abilio pacheco

professor de literatura (ufpa), escritor e revisor de textos

Hallow Reis

Posted by Abilio Pacheco em 9 de janeiro de 2014

 Hallow Reis

Segunda-feira passada foi Dia de Reis. Pena que esta festividade popular tão comum no nordeste brasileiro não o seja por aqui. Talvez nos interiores da Amazônia ocorra, mas em Belém, não que eu saiba. Qualquer ano desses, passo o dia 06 de janeiro, em Coroatá-MA, cidade da minha infância, a fim de acompanhar o reisado. Esta crônica, entretanto, não é exatamente sobre o Dia de Reis.

Sobre a perda dessa tradição do reisado geralmente ouço lamentos no mês de outubro, por ocasião do Halloween. Ou quando ouço pessoas comentando sobre a “invasão da cultura anglófona” em terras brasileiras. Recentemente encontrei um artigo sobre o reisado que inicia exatamente afirmando que “a tradição do halloween nada tem a ver conosco”. Citar o Halloween quando se deseja resgatar a tradição do reisado é já argumento comum. Veja, por exemplo, no site do governo do Piauí, ou mesmo este parágrafo num texto escrito por dois estudantes universitários de Aracaju:

“A escola exercendo assim um papel de formação para o cidadão, muitas vezes acabam por inibir a identidade cultural na qual esta inserida, prestigiando assim outras manifestações, com menor valor cultural ao que diz respeito ao seu meio social, tendo como exemplo o halloween, este que vem ganhado uma maior valorização com os jovens. Sendo que halloween apesar de ter se originado nos Estados Unidos, vem ganhado mais destaque nas escolas do que o próprio folclore brasileiro. Já que as escolas enfatizam culturas de outras sociedades, esquecendo-se assim da cultura local, na qual esta envolvida.” Extraído de: http://www.webartigos.com/artigos/cultura-popular-reisado-do-mestre-juarez-um-marco-no-folclore-itaporanguense/31425/

Parece-me que há um elemento extremamente importante nesta comparação entre referências folclóricas e a formação cultural do cidadão esquecido: a família. Não se deve atribuir toda responsabilidade pela formação do cidadão à escola. A maioria das crianças fica entre 4 e 5 horas por dia nas escolas. O equivalente a 16% ou 25% do dia; 12% ou 15% da semana; cerca de 5% do ano.

Culpar a escola pela perda de manifestações de nossa cultura, no caso específico, do dia de Reis em comparação com o Halloween se torna mais equivocado se tivermos em mente um detalhe deixado de lado nisso que já me parece um argumento-clichê. Ao contrário do Halloween que ocorre numa data em que os alunos estão em pleno período letivo, durantes as aulas nas escolas (inclusive nas escolas de idiomas), o dia de Reis ocorre durante as férias escolares, época em que as crianças estão em casa. Ora, não se deve culpar a escola pela perda dessa tradição. Provavelmente, por outras também não. A escola não é substituta da família na formação do ser, mas um acréscimo, um contributo. Cada vez mais difícil de cumprir seu papel, é claro. O trabalho cada vez maior, quase incessante, inclusive levado para casa de mais a mais e pendura em nossos celulares. A mulher inserida no mercado de trabalho, o que empurra cada vez mais as crianças em mãos de terceiros (não-familiares), secretárias, babás, ou escolas de tempo integral.

Aqui fazemos o que é possível. Bento Gabriel é ainda muito pequeno (3 anos e 7 meses) para entender o reisado. Ainda não ouviu falar de Halloween, mas ouvirá (é inevitável). Nós (família!!), entretanto, montamos presépio em casa, ensinamos os nomes dos reis, o que eles trazem para Jesus e deixamos um presentinho para ele abrir quando acordou no dia 06 – embora saibamos que a tradição de troca de presentes no dia de Reis seja espanhola – rs.

Belém, 09 de Janeiro de 2014.

Abilio Pacheco

Professor Universitário de Literatura (UFPA-Bragança). Autor do romance “Em Despropósito (mixórdia)”, do livro de poemas “Canto Peregrino a Jerusalém celeste”, ambos pela Editora LiteraCidade. Atualmente cursa o doutorado em Literatura (THL-UNICAMP) e é Assistente Editorial (freelancer).

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