abilio pacheco

professor de literatura (ufpa), escritor e revisor de textos

Archive for outubro \27\UTC 2016

Versos de código aberto

Posted by Abilio Pacheco em 27 de outubro de 2016

Versos de código aberto

Eu queria um poema para estes tempos convulsos e confusos.
Mas o beijo se faz desfeiteiro nestes rostos tão próximos e
os abraços, ora são evitados, ora são dados de lado.
Poucas pessoas colam peito no peito. Menos ainda como Ana Maria,
Que abraça corpo a corpo, atravessando alma com alma.
Estamos em um tempo de beijos e abraços sovinados
Quando nem mesmo os bêbados nos dão tão sinceros.
A esperança são os putos e as putas, que não se negam,
São os companheiros e companheiras que sempre lutam
E se entregam à pauta de braços e abraços e corpo e alma.

Eu queria um poema para este tempo esvaziado de nexo.
Tempo de cabeças surdas, pensamentos exilados, panelas mudas,
muxoxos esnobes, olhos com viseira de burro, passos teleguiados e
mãos atrofiadas em seu incerto comodismo e suas certezas elitistas.
Tempo de mentalidade coxinhas, de manifestações TPF, de dissimulações,
De frivolidades, de atentados a conquistas sociais e de missas para torturadores.
Tempo de pactos e pec’s. De novas versões dos atos que já vimos.
De acordos tramados à surdina e questões fechadas em jantares de luxo
Com discretos avisos aos correligionários que desejarem votar contra.

Estou cansado e olho com desgosto este tempo de exceção.

Eu queria um poema para este tempo de escolas ocupadas.
São quase mil no Paraná. A maior resistência vem justamente
de onde existe um moro e uma enorme força reacionária.
São das escolas e universidades ocupadas que nos chegam
Vozes claras, convictas e jovens como a Ana Júlia Ribeiro,
Que da tribuna de uma casa de leis expôs a nudez do rei,
Mostrou a todos o óbvio que muitos não se negam a ver
E outros desligam o microfone e cérebro para não ouvir.

Eu queria um poema para este tempo de luta e resistência,
que fosse também um hino, um canto de combate, um grito
contra esse estado de negação de direitos e conquistas,
contra golpistas e ilegítimos, contra essa coisa aí.
Um poema manifesto que não fosse meu mas de todos.
Tome, portanto, este rascunho consigo, e escreva nele.
Modifique à vontade, ignore rimas ou regras… e deixa-se falar.
Ponha seu nome e espalhe. São versos de código aberto…

________________
Código aberto é um termo da informática que vou explicar como leigo que sou no assunto:
É um tipo de programa ou sistema em que o usuário (em geral avançado) pode modificá-lo como quiser. O Linux é um sistema de código aberto. A proposta do poema é exatamente esta: que você modifique, acrescente, emende, suprima, faça com ele o que você quiser. Eu mesmo amanhã vou fazer dele outra versão, e depois outra, e outra…

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Pessach menorá

Posted by Abilio Pacheco em 26 de outubro de 2016

Duas capas de Pessach, a travessia de Carlos Heitor Cony e o meu menorá

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O futebol é uma caixinha

Posted by Abilio Pacheco em 24 de outubro de 2016

 

O Futebol é uma caixinha
Abilio Pacheco

A frase completa é “o futebol é uma caixinha de surpresas”. A frase já era clichê na década de 90 quando eu assistia futebol italiano nos domingos pela manhã junto com meu padrasto, e mamãe ficava impaciente pois a gente deveria era ir para a escola bíblica dominical. A frase, entretanto, é velha e “foi inventada pelo comentarista Benjamim Wright, pai do ex-árbitro José Roberto Wright” segundo o livro Guia dos curiosos. Para hoje a gente precisa completar a frase de outro jeito.

* * *

Ontem – para desopilar – parei tudo para tomar duas cervejas e assistir Flamengo e Corinthias pela 32ª rodada do Brasileirão. Confusões e mais confusões. E o gol do Flamengo foi visto como ilegal até pelos flamenguistas que lotavam a sala de estar da casa do meu irmão. Eu já vinha ruminando há dias uma explicação sobre o futebol e o Brasil. Afinal, deve haver explicações para que o futebol seja tão relevante na vida nacional a ponto de afirmarem que é uma marca de nossa identidade. Somos “O país do Futebol”. Por quê?

