “o futebol é uma caixinha de surpresas”. A frase já era clichê na década de 90 quando eu assistia futebol italiano nos domingos pela manhã junto com meu padrasto, e mamãe ficava impaciente pois a gente deveria era ir para a escola bíblica dominical. A frase, entretanto, é velha e “foi inventada pelo comentarista Benjamim Wright, pai do ex-árbitro José Roberto Wright” segundo o livro Guia dos curiosos. Para hoje a gente precisa completar a frase de outro jeito.

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Ontem – para desopilar – parei tudo para tomar duas cervejas e assistir Flamengo e Corinthias pela 32ª rodada do Brasileirão. Confusões e mais confusões. E o gol do Flamengo foi visto como ilegal até pelos flamenguistas que lotavam a sala de estar da casa do meu irmão. Eu já vinha ruminando há dias uma explicação sobre o futebol e o Brasil. Afinal, deve haver explicações para que o futebol seja tão relevante na vida nacional a ponto de afirmarem que é uma marca de nossa identidade. Somos “O país do Futebol”. Por quê?

Vou esboçar uma resposta arriscada, sem base livresca e por isso mesmo meio irresponsável. Quem quiser uma base acadêmica para o assunto, vai ler “Veneno remédio: o futebol e o Brasil”, de José Miguel Wisnik [São Paulo: Companhia das Letras, 2008]. Aqui vou na base do achismo mesmo.

O brasileiro se identifica com o futebol por um enorme motivo que vou fatiar em dois: não é um esporte justo, pois o placar não condiz com a qualidade do futebol do time vencedor e porque a arbitragem…

Em qualquer esporte, principalmente coletivo, a possibilidade de uma equipe jogar pior e vencer é mínima. Não é uma equipe mais fraca vencer. Isso é possível em qualquer esporte. Um dia mais “iluminado” e de repente o Íbis vence o Santa Cruz, ou o Águia derrota o Fluminense. Não é isso a que me refiro! Digo é qualidade do jogo jogando. Ao contrário do vôlei, por exemplo, em que a estatística dos fundamentos reflete o resultado da partida, no futebol, uma equipe pode ter menos pose de bola, mais passes errados, menos tomadas de bolas, menos chutes a gol, menos escanteios, menos cobranças de laterais e até menos pênaltis e ganhar o jogo. No futebol, as estatísticas de todos os fundamentos podem apontar para a superioridade de uma equipe, mas se isso não se converter em mais gols, nada feito. Podem alimentar semanas de discussão, mas o melhor time nem sempre vence. Aquela máxima esportiva “que vença o melhor” simplesmente não vale para o futebol.

WhatsApp Image 2016-10-24 at 15.27.20.jpegOutro motivo – talvez o principal – para que o brasileiro goste tanto tanto de futebol são os erros de arbitragem (alguns nem parecem ser erros). Enquanto em outros esportes coletivos ou envolvendo bola (novamente o voleibol é um exemplo nesta comparação) o recurso eletrônico ou vídeo-tape (ou sei-lá como chamem) é usado, no futebol vale a decisão individual e muitas vezes personalíssima do juiz ou árbitro. E uma das piores coisas que tem neste esporte é o tal impedimento. (Na minha opinião não deveria existir essa regra. Em outro post eu explico) Ontem, o lance que mais irritou os torcedores do Corinthians (e de quem torcia pelo time paulista como eu) foi o lance do primeiro gol do Flamengo. O lance é exatamente igual (veja na imagem) ao que causou tanta polêmica na 30ª rodada do Brasileirão e que fez o Fluminense ir perder tempo no STJD. Os erros de arbitragem têm sido tão constantes, tão vergonhosos e tão determinantes para os resultados das partidas que parece que um time para garantir mesmo mesmo a vitória por um gol de diferença precisa ter um lastro grande, ou seja, futebol e boa pontaria para ganhar com uns três ou quatro de vantagem.

Claro que essas injustiças não são exclusividade do futebol. Podem acontecer em outros esportes. Erros de arbitragem podem ocorrer até com vídeo-tape, pois vai que a tal interpretação seja duvidosa. As decisões por arbitragem em artes marciais (boxe e judô, por exemplo) não são raras. O problema é que no futebol – e você com certeza já ouviu dizer isto: – os erros fazem parte do jogo. Quando o erro é a favor do meu time, eu ignoro e capitalizo. Lembro não sei quando que isso também ocorreu ao revés. Quando é contra, aí a gente faz um barulhão. Em geral, é assim. No fim, é engolir em seco. Nem digo ao Corinthians que peça o advogado do Fluminense emprestado, porque é certo que não vai dar em nada.

