Ritornelo

Ritornelo

Abilio Pacheco

Todos os dias ordenava que se lhe contassem aquela história da reconquista. Sempre dormia e esquecia o enredo no dia seguinte. Mesmo que lhe dissessem tê-la ouvido ontem, não lembrava sequer de ter pedido que contassem.

Décadas atrás, por retaliação, a propriedade fora invadida, o dono assassinado a facadas durante o sono e a mulher violentada e deixada inconsciente num ermo qualquer. Uma vintena de anos mais tarde, o filho daquele mal-feito, alimentado a leite e ódio, voltaria para vingar-se.

Nunca alteravam o grosso da história; mas mudavam um ou outro detalhe: o herdeiro dia entrava pela janela, dia arrombando a porta, dia escondido num barril, dia se passando por mascate para depois lhe desfechar uma punhalada na cabeça.

Do pronunciamento de Dilma

Do pronunciamento de Dilma

Ontem nossa presidente (que numa gestão democrática se dá o direito de fazer um ato de violência civil contra a gramática de língua portuguesa e faz descer goela abaixo dos gramáticos mais conservadores uma flexão de gênero que não é gramaticalizada nem de uso corrente) fez um pronunciamento para abrandar ânimos. Como sua fala vem após reuniões com vários de seus ministros, dentre eles a ministra-chefe da casa civil, deveríamos entender que é resultado desse diálogo. Aqui já despontam alguns dos principais equívocos do pronunciamento. A “voz das ruas” não é a voz dos ministros. Se fosse, a possibilidade de haver manifestação seria menor. Alguns desses ministros têm exatamente o perfil sufocante que tanto tem apertado a população brasileira a ponto de um ou outro tem o apelido delicado de ‘trator’ (o mesmo trator que parece passar à luva de pelica sobre quem deveria ser mais rígido/a). Há também um equívoco complexo (que resultou nesse ato corajoso de falar com o povo por dez minutos): Continue Lendo “Do pronunciamento de Dilma”

A voz das ruas

A voz das ruas

A insatisfação é geral! O movimento que teve início após as manifestações em São Paulo e que nos próximos dias ainda resultarão em protestos em várias outras capitais e outras cidades do Brasil (além dos apoios de brasileiros que estão morando em outros países) é fruto de uma insatisfação geral. O Brasil vai bem na foto. Todo cidadão Europeu, pensa que aqui não existe crise, que o país (por estar em ascenção econômica sendo o quinto/sexto mais rico) resolveu seus problemas internos mais gritantes, que os brasileiros estão usufruindo dessa rica e que são hoje o que um cidadão europeu era há 30 anos, que a população tem acesso a direitos básicos com qualidade. Mas não é nada disso. “Quem quiser venha, mas só um de cada vez”, como diz a letra do Mosaico de Ravena (e eu tenho sempre a impressão que na Amazônia a coisa está muito pior). E afinal, quais os porquês dos protestos? Continue Lendo “A voz das ruas”