A ponte do Sapucaia

A ponte do Sapucaia

Dessa vez vou contar ou re-contar história que não é minha, mas que imagino pertença ao vulgo. Acontece que sobre Bragança (Pérola do Caeté) contam causos acerca da cidade e dessa ponte. Ora, pois vai a história meio modificada.

Numa excursão para Bragança seguiam madre superiora, freiras e muitas internas. A Ponte do Sapucaia tem fama de encantes. A Amazônia toda é um encantamento só. São cobras sob cidades com a cabeça no cemitério e a calda sob a igreja, em geral, igreja ribeirinha. São visagens que rondam ruas escuras e põem medo em jovens para que não saiam à noite. São seres fabulosos que copulam com mulheres e homens. Além de ilhas que podem afundar, se desvendado algum certo segredo, ou mesmo pontes que podem cair por um ou outro motivo.

A madre superiora ia na frente. Terço na mão, olhava que olhava paisagem, rezava, fazia cara de cracatua velha por alguma indecência do motorista ou mesmo das meninas que ficaram todas sentadas atrás. O motorista ensaiava conversa, mas a madre não lhe dava trela alguma. Ameaçou dizer que se não houvesse quem conversasse com ele, ele poderia dormir. A madre disse que a estrada não dava para distração daquele tanto. Uma freirinha esperta alegou estar provocando. A madre não sabia que aquilo era vontade de vomitar. Explicaram. Uma das internas falou que olhando a estrada o mal-estar passaria.

Foi a freira sentar-se à frente. Na janela. Madre no meio. Olho na estrada e controlando que mão de motorista não resvalasse nela. Começam a conversar passando assunto por dentro da cabeça da religiosa. A freira queria saber sobre a tal ponte. A madre pigarreou, mas deixou, pois ficou curiosa. É encantada!? Muito simples, disse o motorista, mas é conversa à toa. Passando alguma virgem por ela, a ponte desaba. A madre sentiu vontade de arregalar muito os olhos. Mas ficou impávida. As internas faziam risinhos com a história.

Seguiram estrada, terminou-se um terço. Madre pegou cochilo. Acordou de susto e disse ao motorista que lhe mostrasse a tal ponte à distância de um tiro de pedra. Lá esta ela, apontou o motorista. Encoste ali perto da margem, apontou a experiente religiosa. Depois, fez as freiras e as internas todas descerem para molhar os pés nas águas do rio Caeté. Olhou ao redor. As freiras sabiam que ela não estava apenas admirando a criação divina. Tinha algo mais. A madre colocou um pé na água sem afundar, como provasse firmeza da superfície. Viu ao lado uma pequena embarcação e teve a ideia. Conversou o barqueiro. Freiras e internas viram ambos confirmarem algo com gesto de cabeça. De lá gritou:

– Meninas, venham cá. Vamos atravessar neste barquinho.

Belém/Bragança/Capanema, 08 de fevereiro de 2013.
Abilio Pacheco
Professor universitário, escritor de prosa e verso, revisor de textos e organizador de antologias. Mestre em Letras (UFPA) e doutorando em Literatura (THL-UNICAMP). Três livros publicados, o quarto a camnho. É membro correspondente da Academia de Letras do Sul e Sudeste Paraense (com sede em Marabá), Cônsul dos Poetas Del Mundo para o Estado do Pará, Embaixador da Paz pelo Cercle Universal des Ambassadeurs de la Pax (Genebra-Suiça) e faz parte da AVSPE.

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