abilio pacheco

professor de literatura (ufpa), escritor e revisor de textos

Archive for the ‘ll – crônicas’ Category

Minhas crônicas e links para páginas onde foram publicadas.

Um pequeno alento para este coração docente

Posted by Abilio Pacheco em 14 de outubro de 2016

Eu já estava decidido a não publicar uma crônica este ano por conta do dia dos professores. Além de bastante ocupado com minhas atividades de reta final de doutorado, há também uma enorme desilusão, tristeza, chateação… nem sei como nomear. Sei é que os professores da rede pública da cidade onde moro (Marabá) não recebem um salário que nem de longe se aproxima do que eles merecem e que, além disso, estão com os minguados salários atrasados. Sei que o governo federal temporário, provisório, governo-tapume, governo calço de mesa em falso, está cada vez mais procurando acertar os bolsos dos mais pobres, dos funcionários públicos em geral e afetando de modo devastador a educação. Professores que há muito já tiram do bolso valores para cobrir deficiências de infraestrutura, déficit em biblioteca e materiais de expediente etc logo logo verão que além de não aumentar o salário ainda terão que aumentar sua contribuição involuntária para a causa pública. E eu fico me lembrando cadê aquele monte de engomadinhos na televisão se dizendo amigos da escola? Como e quando foi que eles desapareceram?

*  *  *

Mas o que eu queria mesmo na crônica deste ano era compartilhar com vocês uma experiência que vivi em Berlin ano passado. Não quero comparar, depreciar o Brasil ou jogar confetes na Alemanha. Nada disso. Quero apenas compartilhar uma experiência relacionada a atividade docente ou mais especificamente às reivindicações por melhorias.

Em Berlin (onde toda criança – mesmo as estrangeiras – tem direito a uma bolsa de cerca de 120 euros, independentemente do valor que ganhe os pais), existe um tipo de escola para as crianças ficarem o dia todo (Kindertagesstätte ou simplesmente Kita). Assim o pai e mãe podem trabalhar ou estudar enquanto a criança fica aos cuidados do poder público. Sim, na Alemanha, entende-se que esta obrigação é do poder público. Dizem que há uns cinco anos por conta de uma greve demorada nas kitas, as mães levaram as crianças deixaram no prédio da prefeitura o dia inteiro. Imaginem a diversão e a festa! Todas crianças pequenas, pois na kita as crianças ficam geralmente apenas até completar 6 anos.

Ah sim. Na Alemanha tem greve? Por que não? Não é exatamente nenhum paraíso. Saiba você que 80% dos empregados domésticos trabalham de forma ilegal na Alemanha, conforme o jornal alemão Deutsch Welle (e pode clicar no link que a reportagem está em português). Mas tem uma coisa curiosa sobre as greves em Berlin. Se a greve for de transporte público, desde de o dia anterior você já sabe quais transportes vão funcionar e quais não vão funcionar. Assim você já saberá qual rota você vai usar para chegar ao trabalho no dia seguinte. Se a greve for em alguma repartição pública, desde a quinta-feira você já saberá que na segunda não irá funcionar.

Voltando ao nosso tema: escolas e kitas fazem exatamente isto. Avisam antes.

Mas eu vivenciei uma coisa espetacular em Berlin em relação à greve de professores. Como os pais souberam que as professoras iriam entrar em greve, pegaram a pauta de reivindicações e foram eles mesmos, pais e mães de alunos, fazer manifestações nas ruas para que a prefeitura negociasse com os professores para que esses não entrassem em greve. As manifestações ocorreram nos pontos estratégicos da cidade onde normalmente costuma ocorrer tudo quanto é de protesto: o portal de Brandemburgo e Tempelhof (um aeroporto desativado que é usado como área de lazer). Além desses lugares as manifestações dos pais também ocorreram na frente da escola (kita) e na frente da Prefeitura.

Depois de várias semanas, de alguma forma, mesmo que parcialmente, a prefeitura negociou e a sindicato retirou a indicação de greve. Por fim, não houve greve. Nem mesmo uma paralização de um diazinho sequer. Preciso lembrar que as reinvindicações ocorriam na hora do almoço e nos fins de semana. Ninguém deixava de trabalhar para fazer protesto. Nos fins de semana ainda havia um ingrediente a mais: as crianças sabiam o que os pais estavam fazendo, sabiam os motivos dos protestos. Sim, elas participavam. Meu olhar docente me diz que isso também era um aprendizado. A fim de que os professores tivessem melhores salários, as crianças também estavam nos protestos pintando cartazes, escrevendo frases e enchendo balões.

Essa lembrança para mim é um pequeno alento neste nada comemorável dia dos professores.

Partilha feita!

Marabá, 14 de outubro de 2016.
Abilio Pacheco – Professor universitário de literatura

As crônicas sobre o dia dos professores dos anos anteriores:
20152011  – 2010

 

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Onde está a tal crise?

Posted by Abilio Pacheco em 7 de outubro de 2016

Sim, eu acredito que ela exista em alguma medida. Acredito também que a ideia de crise pegou e isso gerou medo, daí a crise mesmo veio (mesmo?). Como quem morre após ter sido mordido por uma cobra sem veneno ou por lagartixa, a crise é também de nervos.

Sempre que alguém me fala de crise, eu aponto exemplos concretos e próximos de que a crise não é tão horrorosa assim. Eu acho que nunca foi.