Vou esboçar uma resposta arriscada, sem base livresca e por isso mesmo meio irresponsável. Quem quiser uma base acadêmica para o assunto, vai ler “Veneno remédio: o futebol e o Brasil”, de José Miguel Wisnik [São Paulo: Companhia das Letras, 2008]. Aqui vou na base do achismo mesmo.

O brasileiro se identifica com o futebol por um enorme motivo que vou fatiar em dois: não é um esporte justo, pois o placar não condiz com a qualidade do futebol do time vencedor e porque a arbitragem…

Em qualquer esporte, principalmente coletivo, a possibilidade de uma equipe jogar pior e vencer é mínima. Não é uma equipe mais fraca vencer. Isso é possível em qualquer esporte. Um dia mais “iluminado” e de repente o Íbis vence o Santa Cruz, ou o Águia derrota o Fluminense. Não é isso a que me refiro! Digo é qualidade do jogo jogando. Ao contrário do vôlei, por exemplo, em que a estatística dos fundamentos reflete o resultado da partida, no futebol, uma equipe pode ter menos pose de bola, mais passes errados, menos tomadas de bolas, menos chutes a gol, menos escanteios, menos cobranças de laterais e até menos pênaltis e ganhar o jogo. No futebol, as estatísticas de todos os fundamentos podem apontar para a superioridade de uma equipe, mas se isso não se converter em mais gols, nada feito. Podem alimentar semanas de discussão, mas o melhor time nem sempre vence. Aquela máxima esportiva “que vença o melhor” simplesmente não vale para o futebol.

WhatsApp Image 2016-10-24 at 15.27.20.jpegOutro motivo – talvez o principal – para que o brasileiro goste tanto tanto de futebol são os erros de arbitragem (alguns nem parecem ser erros). Enquanto em outros esportes coletivos ou envolvendo bola (novamente o voleibol é um exemplo nesta comparação) o recurso eletrônico ou vídeo-tape (ou sei-lá como chamem) é usado, no futebol vale a decisão individual e muitas vezes personalíssima do juiz ou árbitro. E uma das piores coisas que tem neste esporte é o tal impedimento. (Na minha opinião não deveria existir essa regra. Em outro post eu explico) Ontem, o lance que mais irritou os torcedores do Corinthians (e de quem torcia pelo time paulista como eu) foi o lance do primeiro gol do Flamengo. O lance é exatamente igual (veja na imagem) ao que causou tanta polêmica na 30ª rodada do Brasileirão e que fez o Fluminense ir perder tempo no STJD. Os erros de arbitragem têm sido tão constantes, tão vergonhosos e tão determinantes para os resultados das partidas que parece que um time para garantir mesmo mesmo a vitória por um gol de diferença precisa ter um lastro grande, ou seja, futebol e boa pontaria para ganhar com uns três ou quatro de vantagem.

Claro que essas injustiças não são exclusividade do futebol. Podem acontecer em outros esportes. Erros de arbitragem podem ocorrer até com vídeo-tape, pois vai que a tal interpretação seja duvidosa. As decisões por arbitragem em artes marciais (boxe e judô, por exemplo) não são raras. O problema é que no futebol – e você com certeza já ouviu dizer isto: – os erros fazem parte do jogo. Quando o erro é a favor do meu time, eu ignoro e capitalizo. Lembro não sei quando que isso também ocorreu ao revés. Quando é contra, aí a gente faz um barulhão. Em geral, é assim. No fim, é engolir em seco. Nem digo ao Corinthians que peça o advogado do Fluminense emprestado, porque é certo que não vai dar em nada.

De injustiça em injustiça, o brasileiro vai levando. É na política, é na polícia, é nas escolas, é nas igrejas, é nas ruas… e vai tirando a mão da minha bandeira… pois o futebol é uma caixinha de… (completa aí).

Ps: Ah, você deve estar pensando: com mais pênaltis a favor é impossível perder uma partida. Pois perde. Em 1999, a Argentina teve três pênaltis a seu favor e perdeu para a Colômbia por três a zero. Martin Palermo perdeu os três pênaltis.

Marabá, 24 de outubro de 2016.

