abilio pacheco

professor de literatura (ufpa), escritor e revisor de textos

um ma(r)ço de lirismo cítrico

Posted by Abilio Pacheco em 4 de novembro de 2014

um ma(r)ço de lirismo cítrico

Abilio Pacheco

Prefácio ao livro Maço de Março, de Lucas Alvim

Das definições de poesia que se pode ouvir numa aula de teoria da literatura, poucas amoldam os versos de Lucas Alvim. O mais comum é ouvir dizer que poesia é música, ‘é som carregado de sentido’, que é rica em imagens, em sugestões visuais, que combinam palavras num corte paradigmático (aqui já me vou sendo técnico demais)… Porém, se seu ouvido rejeitou ‘amoldar os versos’, prepare-se para outros estranhamentos. Se dizemos, nós professores de literatura, que a poesia se organiza nestes processos de estranhamento, você pode ter certeza que nenhum de nós costumamos ter em mente o que faz Lucas Alvim.

A organização associativa sintática de sua poesia em momento algum coloca uma classe gramatical no lugar de outra, mas a combinação entre verbo transitivo direto e o substantivo que lhe é objeto constroem uma teia alógico-lógica com a qual olhos e ouvidos de início rejeitam e repelem, mas logo tendem a aceitar. Seu lirismo é cítrico como uma laranja azeda ou como um forte suco de limão. Após a sensação inicial ruim, o paladar logo aceita a fruta. E se o gosto cítrico afoga-se no esquecimento também dos versos de Lucas pouco vamos conseguir gravar. Sua poesia pode até não ser antideclamativa, mas é antimnemônica. A faculdade da memória se mostra falha num turbilhão envolvente de associações inesperadas mas não inteiramente recusáveis.

Lendo os versos que ficaram de fora deste ‘maço de março’ e outros que o poeta vem escrevendo e publicando pelas redes sociais, não resta dúvida de uma coisa: Lucas criou uma linguagem poética que é sua, como poucos fazem tão jovens. Criou uma linguagem que para ser de fato admirada precisa ser aprendida. Se assim não for, o leitor ficará como alguém que apenas olha ideogramas e acha bonitinho; se assim não for, a beleza dos versos de Lucas poderão se esvair do mesmo modo como se escoa a beleza de bonecas de gelo diante de olhares não educados para audácias contemporâneas.

‘Maço de Março’ revela um poeta nenhum pouco obscuro, mas vertiginoso, sua linguagem aqui é casa lírica-cítrica da palavra, de si e do leitor, sua poética é exílio do dia ou no dia, seus versos resultam de um investimento intelectual cujo tamanho não temos noção, posto se apresentar sem esforço, em seus poemas nós, leitores, vamos tateando certos e firmes, e ao fim nos deparamos com o prazer de ter caminhado.

Eis uma poética madura, definida e própria.

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