abilio pacheco

professor de literatura (ufpa), escritor e revisor de textos

Resumos Sessão 5

Posted by Abilio Pacheco em 8 de novembro de 2011


VI Jornada de Letras de Bragança

 

SESSÃO 5 – Literatura e Resistência – Coordenação: Prof. M.Sc. Abilio Pacheco

 

 

“Se a ditadura cair, escrevo meu romance”: intelectualidade brasileira de 60/70 entre silêncio imposto e voz necessária
M.Sc. Abilio Pacheco de Souza (UFPa)

Resumo: Entendendo o intelectual como o sujeito social responsável por refletir sobre a sociedade em que vive e até mesmo incomodar o consenso com suas opiniões, procuramos discutir a partir do romance Verdes Anos, de Luiz Fernando Emediato, ou mais especificamente a partir do capítulo-conto “A Data Magna do Nosso Calendário Cívico”, o debate que os personagens (Nando, Teco, Lúcia, Afonso…) estabelecem sobre o desejo, e até o compromisso, de escrever, num contexto social coercivo sobre a realidade brasileira da época. O romance, escrito em estrutura fragmentária, apresenta seis capítulos-contos (por serem relativamente independentes e em estilos diferentes) em que podemos acompanhar a trajetória do protagonista Nando, que sai de Minas com a família para morar em Brasília. O romance relata a desilusão do menino Nando com “O País de Evilath” (como os pais chamaram a capital federal) e sua trajetória até a prisão já no fim da adolescência. O capítulo-conto em que nos deteremos é o penúltimo. Nele Nando conversa com alguns amigos sobre o desejo que têm de se tornarem escritores. É possível notar que os personagens do capítulo-conto apresentam a escrita como projeto (para o futuro). Embora seja necessário verbalizar a realidade social contemporânea para compreendê-la e para lutar contra, há o silêncio que lhes é imposto pela censura. A partir desse dilema, procuramos apresentar apontamentos relacionando à postura do intelectual brasileiro frente à realidade opressora do regime.

Debate entre História e Literatura
Micilene Caroline Cardoso da Silva (UFPA)

Resumo: Esta comunicação procura estabelecer um debate entre História e Literatura, de modo a discutir um dos aspectos da história brasileira recente no que tange a participação da intelectualidade brasileira engajada na resistência ao regime de 1964, porém silenciada pelos poderes coercivos da política de Estado da época. Para fazermos esta reflexão utilizaremos como corpus o romance de Antonio Marcello, intitulado Ensaio Geral, publicado em 1977 e que juntamente com Câmera Lenta, de Renato Tapajós, representam duas visões da militância da época. O romance de Antonio Marcello apresenta-se numa estrutura fragmentária num o estilhaçamento narrativo que alegoriza a polverização das estruturas sociais, das organizações de classe e mesmo da subjetividade dos intelectuais da época. Nesta estrutura fragmentária, o discurso narrativo apresenta-se em três dimensões textuais em que se intercalam: trechos em itálico, trechos em redondo e trechos entre parênteses (nos quais podemos notar ora o discurso do narrador ora reflexões e indagações dos próprios personagens. Aqui procuraremos discutir o aspecto autorreferencial do narrador nos trechos entre parênteses, nos quais existe um debate sobre a atividade intelectual do escritor num contexto político-social adverso, numa tentativa de caracterização das incertezas do narrador-escritor quanto à necessidade e à utilidade da escrita. Incertezas que podem refletir o sentimento de choque do intelectual brasileiro frente à súbita mudança de rumo político, social e econômico do país ocorrido por ocasião do golpe de 64.

 

A tortura como silenciamento em O Jardim das Oliveiras
Savana Cristina Lima Cardoso (UFPA-BRAGANÇA)

Resumo: A partir da leitura do conto “Jardim das Oliveiras” de Nélida Piñon, pretende-se fazer uma reflexão sobre um dos procedimentos de silenciamento (por meio da tortura) infligidos pela política ditatorial de 1964 pelo qual passou o protagonista desta narrativa. Zé é levado forçadamente para ser questionado acerca do paradeiro de Antônio, que Zé e seus algozes conhecem como membro de um grupo caçado pelo regime militar. Zé passou a ser assombrado pelo efeito de ser torturado outra vez, pois ele já havia sido torturado antes. E começa então a sentir-se fraco e impossibilitado de afrontar outra vez aos tormentos provocados pelos militantes. Tornando-se não só prisioneiro destes, mas principalmente do próprio silêncio. Neste trabalho também tentamos repensar o trauma causado pelas torturas sofridas pelos personagens, ou, em outras palavras, as possíveis consequências psíquicas ao sujeito torturado. Além de discorrer sobre as várias maneiras de ser aprisionado dentro do assunto sobre tortura, busca-se aproximar o ambiente onde se faz o tormento do indivíduo, e a tentativa de coligar os tipos de torturas, que alguns autores a dividem em quatro finalidades. E ainda apontar a atitude da vítima diante da sociedade. Deste modo, expondo a ligação dos processos de silenciamento por meio da tortura durante a ditadura.