Ontem, passando por uma das ruas de Marabá encontrei um colega de Magistério da década de 90 e que hoje tem uma empresa de material para veículos pesados (lubrificação, óleo, essas coisas). Mostrei a ele o quanto ele mesmo com seu medo ajudou a aprofundar a crise e entrar nela. Ele me disse que por causa da crise reduziu um estoque mínimo de 30 itens de cada produto que vende para 20. Diminuiu de 4 funcionários no atendimento para 3. Dispensou a moça da limpeza e passou a pagar diarista. Além disso os três funcionários do atendimento tiveram que passar a colaborar na limpeza. O cafezinho para os clientes o dia inteiro passou a estar disponível apenas pela manhã. Cortou publicidade. Etc.

Perguntei se as vendas diminuíram. Ele me disse que sim e eu disse a ele os motivos. Sim, eu disse a ele. As vendas diminuíram porque tendo menos quantidades de itens em estoque, muitas vezes ocorreu de clientes não encontrem o item desejado e por isso ir com a lista completa para um concorrente. Como a falta de produtos passou a ser frequente, alguns clientes deixaram de frequentar a loja. Ele olhou para o colaborador atrás do bancam para ouvir alguma retificação ou ratificação. Complementem a ele que é bem provável que o distribuidor dele tenha começado a trazer mesmo quantidade de cada item e também chegou a falhar neste ponto. Isto ele mesmo concordou. Então com mesmo distribuição e menos estoque, o resultado é menos venda.

Expliquei a ele também que se vários outros empresários como ele tiverem tido a mesma atitude: reduzir estoque, reduzir quadro de funcionários, reduzir o cafezinho e a publicidade; isto vai resultar em desemprego direto e indireto (com certeza o distribuidor dele deve ter demitido alguns representantes, com certeza o balconista e moça da limpeza demitidos cortaram gastos em casa, talvez até mesmo alguém que trabalhe em casa). Se você multiplicar isso por inúmeras outras empresas como a dele. Qual o resultado? Ele me disse um éééé comprido e falou pensando para si mesmo: lá em casa mesmo eu dispensei a secretária.

Por outro lado, existe gente abrindo loja, vendendo, gerando emprego e tem gente gastando normal e desmedidamente. Dei a ele dois exemplos: do outro lado da rua abriu uma loja de embalagens há 4 meses. Uma loja de embalagens vende para pessoas e empresas que vendem alguma coisa e, portanto, tem gente comprando os produtos que esses clientes da loja de embalagem vendem. Outro exemplo na mesma rua frente dele são duas panificadoras. Uma com vidro, ar condicionado e preços elevadíssimos. A menos de 100 metros uma outra do mesmo tamanho mas sem luxo e preços bem mais em conta. Todas as tardes por volta das 17 horas, a panificadora do ar condicionado está lotada. Filas para comprar pães, filas para pagar, muitas pessoas sentadas lanchando, muitos carros na frente, alguns luxuosos. No mesmo horário a panificadora sem ar ou vidro, está praticamente vazia. É bem provável que os pães representem uma parcela muitíssimo pequena do orçamento do doméstico, mas em momentos de crise, você corta até o cafezinho da tarde.

Eu deixei o meu colega de Magistério pensando…

Onde está a crise?

 

Marabá, 07 de outubro de 2016.

 

 

Abilio Pacheco

 

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Hallow Reis

Posted by Abilio Pacheco em 9 de janeiro de 2014

 Hallow Reis

Segunda-feira passada foi Dia de Reis. Pena que esta festividade popular tão comum no nordeste brasileiro não o seja por aqui. Talvez nos interiores da Amazônia ocorra, mas em Belém, não que eu saiba. Qualquer ano desses, passo o dia 06 de janeiro, em Coroatá-MA, cidade da minha infância, a fim de acompanhar o reisado. Esta crônica, entretanto, não é exatamente sobre o Dia de Reis.

Sobre a perda dessa tradição do reisado geralmente ouço lamentos no mês de outubro, por ocasião do Halloween. Continue lendo »

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A obrigação de ser feliz

Posted by Abilio Pacheco em 2 de janeiro de 2014

A obrigação de ser feliz

Numa postagem no Facebook, li Simone Pedersen falar da tristeza que é o Natal, época do ano em que as pessoas têm obrigação de ser felizes, ou ao menos parecerem felizes. É verdade, vejo, sinto isso; vejo também uma certa obrigação de solidariedade como escrevi numa crônica perdida que publiquei em 2000. As pessoas nem sempre estão sendo solidárias e promovendo um Natal melhorzinho para aqueles que vão passar o ano novo todo na penúria. Elas estão massageando-se. Estão buscando uma espécie de alívio para a própria culpa. A culpa de ter enquanto muitos não têm. E o Natal é a época do ano mais propícia a isso. A pressão pela felicidade, a pressão para ser/parecer bom, a pressão pela fraternização… Pressão que existe o ano todo, porém em menos despotismo.

Trabalhei 2 anos e meio numa escola atípica Continue lendo »

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11 de dezembro

Posted by Abilio Pacheco em 11 de dezembro de 2013

em abril/13

11 de dezembro – dia de Carajás, dia de Tapajós

Hoje faz um ano que a população do Pará foi às urnas para decidir sobre a criação dos estados de Carajás e Tapajós.
Literalmente quem decidiu foi a população do Pará, das cidades que formam o Pará, das cidades formavam o Pará e das cidades que continuariam no Pará caso a “questão política” da emancipação fosse resolvida.
Foram as cidades que são o Pará que decidiram. Ou ainda apenas a população da grande mãe (metrópole!) foi que decidiu.
Curiosamente (ou não tão curiosamente) a porcentagem de votação nas cidades dos estados (psicológicos, culturais, linguísticos, artísticos, gastronômicos…) de Carajás e Tapajós é absurdamente grande. Continue lendo »

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