11 de dezembro

em abril/13

11 de dezembro – dia de Carajás, dia de Tapajós

Hoje faz um ano que a população do Pará foi às urnas para decidir sobre a criação dos estados de Carajás e Tapajós.
Literalmente quem decidiu foi a população do Pará, das cidades que formam o Pará, das cidades formavam o Pará e das cidades que continuariam no Pará caso a “questão política” da emancipação fosse resolvida.
Foram as cidades que são o Pará que decidiram. Ou ainda apenas a população da grande mãe (metrópole!) foi que decidiu.
Curiosamente (ou não tão curiosamente) a porcentagem de votação nas cidades dos estados (psicológicos, culturais, linguísticos, artísticos, gastronômicos…) de Carajás e Tapajós é absurdamente grande.
Você mesmo pode conferir isso em: http://pt.calameo.com/read/000707542c97839e658ba. Votaram pelo SIM. Em Marabá, 92,81%. Em Sapucaia, 98,76%. Em Jacundá, 93,79%. Em Parauapebas, 90,80%. Em São Geraldo do Araguaia, 98,69%. Em Uruará, 95, 55%. Em Xinguara, 97,28%. Em Redenção, 95,35%. Em São Domingos do Araguaia, 97,66%. Em Conceição do Araguaia, 97,08% – apenas por exemplo. Em todos esses municípios a decisão política da população foi acima de 90% pelo SIM.
Mesmo que se diga que somando tudo isso não dá metade da população de Belém, ora ora, quem está nestas cidades é que sabe o que quer para si. Meu vizinho tem um carro com a placa de Canaã dos Carajás (onde a votação pelo SIM foi de 95,03%). Ele diz que ficou um ano lá para mais nunca voltar e diz que votou pelo NÃO. Ah sim, assim faz muito sentido: eu amarro a população destas cidades (das cidades de Carajás, Canaã, por exemplo) num Estado que não está dando conta de resolver os problemas urbanos – e não-urbanos – das cidades que estão mais perto da Capital (incluindo esta) e vou moro a mais de 760 quilômetros (distância entre Belém e Canaã).
Por mais de uma vez, vi um senhor de “barbichinha” na televisão falando sobre o sentimento da população caso o SIM vencesse. Ele usava termos que deviam estar num texto encomendado: tristeza (vá lá), melancolia e quejandos. O que dizer então de cidades onde a quantidade de pessoas que votou pelo NÃO foi menor que 100. (Piçarra, 28 pessoas, e Sapucaia, 34 pessoas. Belterra, 48 pessoas. Brejo Grande do Araguaia, 32 pessoas.) E é bem provável que 20 dessas 28 pessoas de Piçarra, sejam como o meu vizinho que votou pelo NÃO e está aqui lépido e faceiro alheio aos problemas da região.
O que mais aborrecia na campanha pelo NÃO (além da excessiva arrogância prepotentemente megalomaníaca) eram os argumentos. O mais usado era dizer que as pessoas de Carajás e do Tapajós eram estrangeiros, forasteiros etc. Ora ora quer dizer que Adão e Eva nasceram em Belém. Quer dizer que os Neandertais eram daqui. Existe um instinto perigoso numa afirmação desta: o de querer afirmar-se pela pureza étnica ou racial num país (e num mundo) evidentemente miscigenado. E no meio desta miscigenação a única coisa (talvez) possível de se afirmar é que a “Amazônia é nordestina”! Muito embora o melhor argumento constitutivo da identidade da região esteja na obra do alencarino Benedito Monteiro (tetralogia amazônica).

Outra coisa que aborrecia eram argumentos de pessoas de outros lugares, de outros estados. Teve um cronista de Santa Catarina que se manifestando contra os estados de Carajás e Tapajós escreveu que após a ‘divisão’ teriam que ser estendidos “muitos quilômetros de asfalto a fim de unir entre si suas cidades perdidas no meio da mata […] a fim de supostamente melhor assistir aos seus sequiosos habitantes”. Quer dizer então que existindo ou não existindo politicamente os estados de Carajás e Tapajós, a população isolada cultural, social e geograficamente (os sequiosos habitantes das cidades perdidas no meio da mata”) devem, TEM QUE, continuar neste estágio de alijamento social.
Apesar de TUDO, hoje não é dia para lamentar. É dia para comemorar a vitória. Os mais de 90% que votaram pelo SIM, moram num estado e cuidam dele. Mesmo que nada (ou bem pouco) tenha politicamente mudado nestes 365 dias. São eles que estão lá que sabem suas carências, suas necessidades, que sabem o quanto o estado não chega, ou demora muito muito do muito a chegar… São eles (UNICAMENTE ELES) que deveriam ter votado pelo seu próprio futuro.
Antes do plebiscito eu tinha muitos argumentos a favor do SIM. Hoje eu só tenho um: a população de Carajás e de Tapajós quer. O POVO QUER!

-> Todos sabem que eu não moro em Marabá, que não moro no Estado de Carajás, mas Marabá vive em mim e Carajás é o meu Estado.

Abilio Pacheco

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