um estudo de etimologia

um estudo de etimologia
abilio pacheco
 
bando sm. ajuntamento de pessoas.
 
abandono sm.
1. ato ou efeito de largar, de sair sem a intenção de voltar; afastamento.
2. falta de amparo ou de assistência; desarrimo.
 
abandonado
sm. indivíduo desassistido, desamparado, posto de lado.
mas também:
adjetivo
1. deixado ao abandono; desamparado.
2. que não recebe trato algum; negligenciado.
3. que se encontra desocupado, vazio.
 
abandonador (isto é algo novo para mim)
adjetivo substantivo masculino
quem ou o que abandona, desiste ou despreza.
 
o verbo parece bem mais interessante:
 
abandonar verbo
1. transitivo direto – deixar, afastar-se de (um lugar) para sempre ou por um longo período.
2. transitivo direto – deixar à própria sorte; desamparar.
3. transitivo direto – largar, deixar ficar (em determinado lugar).
a palavra “bando” também deu origem a
– ‘banda’,
– ‘bandido’ de forma pejorativa;
– ‘bandeira’,
– ‘bandagem’.
 
Com certeza, ‘band-aid’ é algo bem conhecido.
 
Em Portugal, chama-se HQ de ‘banda desenhada’
 
A etimologia latina tardia explica um pouco:
bandum < got. *bandwa ‘senha, sinal que identifica um grupo, bandeira’ p.ext. ‘conjunto, facção’
 
Em outros idiomas, vindos do latim existem palavras derivadas dessa raiz. Todas com o mesmo sentido de ligar, unir, atar, formar qualquer coisa ou grupo com alguma característica ou qualquer algo em comum.
(Eu ficaria linhas e mais linhas citando exemplos.)
Da mesma forma, em vários desses idiomas existem palavras derivadas para significar ‘abandodo’: tirar do bando, separar do bando, apartar do bando… Em alemão, é verlassen; algo como deixar largado, jogado.
O sentido pejorativo para agrupamento também existe em alemão e em inglês, “bandit”. Ao ouvir isso em qualquer idioma parece que a carga emocional do termo vem quase que imediatamente, como a arma num assalto chega junto com o medo.
 
Entretanto, quando leio ‘abandono’, ‘abandonar’, ‘abandonado’… acho o sentido tão chocho, tão inócuo, tão isento de carga emocional quanto uma explicação técnica.
 
Àquele que é retirado do ‘bando’, o que resta?
O ermo da estrada? O exílio do mundo? O charco?
Tinha uma palavra até bonitinha que ouvi numa canção de MBP, mas a memória não me traz agora.
 
As palavras, elas bem dizem muito sobre o mundo, as pessoas e as coisas. As ações. Então, eu escrevo, mas também ‘re’escrevo; eu posso ser feliz, ou ‘in’feliz, ou ‘des’infeliz (como dizia Mário de Andrade). A gente até inventa quando o termo não existe: por isso, ‘imorrível’, ‘impodível’…
 
As línguas, os idiomas são flexíveis. Tão flexíveis quanto a própria verdade das coisas. Mas ambas tem seus limites.
 
Nenhum idioma tem algo como o que seria em Português:
 
– des-bandono ou de-abandono, in-abandono, re-bandono,
– des-bandonar ou de-abandonar, in-abandonar, re-bandonar,
– des-bandonado ou de-abandonado, in-abandonado, re-bandonado.
Se a língua não suporta a invenção da palavra, é porque o que há de sentido nela não pode existir.