abilio pacheco

professor de literatura (ufpa), escritor e revisor de textos

Não é mão santa. É mão treinada.

Posted by Abilio Pacheco em 22 de outubro de 2016

oscar-schmidt-atleta-5“Não é mão santa. É mão treinada.”
Por Abilio Pacheco

A frase título é de Oscar Schmidt, um dos melhores jogadores de basquete do Brasil.

Agora que acabaram Olimpíadas e Paraolimpíadas e que as pessoas ficaram de olho no desempenho de ATLETAS DE ALTO RENDIMENTO, é hora de chamar atenção para algumas coisas.

A primeira é que – nunca é demais lembrar – para cada Atleta desse nível que se vê no pódio, uma quantidade significativa compete, vai para as olimpíadas e não aparece nem na foto na hora do pódio.

Segundo: para cada atleta que vai para uma competição de alto-rendimento, uma quantidade sem número fica de fora. Não importa o motivo. O fato é que quantidade de vagas nessas competições é limitada.

Terceiro: Eu queria lembrar que o mesmo que vale para esses Atletas, vale para músicos – especialmente aqueles que tocam em orquestras – , vale para professores pesquisadores – que passam horas nos seus laboratórios, gabinetes, bibliotecas…

Quarto: Para além, muito além daquilo que você vê na telinha durante os jogos, existe muito muito trabalho. Atletas, músicos, pesquisadores… são pessoas que precisam, como diz Oscar Schmidt, treinar, treinar, treinar, e não é treinar um dia sim outro não. “É treinar com sol, com chuva. É treinar se for segunda, se for feriado, se for domingo. É treinar dia sim, o outro também”.

Quinto: Quando eu vejo as lágrimas dos heróis olímpicos (e penso também nos demais que sequer puderam tentar o índice olímpico) e os vejo falando de família, de namorada, de cônjuges… eu penso no quanto pode ter sido difícil convencer essas pessoas da necessidade de estar distante, de estar isolado, de estar treinando, porque o corpo desacostuma, o instrumento se distancia dos dedos, e a pesquisa foge da cabeça.

Quinto (ainda): … fico pensando no quanto de sapo tiveram que engolir porque era aniversário da prima de quinhentéssimo grau e teria porque teria que ir levando o sobrinho de filho de uma amiga da mãe do pai dele. (o exemplo é hipotético e absurdo, mas compreensível). Do quanto, podem ter precisado argumentar que aquilo que faz é trabalho. E que o treino, o ensaio e a pesquisa só porque não têm livro de ponto, não quer dizer que seja adiável, nem por isso ele o atleta, o músico e o pesquisador pode deixar para treinar depois, ensaiar depois, pesquisar depois… para ter que ir – sei-lá – resolver problemas na agência de energia elétrica.

Sexto: O atleta de alto rendimento, o músico de orquestra e o pesquisa de universidade, não é aquele que sabe dar um pulinho numa mesa e isso lhe basta, não é aquele que sabe tocar um “parabéns para você” numa flauta e isso lhe basta, não é aquele que sabe que por onde passa a linha do Tratado de Tordesilhas e isso lhe basta. É preciso entender isso. Entender e deixá-lo seguir. Nem digo incentivo. Talvez baste apenas que não o freie.

Sétimo: O Brasil está cheio de potenciais atletas de alto rendimento, sejam eles atletas mesmo, sejam músicos, sejam pesquisadores nas universidades e centros de pesquisa… Eles fazem um trabalho monumental porém subterrâneo, um trabalho invisível cujo resultado nem sempre vai ser uma medalha no pódio olímpico. Nem por isso, entretanto, significa que o trabalho realizado é menos importante. Nem peço reconhecimento. Apenas que as pessoas saibam o quanto é preciso simplesmente reconhecer que isso é trabalho e deixá-los trabalhar.

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