abilio pacheco

professor de literatura (ufpa), escritor e revisor de textos

Ano novo (de)novo

Posted by Abilio Pacheco em 2 de janeiro de 2013

Ano novo (de)novo

Não são raras as pessoas que dizem que o ano novo é apenas mais um dia, comum, como outro qualquer. Eu mesmo ajudo a aumentar a fila, mas fico meio de banda, pois de um ou outro modo um (novo) ciclo (re)inicia. O mundo continua o mesmo, igual, mas renovado, renovável.

A “ficção de que começa alguma coisa!”, como afirma Fernando Pessoa, ou “truque do calendário”, como prefere Mário Quintana, ou ainda “o milagre da renovação” em meio a “industrialização da esperança”, como afirma Drummond, é coisa de apreensão movediça e cabe para ela um conceito a ser tirado de cada cabeça, ou até da mesma cabeça em momentos diferentes da vida.

Que o mundo se renova, que há ciclicida, isso é fato. Basta ver que o sol está aí a cada dia ou que as árvores se despem e se vestem repetidas vezes. Mas algumas renovações (e no de correr do ano existem outras, não é só na noite da virada) são constructos da nossa vida social e que tentamos transformar em fundamento psicológico, às vezes com efeito psicossomático. Daí que, querendo ou não querendo, entramos na renovação necessária para a vivência social.

E para que nós nos sintamos definitivamente nesta construção (ficção, truque, milagre) tome entregas de relatórios do ano passado, matrículas em escolas, impostos a pagar, novos chefes de executivo, calendário novo na parede e no pensamento… Mas as dívidas do ano passado permanecem, o salário magrinho do dezembro trabalhado vem lembrar nossa miséria de mais valia neste imundo capitalismo, os problemas do ano passado mas recentes acordam-nos de madrugada, até nossos dejetos ainda são de antes dos fogos. O ano velho, de fato, parece que demorar a finar de vez.

Por outro lado o ano novo cuida que não chega logo: parece que o mundo todo vive em função das escolas e o clima de férias chega junto com janeiro e logo mais fevereiro é carnaval. Se formos lembrar que muitos orçamentos só abrem verbas após o sexagésimo dia e que boa parte da economia gira em torno do dinheiro público, ou que só retomamos o fôlego dos gastos de natal e ano novo perto da semana santa… quer dizer: para muitas coisas, o ano novo só começa mesmo em março ou abril ou maio. E quando der setembro você vai ouvir alguém dizer do seu lado: “Ah! O ano já está acabando”.

Ora, Ora: Bem vindo ano novo! Pegue uma cadeira e sente logo aqui do meu lado hoje que é o primeiro “dia útil”. Deixa essa moleza de janeiro chuvoso, cuida de dizer a que veio e vê se permanace viçoso pelo menos até novembro. Vamos que nós (animais humanos) somos os mesmos de sempre mas somos sempre outros de nós mesmos a cada respiro ou veneta, independentemente de ficção ou truque, embora, às vezes, exatamente por causa disso.

Belém, 02 de Janeiro de 2013.

Abilio Pacheco, professor, escritor.
Professor universitário, escritor de prosa e verso, revisor de textos e organizador de antologias. Mestre em Letras (UFPA) e doutorando em Literatura (THL-UNICAMP). Três livros publicados. É membro correspondente da Academia de Letras do Sul e Sudeste Paraense (com sede em Marabá), Cônsul dos Poetas Del Mundo para o Estado do Pará, Embaixador da Paz pelo Cercle Universal des Ambassadeurs de la Pax (Genebra-Suiça) e faz parte da AVSPE. Email: abilioescritor@uol.com.br. Site: www.abiliopacheco.com.br.

4 Respostas to “Ano novo (de)novo”

  1. laura salgado said

    gostei deveras. que o seu ano novo, seja novo mesmo! e sem truques,rssr

  2. Oi Abílio!!!
    Parabéns!!!
    Excelente: Ano Novo de Novo…
    Besos Gis

  3. Ao ligar o computador após as mil e uma pequenas manobras – que constantemente falham… – , aberta a minha caixinha de correio electrónico, deparo-me com “Ano novo (de) novo”. É sorrindo – porque também eu escritora, também eu humano animal – que me “sento a seu lado”, saboreio as suas palavras e lhe deixo o meu abraço cúmplice de poeta “a cada respiro ou veneta”.

    A minha ligação está mais louca do que nunca mas espero conseguir deixar estes votos de um bom 2013, mesmo quando o 2012 parece demasiado demorado em partir!

    • Li, no Jornal Correio da Paraíba – 30 de dezembro de 2012, que a Previsão para 2013, será um ano de decisões.
      Será que todas as pessoas sabem tomar decisões acertadas? objetivas, bem planejadas? tanto no aspecto pessoal quanto profissional ?Ou vive por viver? como diz Zeca Pagodinho numa canção “deixa a vida me levar, vida leva eu…” São pessoas que não teem nenhum nível de aspiração ou talvez novas expectativas e isso não é bom. Seria MBOM, se todos pensassem em redefinir atitudes,em relação à família, aos amigos, à espiritualidade e ao próximo em geral.Espalhar o bem, primar pela ética,respeitar o ser humano e contribuir pela ordem social e fraterna.
      FELIZ 2013! E que a esperança esteja sempre presente em nossos corações!!!

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