as exilias matinais

às exilias matinais

Abilio Pacheco

Prefácio ao livro Manhã Madrugada de Adriano Apocalypse, Literacidade, 2014.

O título deste prefácio causa-lhe estranheza? Leia-o outra vez, e outra… Pela quinta leitura ainda poderá soar estranho, ou poderá amoldar-se ao paladar de seu olhos e ouvidos, mesmo que ainda lhe fique algum ranço. A lírica de Adriano é praticamente toda atravessada por esta incomum mas deliciosa sensação.

A literatura feita por jovens atualmente – a exemplo do que temos lido de autores de até 40 anos ultimamente, mesmo de poetas de variados lugares – parece-nos morar na mesma casa de linguagem que a poesia de Herberto Helder e Leopoldo María Panero. Após a imitação de ações e a imitação de emoções, e mesmo os exercícios de poesia pura, arte pela arte, a poesia de muitos bons poetas novos escava a linguagem em busca de essências e de morada. É uma poesia que constrói pela destruição, ou, usando uma imagem muito cara à Cortázar, que se edifica do mesmo modo como se faz um túnel.

Como se trata de uma poética bastante volátil, entre si os autores se assemelham principalmente pelo fato de cada um ter sua ilha. Uma poética (no sentido de norma, regra) absolutamente a-poética. No primeiro poema, está claro: “não comece dando ordem”. Embora os poemas seguintes sejam metrificados (em metros diferentes), o monóstico inicial deixa evidente que a liberdade poética e de linguagem deve ser esperada pelo leitor.

Outro poema que bem evidencia parte da proposta poética de Adriano é o “Soneto vazio” (página 15). ‘Destituído de sentimento’, o poema não mais mimetiza, não mais representa… também não é utilitário (aliás, o que lhe fere deleteriamente), o poema apenas “é”, existe. Lugar e acontecimento; coisa feita pelo poeta. Casa na qual faz morada.

Neste exílio, Adriano apresenta uma lírica cuidadosa com o material de trabalho, com as palavras. Boa parte de seus poemas podem ser metrificados, mas mesmo nestes há um aroma, uma essência de modernidade, em boa parte devido a escolha de sonoridades próximas e por combinações semânticas inesperadas, surpreendentes.

As intertextualidades e as ironias, especialmente nos poemas com epígrafes e nos poemas curtos, também conferem um sabor de atualidade e re-atualidade para esta lírica vicejante que ainda muito vai nos revelar.

Uma resposta para “as exilias matinais”

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s