 A conversão de Paulo: A passagem de um intelectual da apatia ao engajamento em Pessach, A travessia, de Carlos Heitor Cony.
Ana Paula Cardoso Queiroz

Resumo: Considerando as relações entre Literatura e História, o papel da ficção para o entendimento da história brasileira recente e buscando refletir acerca do engajamento dos intelectuais brasileiros durante a Ditadura Militar de 64, busca-se analisar a mudança de postura de Paulo Simões/Simon de apática para engajada. Essa mudança se inicia a partir do momento em que o narrador-protagonista se deixa submergir por ações da resistência armada, e dessa maneira mesmo que involuntariamente Paulo Simon passa por uma transformação que o levará a situações que o fazem tomar atitudes que antes rejeitava. A tranqüilidade de Paulo começa a ser abalada a partir do momento em que toma a atitude de resolver o “Caso de Silvio”, que é um militante que quer convencer o protagonista, um escritor bem sucedido, a fazer frente contra a Ditadura Militar. Mas Paulo se diz alienado e não disposto a dar ou receber tiro em busca da liberdade, embora assinasse em seu gabinete manifesto. Silvio, porém, alega que a caneta não será capaz de fazer diferença e que Paulo pode fazer uso de uma arma mais forte que é o fuzil. O regime militar inicialmente não via a arte (especialmente o romance) como uma ameaça, e sendo assim parte da militância procurava converter os intelectuais à luta armada. E, neste contexto de conversão, Paulo passa por cima de seus conceitos intelectuais para o engajamento político.

O drama do negro. História, literatura e o teatro no Pará nas obras de Vicente Salles.
Ysmaille Ferreira de Oliveira (UFPA)

Resumo: Há tempos que as discussões entre história, teatro e literatura fazem parte das atividades investigativas da historiografia, dos estudos sobre teatro e teorias literárias, afinal, a produção nessas áreas de conhecimento requer essencialmente a presença do caráter narrativo, particular em cada uma delas. Enquanto a literatura e o teatro buscam caminhos mais “livres” para a sua produção e representação da realidade, a historiografia tem a necessidade do uso de documentos para afirmar suas versões do passado. Porém, apesar das diferenças que podemos apontar com segurança entre essas atividades, historiográfica, literária e teatral percebemos que elas têm aproximações e mesmo, cruzamentos. Os trabalhos de pesquisa em história se utilizam bastante da literatura e do teatro, analisando produções de épocas, considerando seu tempo para se compreender como e por que essas obras foram produzidas e encenadas, e o que elas podem nos fazer entender de determinados períodos. A literatura e o teatro por sua vez produzem bebendo nas fontes da historiografia ou de informações de períodos e contextos históricos diversos para dialogar com a representação que é feita. Nesse sentido, este trabalho faz uma incursão bibliográfica sobre o negro em Vicente Salles nas obras: “O Negro na Formação da Sociedade Paraense.” e O negro no Pará, sob o regime da escravidão, salientado os conflitos e as negociações presentes na literatura e no teatro. Procura-se evidenciar não um teatro e literatura do negro, porém como essa forma de poder representava os conflitos sociais em alguns momentos da história do Pará.

Representações acerca da escola pública e das práticas de escolarização nas obras de Dalcidio Jurandir: tecendo análises para se compreender as relações de poder e de classes em Belém-PA.
Leticia Souto Pantoja (UFPA)

Resumo: A partir da análise dos livros “Belém do Grão-Pará” e “Passagem dos Inocentes” escritos pelo literato Dalcidio Jurandir discute-se as relações de poder e de classes entretecidas na sociedade parauara entre os anos de 1920 e 1940, com espectro nas representações dalcidianas acerca da educação escolar pública paraense. Ativo militante de esquerda, integrante dos quadros da secretaria estadual de educação e colaborador de jornais e revistas da região norte, esse letrado expressou em suas narrativas fortes criticas à escola e as práticas de escolarização vigentes na época. Para ele, a educação escolar pública, ao constituir-se espaço para aquisição de saberes abstratos, desconectados das vivências dos educandos e imbuída de forte sentimento religioso, reforçava as diferenças de classe e afastava a instituição daquilo que o mesmo considerava ser função do conhecimento escolar: contribuir para o processo de construção de uma sociedade justa, formada por indivíduos críticos e reflexivos. Nesse sentido, os escritos dalcidianos acerca da escola e da escolarização são recheados de personagens que exprimem sentimentos contraditórios, desejosos por educar-se para ascender socialmente, mas temerosos diante da vivência escolar, descrita como dispendiosa e autoritária. Assim, em conjunto com outros textos produzidos por esse escritor contidos em revistas destinadas aos professores da rede pública estadual, essas narrativas literárias possibilitam refletir não somente a respeito do universo escolar do período, como também sobre tensões que existiam entre diferentes projetos de sociedade e grupos sociais.

Palavras-chave: Dalcidio Jurandir, Escola Pública, Representação, Classes Sociais

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