Conceito de Dispositivo e a Literatura de Testemunho

III Semana de Filosofia da UFABC – São Bernardo
Data da apresentação: 20 de outubro 2017.
Livro de Resumos: Não. Texto de Leitura: Sim.
Anais com ISSN:  não. Texto enviado:  não se aplica!
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O conceito de Dispositivo e a Literatura de Testemunho no Brasil
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Resumo: A Literatura de Testemunho apresenta duas grandes vertentes de criação e de teorização, as quais são normalmente nomeadas em palavras de sua língua de origem: o Testimonio (latino ou hispano-americano) e o Zeugnis (alemão). O primeiro mais ligado a luta das minorias as mais diversas e seguindo as leituras dos Estudos Culturais, enquanto o segundo mais ligado ao Holocausto (ou Shoah) e seguindo mais as leituras da Psicanálise (trauma e incomunicabilidade). Devido essa diferenciação entre ambas, já se afirmou a intraduzibilidade dos conceitos (Seligmann-Silva). Por outro lado, especialmente na produção estética e teórica mais recente crê-se na possibilidade de leitura em câmbio inverso, ou seja, características do Testimonio no Zeugnis e vice-versa (Cornelsen). Um e outro estão relativamente consolidados, enquanto o testemunho, ou as obras da literatura testemunhal, sobre a ditadura militar brasileira de 1964-85, repousa num limbo teórico que pouco a pouco vem sendo aplainado. Pretendemos nesta comunicação utilizar o conceito de “dispositivo” em Foucault para sopesar o funcionamento de algumas narrativas testemunhais brasileiras, à esteira também do trabalho de Christian Dutilleux que apontou a importância deste mesmo conceito para a “passagem do testemunho” na literatura hispano-americana da épica guerrilheira (Che Guevara) à tragédia direito-humanista (Nunca mas, Conadep) entre-mediado pelo testemunho-metonímico de Rigoberta Menchú. Segundo Foucault, o dispositivo funciona como um entremeado dinâmico e heterogêneo de relações que se organizam para atender uma urgência demandada pela necessidade de resistência e de oposição a condições adversas na realidade social subjugada seja por questões de subalternidade, seja por relações disformes de poder em estados de exceção (totalitário ou autoritário), seja por relações sociais e econômicas desumanas próprias das sociedades capitalistas. Neste funcionamento, o dispositivo se estabelece entre o dito e o não-dito nos mais variados discursos e é natural que sua dinâmica varie constantemente de posição. Nos romances testemunhais na América Hispânica, o dispositivo operacionaliza sobre um texto e um discurso que assim o sustentam definindo tais relatos como testemunho ou não, a partir de elementos específicos: a vida da pessoa que narra, o evento histórico que ele participou, a posição do narrador na enunciação, a relação com outros testemunhos, sua inserção num conjunto de outros testemunhos e no conceito de real (Christian Dutilleux, 2011). Boa parte das narrativas brasileiras sobre a ditadura militar publicadas na época do regime (sobretudo na primeira e segunda fases da ditadura), embora consideradas de testemunho, se afastam significativamente deste mesmo dispositivo especialmente pelo fato dos narradores em geral não terem participado do evento específico e pelo fato de não apresentarem relação com a verdade empírica, mas se constituírem de modo ficcional. Nesta comunicação, pretendemos, então, compreender que outros elementos ou como podemos caracterizar o dispositivo, com base no conceito de Foucault, para as narrativas testemunhais brasileiras ficcionais produzidas para responder uma urgência de resistência contra a ditadura de 1964.
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Palavras-chave: dispositivo em Foucault, literatura de testemunho, ditadura militar no Brasil.

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