abilio pacheco

professor de literatura (ufpa), escritor e revisor de textos

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Lirismo e empoderamento

Posted by Abilio Pacheco em 4 de março de 2016

Lirismo e empoderamento:
a luta pode ocorrer com uma flor no cabelo
Abilio Pacheco (*)

feminino em movimento so frenteO debate em torno do feminino, assim como o debate em torno dos grupos antes chamados de minorias, hoje chamados de não-hegemônicos, é, e continuará sendo, um debate aberto. Principalmente se considerarmos que as afirmações ou conceitos no interior de cada grupo não são nada passivas e que hoje os próprios grupos entendem a necessidade de lutar por direitos e espaços para todos, mas também considerar a existência de multiplicidade interna, de modo que uma concepção hegemônica dentro de um grupo tradicionalmente não-hegemônico não se transforme exatamente naquilo contra o qual o grupo tem lutado.
Este é um ponto de vista necessário para se ingressar neste livro de poemas de Francisca Cerqueira. O feminino em movimento é também uma exposição dos femininos. Nestes poemas, as vozes do feminino e as manifestações de sua diversidade se fazem presente. Estão perfeitamente conciliados (muitos, mas nem todos) os modos de se expressar como mulher. Eu imagino que alguns poemas podem causar furor em grupos femininos mais radicais, enquanto outros em pessoas com pensamento reacionário. Mas a manifestação do empoderamento feminino também perpassa por este enfrentamento. Um livro como este não é um manifesto nem um convite à polêmica, mas nada impede que possa ser lido desta forma.
Os poemas deste livro também se apresentam de maneiras diversas. Conforme o tema tratado dentro do universo feminino se apresente, é possível notar como o trabalho poético busca uma aproximação do tema e do tom, mas isto não impede que o livro tenha uma unidade. Um desses tons é certamente o de manifesto que praticamente pontua toda a primeira parte intitulada Voz feminina. Exaltado, o eu-lírico expressa em poemas para serem lidos num megafone, num palanque ou pelo menos em pé sobre um banquinho, como o poema “Silenciamento” – quase uma poética de um dos veios deste livro. Existem outros um pouco menos exaltados, mas igualmente significativos no processo de enfrentamento e nos quais o eu-lírico expressa opiniões sobre os mais diversos temas que envolvem o feminino (sexo, casamento, amor, liberdade, tpm, …). Neste conjunto, o poema “Sugestão psicológica” pode ser lido como uma transcrição de um microfone aberto. Difícil não relacioná-lo com alguma situação conhecida. Os poemas para amigas parecem baixar um pouco mais o tom e quase soam como uma conversa ao pé do ouvido, ou apenas no tom que Francisca Cerqueira fala – suas amigas e seus amigos sabem que ela fala mansinho. Mas este falar mansinho também deve ser entendido como ‘para poucas’. É como se nestes poemas para as amigas fosse tratado de algo que – por mais que a gente compreenda no geral – tem sempre algo de conhecimento compartilhado apenas entre elas. Essa intimidade também comporta o feminino: falar numa língua aparentemente compreensível a todos mas que apenas outra mulher entende. Nisto também consiste uma forma de resistência e de empoderamento.
Se o leitor é dado a seguir poema por poema na ordem que está no livro, certamente vai – após um ímpeto lírico com tonalidade épica – se deparar com poemas ricos de um lirismo suave e aprazível na segunda seção do livro. Em Do amor e outras sensibilidades, estão os poemas que desnudam um feminino que não é só luta, mas também sensibilidade. E está um dos mais belos poemas dessa autora. A delicadeza quase prosaica mas de uma riqueza lírica difícil como em boa parte dos poemas de Adélia Prado está no poema “Galanteio”. Nesta parte do livro, lemos os poemas amorosos mais calientes, que falam de desejos e realizações carnais. “Embriaguez” reflete com muita força uma sensualidade forte e ao mesmo tempo delicada e de certo modo cifrada. Poema que faz lembrar um pouco o Cântico dos Cânticos, atribuído a Salomão. Também aqui (embora o leitor possa encontrar isto polvilhando a primeira parte) estão muitas pequenas confissões, as quais nem ouso enumerar para que o leitor não vá procurar na autora as revelações que são do eu-lírico. Nesta parte, que parece um contraponto com a primeira, estão os poemas carregados de um lirismo mais intenso.
Entretanto, não se iludam demais os leitores com os poemas líricos apresentados após os poemas de enfrentamento a ponto de esquecer os primeiros. É bom ter em mente que, se existem muitas faces no feminino, esteja certo, neste livro, estão presentes vários eus. E é bom atentar principalmente para este alerta: Francisca Cerqueira é uma mulher que luta com uma flor no cabelo.

 

Prefácio ao livro “O feminino em Movimento” de Francisca Cerqueira. Marabá: Literacidade. 2016.

Disponível em: http://www.literabooks.com.br/ofemininoemmovimento

 

 

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