abilio pacheco

professor de literatura (ufpa), escritor e revisor de textos

Epigramas sutis de Vanessa

Posted by Abilio Pacheco em 4 de novembro de 2014

Epigramas sutis de Vanessa

Abilio Pacheco

Prefácio ao Livro Entre os silêncios dos meus versos brancos,

de Vanessa Locatelli Pietrobelli

Vanessa inscreveu-se no Prêmio LiteraCidade-Poesia-2013 com o pseudônimo ‘Cecília Epigrama’. Poucos se dão conta da força que uma assinatura pode conter. Pouquíssimos sabem usar esta força. Num único gesto obrigatório de se esconder a verdadeira identidade, esta jovem poeta indicou sua filiação poética e a natureza dos poemas inscritos. Os 48 poemas líricos guardam a brevidade, a concisão e o humor dos epigramas e muitos deles vinculam-se à poesia de Cecília Meireles.

Longe dos poemas polêmicos, corrosivos e ferinos de Marcial, os epigramas de Vanessa apresentam uma ternura suave e delicada, irônicos sempre, porém sem sarcasmo ou escárnio. A brandura é tanta que nos instiga a procurar o que mais pode haver por trás de tamanha meiguice. Além daqueles que versam sobre a própria atividade poética como “Cinismo” (pág. 12) e “Dom” (pág. 24), existem poemas que flertam com o universo febril do estudante adolescente envolto em disciplinas. Lemos em “Profecia” (pág. 43) “Tu te assustarás das euglenas, parênquimas, caulículos…” e o poema “Amigos vestibulares” (pág. 53) é emblemático desta coisa nonsense que são matérias e exames.

Outros, sem serem necessariamente regionais, trazem para a linguagem poética expressões do campo semântico de uma vivência em estância. Em “Pealos Sutis” (pág. 41), praticamente ouvimos o sotaque gaúcho. O mesmo campo semântico comparece no perfeito “Tempo e Cavalos” (pág. 47). Por fim, alguns parecem esconder certa desilusão melancólica. Em “Detalhes” (pág 23), por exemplo, o transbordamento das ânsias seriam muito mais uma projeção do sentimento do eu-lírico que necessariamente algo externo, visível no outro.

Seu toque pessoal pode ser sentido de modo mais claro no poema em que a referência a Cecília Meireles é mais perceptível. Reescrevendo o poema “Motivo”, o eu-lírico de Vanessa deixa a autora dar-nos uma piscadela quando afirma que fala porque existe e que vai

Aprendendo mais depressa

Do que a lei natural das escolas

Envelhecendo mais depressa

Do que o tempo” (pág. 22).

O temor de ser ou de se tornar obscura não se justifica, mas engana-se quem ficar apenas na superfície dos versos desses epigramas. A poesia sempre diz mais do que está dizendo e, num deslize, o leitor distraído sorri de uma lágrima, gargalha de uma nota de tristeza, pisa num concreto mas cai num alçapão. Somente com alguma atenção se pode desconfiar que há uma densidade latente nestes sutis epigramas.

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