Abilio Pacheco
Professor universitário de literatura
Torcedor do Fluminense, frio e sem fanatismo
portanto, sem discussão sobre o meu tricolor

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Doutrinadores

Posted by Abilio Pacheco em 23 de outubro de 2016

Se tem uma coisa perigosa neste mundo de meu Deus são os “doutrinadores”.
Os altares, os púlpitos, os cursos de direitos e as prateleiras de autoajuda estão cheios deles.
Todo cuidado é pouco! Vamos ler com desconfiança e transcrever com parcimonia.
Tem umas interpretações perigosas por aí, outras perigosíssimas.

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Não é mão santa. É mão treinada.

Posted by Abilio Pacheco em 22 de outubro de 2016

oscar-schmidt-atleta-5“Não é mão santa. É mão treinada.”
Por Abilio Pacheco

A frase título é de Oscar Schmidt, um dos melhores jogadores de basquete do Brasil.

Agora que acabaram Olimpíadas e Paraolimpíadas e que as pessoas ficaram de olho no desempenho de ATLETAS DE ALTO RENDIMENTO, é hora de chamar atenção para algumas coisas.

A primeira é que – nunca é demais lembrar – para cada Atleta desse nível que se vê no pódio, uma quantidade significativa compete, vai para as olimpíadas e não aparece nem na foto na hora do pódio.

Segundo: para cada atleta que vai para uma competição de alto-rendimento, uma quantidade sem número fica de fora. Não importa o motivo. O fato é que quantidade de vagas nessas competições é limitada.

Terceiro: Eu queria lembrar que o mesmo que vale para esses Atletas, vale para músicos – especialmente aqueles que tocam em orquestras – , vale para professores pesquisadores – que passam horas nos seus laboratórios, gabinetes, bibliotecas…

Quarto: Para além, muito além daquilo que você vê na telinha durante os jogos, existe muito muito trabalho. Atletas, músicos, pesquisadores… são pessoas que precisam, como diz Oscar Schmidt, treinar, treinar, treinar, e não é treinar um dia sim outro não. “É treinar com sol, com chuva. É treinar se for segunda, se for feriado, se for domingo. É treinar dia sim, o outro também”.

Quinto: Quando eu vejo as lágrimas dos heróis olímpicos (e penso também nos demais que sequer puderam tentar o índice olímpico) e os vejo falando de família, de namorada, de cônjuges… eu penso no quanto pode ter sido difícil convencer essas pessoas da necessidade de estar distante, de estar isolado, de estar treinando, porque o corpo desacostuma, o instrumento se distancia dos dedos, e a pesquisa foge da cabeça.

Quinto (ainda): … fico pensando no quanto de sapo tiveram que engolir porque era aniversário da prima de quinhentéssimo grau e teria porque teria que ir levando o sobrinho de filho de uma amiga da mãe do pai dele. (o exemplo é hipotético e absurdo, mas compreensível). Do quanto, podem ter precisado argumentar que aquilo que faz é trabalho. E que o treino, o ensaio e a pesquisa só porque não têm livro de ponto, não quer dizer que seja adiável, nem por isso ele o atleta, o músico e o pesquisador pode deixar para treinar depois, ensaiar depois, pesquisar depois… para ter que ir – sei-lá – resolver problemas na agência de energia elétrica.

Sexto: O atleta de alto rendimento, o músico de orquestra e o pesquisa de universidade, não é aquele que sabe dar um pulinho numa mesa e isso lhe basta, não é aquele que sabe tocar um “parabéns para você” numa flauta e isso lhe basta, não é aquele que sabe que por onde passa a linha do Tratado de Tordesilhas e isso lhe basta. É preciso entender isso. Entender e deixá-lo seguir. Nem digo incentivo. Talvez baste apenas que não o freie.

Sétimo: O Brasil está cheio de potenciais atletas de alto rendimento, sejam eles atletas mesmo, sejam músicos, sejam pesquisadores nas universidades e centros de pesquisa… Eles fazem um trabalho monumental porém subterrâneo, um trabalho invisível cujo resultado nem sempre vai ser uma medalha no pódio olímpico. Nem por isso, entretanto, significa que o trabalho realizado é menos importante. Nem peço reconhecimento. Apenas que as pessoas saibam o quanto é preciso simplesmente reconhecer que isso é trabalho e deixá-los trabalhar.

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