De injustiça em injustiça, o brasileiro vai levando. É na política, é na polícia, é nas escolas, é nas igrejas, é nas ruas… e vai tirando a mão da minha bandeira… pois o futebol é uma caixinha de… (completa aí).

Ps: Ah, você deve estar pensando: com mais pênaltis a favor é impossível perder uma partida. Pois perde. Em 1999, a Argentina teve três pênaltis a seu favor e perdeu para a Colômbia por três a zero. Martin Palermo perdeu os três pênaltis.

Marabá, 24 de outubro de 2016.

Abilio Pacheco
Professor universitário de literatura
Torcedor do Fluminense, frio e sem fanatismo
portanto, sem discussão sobre o meu tricolor

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Ao pó voltaremos

Posted by Abilio Pacheco em 19 de abril de 2015

Ao pó voltaremos

Crônica, Abilio Pacheco

Há dias estava por minha cabeça de escrever sobre este episódio, mas inúmeras atividades outras (que não cito pois aí iria a crônica toda) me fizeram adiar a escrita e a imediata publicação desta crônica. Hoje, entretanto, após ler uma postagem no Facebook de minha ex-colega de graduação em Letras – minha amiga Solange Ricarte – convenci-me de fazer este texto sair no jorro. Solange postou que um grupo de alunos de uma universidade foram transportados do Campus num ônibus junto com o pessoal da limpeza e que os alunos ficaram revoltados e ameaçaram reclamar na reitoria para que isso não mais acontecesse.

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Após chegar de uma das minhas viagens de professor saltimbanco (pois na Amazônia a gente sempre está viajando para ministrar disciplinas em outras cidades), eu esperava à esteira de restituição de bagagem no aeroporto de Belém quando uma senhora encostou o carrinho ao meu lado. Eu tinha o rosto voltado para o meu lado direito, ela estacionou seu carro cobrindo minha visão e se interpôs a minha visão. Eu imaginei que o fizera de propósito, mas não teria como imaginar o motivo.

Virou-se para mim e logo encetou um diálogo. Cumprimentos de praxe e deu-lhe a falar da viagem. Disse-me de onde vinha e o que fora fazer. Falou do desconforto da cadeira, da comida não muito boa. Ela sempre viajara de avião, mas de uns tempos para cá as viagens, na sua opinião, não eram mais as mesmas. Os preços se tornaram mais acessíveis, mas em compensação… Eu acho que ela ora concentrava-se na minha feição (como se buscasse o meu rosto na sua memória), ora virava o rosto para ver se sua mala estava vindo. Eu permanecia olhando sempre na mesma direção, apenas inclinando a cabeça uns dez ou doze graus.

Em dado momento, ela disse me conhecer de algum lugar. Naturalmente que sim, pensei. Eu a havia conhecido de imediato e disse-lhe: Eu trabalhei no Hospital junto com o Dr. “…” (e aqui omito o nome e a relação entre os dois). Ela respondeu-me: Ah sim! Sem muita convicção. Continuou olhando ora para minha ora para o local de onde saiam as bagagens e prosseguie falando amenidades. Perguntou, sem me deixar responder, se eu saberia se haveria chovido nos dias anteriores, falou do calor insuportável, e que não sei onde era melhor, do tempo de espera das malas… Até que me pediu desculpas pois ainda não se lembrava exatamente de mim. Eu, afinal, trabalhava na enfermaria, ambulatório, apartamentos ou centro cirúrgico?

Eu sorri dizendo que trabalhava em todos. Eu pensava que isso seria divertido para quem conversava tão descontraidamente, mas ela apenas apertou o senho e quis saber “como assim?”. Respondi-lhe que era simples. Eu trabalhava no apoio, era eletricista, por isso trabalhava no hospital inteiro. Eu esperava um sorriso espontâneo, mas sequer recebi um sorriso educado. Em vez disso, ela vez um longo Ah sim! E virou o rosto para o buraco de onde sua bagagem ainda demoraria algum tempo a surgir. Perdurou entre nós um silêncio indefinido.

Quando chegou-lhe a bagagem, ela pegou a mala e colocou-a no carrinho. Como eu estava ao seu lado esquerdo, ela virou-se para o seu direito e foi-se embora sem um bom dia, um tchau ou mesmo um olhar de asco.

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