Dia dos professores – 2018

Boa noite,

Não está nada fácil dizer simplesmente “Feliz dia dos professores”.
Lembrar a importância de nossa profissão. Dizer das lutas, embates, vitórias, desafios…
Repetir – quem sabe – alguns chavões e clichês… que temos uma missão, um dom (coisas muitíssimo questionáveis). Falar do nosso papel transformador, da diferença que fazemos (para o bem ou para o mal) na vida de nossos alunos e alunas.
Num momento político, complicado e conturbado, confuso e convulso… num momento em que qualquer palavra parece ser ideologicamente ou politicamente direcionada. Num momento em que sabemos que – qualquer que seja o resultado – nós teremos muito trabalho pela frente, dentro e fora de sala de aula, dentro e fora de escolas e faculdades, nas ruas, nas praças, por onde quer que a gente passe…

Eu recebi uma quantidade muito grande de mensagens… (cada ano aumenta mais). Textos puros, mensagens autorais, gifts, poemas, poemas de cordel… videos (videos eu não vi nenhum… Se eu for contar a minutagem total eu acho que levaria duas horas ou mais).
Observando todo o todo material que recebi, eu percebo que há um desejo muito grande de dizer qualquer coisa que as palavras não estão dando conta.
Sinto como se a pessoa tivesse um vontade de ser recíproca a uma generosidade quase incompreensível, como se quisesse compensar-nos por algo que ela sabe que não obtemos mas que ela também não dá conta de nos compensar, como se estivesse mergulhada numa enorme percepção de injustiça mas ao mesmo tempo numa impotência muito grande por não poder interferir.

Talvez tudo se resuma em Gratidão.
Esse sem-palavras que encontra guarida na postagem ou no texto, gift, poema, video que é postado nas redes, ou enviado diretamente em pv ou inbox. Eu imagino que fique ainda uma sensação de “não foi exatamente o que eu queria dizer”. Ou… uma sensação de que não foi o suficiente.

Esse sentimento… de ano a ano mais débil para uns e mais violento para outros… é um dos melhores presentes.
Precisamos – e isso é muito importante – que ele se transforme também em luta, ativismo, participação, manifestação cotidiana e que esteja sempre presente.

Quem sabe a gente possa ter mais felizes dias dos professores e não apenas 15 de outubro.

__________
Abilio Pacheco – professor de literatura, UFPA, Campus Universitário de Bragança

PS: Quando falo de ativismo cotidiano eu tenho em mente, por exemplo, o que vi na Alemanha, em 2015. Os pais da escola onde meu filho estudava fizeram (aliás, fizemos; eu também participei) manifestações pedindo aumento salarial para os professores. Eu relato isto num texto que publiquei em: https://abiliopacheco.com.br/2016/10/14/um-pequeno-alento-para-este-coracao-docente/