abilio pacheco

professor de literatura (ufpa), escritor e revisor de textos

prioridade

Posted by Abilio Pacheco em 8 de fevereiro de 2011

Prioridade – prioridades

Esta é uma crônica inútil, do tipo chover no molhado. Mas quem disse que a crônica precisa ter utilidade? Ou que ela precisa trazer novidades? Crônica, já disse o que penso sobre ela no meu ‘cheiro de café’, vem de ‘cronos’ (tempo). É, portanto, ligada ao presente, ao hodierno. Mesmo que se considere inútil e redundante, ela é deveras necessária.

As leis que determinam o atendimento preferencial representam um avanço no pensamento brasileiro e um progresso jurídico em relação ao respeito à(s) parcela(s) da sociedade contemplada com as prioridades. Mas tem algum leitor por aí que não tenha uma, umazinha sequer, história de desrespeito ao atendimento prioritário? Ou mesmo falta de lógica no que se refere à prioridade? Disse que era chover no molhado, lá vai água:

Já vi caixa dizer para idoso que a prioridade é no subsolo, estando o cliente no terceiro andar. Já vi pessoas dizerem (isto foi num aeroporto) que não cederiam a vez no auto-atendimento bancário à mãe com a criança no colo, pois já estavam esperando há muito tempo. Já vi pessoa reclamar que gorda não tem prioridade, duvidando da gestação de uma cliente preferencial.

O campeão de desrespeito talvez seja mesmo o transporte urbano. Não vou dar nenhum exemplo senão esta crônica vai virar uma ficha corrida. A coisa é feia tanto nos pontos de ônibus como dentro dos veículos e piora se for um transporte alternativo. Advogar a favor da pessoa que tem direito, então, é coisa que não se faz nestes espaços públicos. Afinal, você o que que você com isso?

Não para por aí, não. Tem uns locais de atendimento ao público em Belém que – atendendo a lei – reserva algumas atendentes para as prioridades. Entretanto, se o cliente chegar e tirar uma senha de prioridade e uma senha para atendimento comum no mesmo instante, a senha comum é, na maioria das vezes, chamada antes. Não entendi! Para quê prioridade neste caso?

Aliás, tem outra coisa que ainda não entendi nos tais caixas preferenciais para atender às prioridades. Eles servem para quê mesmo? Seria perfeitamente justificável se houve um atendimento diferenciado, se esses caixas tivessem um treinamento que os distinguisse dos demais, se eles tivessem melhor preparo para atender, por exemplo, um idoso que chega atrapalhadinho com cartão, senha, opções de “crédito ou débito?”. Uma curiosidade é que – não sei por aí, nesses outros brasis, mas nestas plagas – os atendentes desses caixas em geral são mais estressados, mais aborrecidos, mais impacientes. Deve ser isso mesmo, são escolhidos a dedo para punir o cidadão que conquistou esse direito – pelo visto – inaceitável aos demais.

Podemos ter avançado nas leis que se referem ao atendimento, mas ainda tem muito brasileiro estagnado por aí.

Belém, 09 de fevereiro de 2011.
Abilio Pacheco, professor, escritor

Professor universitário, escritor e organizador de antologias. Três livros publicados. É membro correspondente da Academia de Letras do Sul e Sudeste Paraense (com sede em Marabá), integra o conselho de redacção da Revista EisFluências, de Portugal, é Cônsul dos Poetas Del Mundo para o Estado do Pará e é Embaixador da Paz pelo Cercle Universal des Ambassadeurs de la Pax (Genebra-Suiça).

8 Respostas to “prioridade”

  1. Diego Araújo... said

    A sua crônica me remeteu à luta de classes… De acordo com Marx, o mundo estaria dividido entre dois grupos de gentes – explorados e exploradores. Porém, dentro desta divisão geral, haveria muitas subdivisões. Os idosos seriam explorados pelos mais jovens; as mulheres seriam reféns dos homens; os latino-americanos estariam sujeitados às regras impostas pelos europeus e norte-americanos; os negros pertenceriam aos brancos; os orientais seriam escravos do ocidente; e, por fim, – é este o ponto fundamental da teoria – os trabalhadores estariam condenados ao salário mínimo, imposto pelo sistema capitalista.

  2. Abilio; concordo plenamente e já vi muitos abusos desses citados. Bela crônica!

  3. Rosana said

    Abílio, a crônica, como você mesmo escreveu,se relaciona ao cotidiano, ao vivido. E o vivido está em mutação, sendo paradoxal. Se, por um lado, concordo com o despreparo e a falta de respeito que vigoram para com os prioritários, de outro, alguns prioritários “abusam” de seus direitos, tomando para si dores e favores que não são seus. É o filho, lá pela casa dos quarenta anos, que leva o pai ou mãe ao banco e, além de receber os proventos do idoso, aproveita para resolver também seus negócios particulares, enquanto outros cidadãos assistem à cena enraivecidos. Ou então, a indústria dos empréstimos de financeiras a idosos que, no mais das vezes, dá prioridade a eles, só que, em geral, o dinheiro tomado a juros beneficiará os filhos, os netos e demais agregados em situações tão necessárias como a compra de uma TV nova para a sala…

  4. Adorei esta crónica, Abílio! :) Deve ser uma questão cultural e os nossos países irmãos partilham esse pequeno desastre que são os atendimentos públicos… também eu já vi de tudo, por aqui! Do mais comum ao perfeitamente inacreditável!
    Um abraço!

    M. João

  5. Bernadete Ferraz said

    Professor Abílio, a temática “prioridade”, conforme sua crônica, tem desencadeado um sem número de preconceitos, principalmente entre os idosos. Eu também tenho presenciado desacertos, fora de propósito, tipo: o de trás cutucar o da frente, questionando, antipaticamente: – Quantos anos você tem? Ou seja, como a fila agrisalhada cresce, a cada dia, alguns já requisitam o privilégio da “maior idade” na fila… Quanto às mamães com bebês e papais com garotinhos inquietos, de 2 a 3 anos, já virou indústria mesmo – apelação. Além da gestante que aluga um Caixa Eletrônico para pagar as contas da família toda. Dá de tudo, “e os da fila” berram mesmo. Qual a razão para tanta indisciplina, em qualquer idade ou condição social, no nosso Brasil, brasileiro? Falta de educação. Ponto. Quantos aos Caixas de Banco, vou enviar-lhe uma crônica minha, do século passado…

  6. Natália said

    Essa questão de prioridades (e respeito) é muito cultural também.

    Não posso condenar uma pessoa por não querer ceder um lugar na fila. Por exemplo: uma mulher com criança no colo. Algumas mulheres só levam crianças para que tenha um atendimento mais rápido. Outro exemplo (com uma questão): Quantas pessoas não usam as preferenciais dos avós, ou tios, para se dar bem?

    No entanto, acho bastante válido aqueles que cedem seus lugares em transportes públicos para pessoas idosas, gestantes, ou outros que precisem.

    Bom, vou parando por aqui. Mas, creio que a discussão deve considerar ambos os lados em questão.

  7. Pedro Du Bois said

    Caro Professor Abílio, pertinente e consistente a sua crônica. O descaso, no Brasil, é imbatível. Tanto que a maioria dos supermercados, aqui pelo sul, dispensa um caixa para os idosos, gestantes e deficientes: então, há fila para os prioritários e caixas vazios para os clientes (ditos) normais. Haja paciência.

  8. thais abracado said

    Melhor chover no molhado do que ignorar esse assunto!

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