abilio pacheco

professor de literatura (ufpa), escritor e revisor de textos

Boca de urna

Posted by Abilio Pacheco em 3 de novembro de 2010

Boca de urna

“Ainda estão conferindo os votos!? Quem está na frente?” Quantos dos poucos leitores que vem até aqui votaram, como eu, em urnas de lona? Acho mesmo que a maioria deve nunca ter visto uma urna de lona, assim como nunca viram um disco de vinil ou um telefone à ficha. Se não fosse a urna digital, ainda amanheceríamos esta quarta sem saber quem havia vencido as eleições. Talvez a apuração ainda durasse até sexta-feira.

Eu mesmo votei poucas vezes na urna digital. Longe de meu domicílio eleitoral, tenho mais justificado que votado. Nas primeiras eleições em que participei ativamente (uma ainda não votando), além de não ter ainda contato com este objeto inovador em termos de apuração, foram os anos em que trabalhei em boca de urna. Causa-me espanto a quantidade de pessoas que foi pressa este ano fazendo isto. Mesmo na época era espantoso, reservavam um ginásio para os detentos. Causa espanto como prendem tantos e tantos escapam. Eu escapei, ileso.

Não tão ileso. Fiz boca de urna duas vezes. A primeira para a direita, além da aventura, receberia um trocado que faria alguma diferença no meu parco orçamento de adolescente (sim, ainda era menor de idade). Na época, reuni-me com outros do mesmo top que eu para poder ‘trabalhar’. Era fácil saber quem estava fazendo boca de urna pelo mesmo candidato: tínhamos uma fitinha de duas cores presa no braço.

A segunda vez foi para a esquerda. De novo a aventura, mas desta vez não havia trocado, mas ideologia. Foi meu primeiro ano como eleitor e já parecia antever alguns problemas da esquerda, suas relações internas. Não, eu não era (nunca fui) filiado, só simpatizante. Nesta época, eu era ativo no grêmio da escola e frequentava os meios intelectuais que me eram permitidos na minha Macondo. Frequentava também espaços ligados ao partido e aos principais candidatos. Entretanto, fiz campanha, panfletagem e boca de urna para um candidato a vereador inexpressivo. Eu sabia que o voto de legenda era importante e que, mesmo sem ganhar, os votos que ele recebesse ajudariam os candidatos principais. Mesmo dizendo isto, o pessoal torceu-me a cara.

Daí não saí tão ileso. Para a direita, não trabalharia depois nem por dinheiro. Quando comecei a compreender um pouquinho de política optei pela esquerda, mas acho que demorei a entender seus descaminhos. Atualmente não faço boca de urna nem campanha. Não quero correr o risco de alguém errar junto comigo. De todo modo, valeu pela aventura, e os arranhões podem ter ajudado a engrossar a pele.

Nos dias seguintes, eu não trabalhava em apuração, escrutínio, impugnações… Para mim isto era algo de se acompanhar pela tv ou pelo rádio. Ainda hoje, quarta, mesmo que a eleição fosse para prefeito era provável que ainda estivéssemos contando voto, ouvindo apuração e acompanhando as brigas por impugnações de urnas ou de votos. Era exatamente por causa dessas brigas que eu preferia acompanhar a apuração a distância.

Na abertura das urnas e dos votos, existia de tudo. Escreviam bilhete e depositavam junto com o voto, escreviam no voto, não faziam “X”, mas bolinhas. Eram difíceis de entender algumas caligrafias dos votos para vereador. Apareciam votos marcados das mais variadas formas, estes eram imediatamente impugnados. Assim como eram impugnados os votos beijados. O escrutinador abria o voto e vendo a marca viva de batom o voto era imediatamente impugnado.

Existia também um certo ritual do primeiro voto da urna. Era uma verificação mais simbólica, posto não interferir no resultado da eleição. E havia urnas com menos cédulas que votantes, urnas com mais votantes que cédulas, urnas que pareciam não estar lacradas, urnas cuja contagem era questionada e tinha que ser recontada… tanta sorte de percalços hoje risíveis.

Se ainda usássemos a urna de lona, mesmo três dias após a votação, estaríamos comparando a pesquisa de boca de urna com as parciais de apuração. Mas os tempos são outros, a pesquisa de boca de urna parece-me ter perdido o sentido, o resultado das eleições sai no horário em que antes estaria começando a apuração e é provável que alguns leitores não façam nem ideia de que isso ocorresse, assim como é provável que não saibam nem o que é CD nestes tempos de MP3, nem saibam o que é orelhão nestes tempos de telefone celular.

Belém, 03 de novembro de 2010.

Abilio Pacheco, professor, escritor

2 Respostas to “Boca de urna”

  1. AMÉLIA LUZ said

    mt bom o seu novo trabalho. Aproveite bastante a sua criatividade e faça divulgação literária. Permita-me uma sugestão: um I Concurso Thiago de Melo. O que acha? Seria uma forma de homenagear em vida esse grande poeta da Amazônia. Amélia Luz/MG

  2. morani said

    Prezado professor Abílio Pacheco:

    Você é muito jovem (se a foto for recente ou perto disso), e já carrega consigo uma condição intelectual de certo vulto. Os maiores nomes de nossa intelectualidade nascem ao norte e ao nordeste de nossa pátria. Conheci pessoalmente, e era frequentador da sua casa, à ladeira da Ribeira, Natal, RN, Câmara Cascudo – um dos grande nomes de nossa literatura. Eu era ginasiano no Atheneu Norte-riograndense – perto da vetusta casa do intelecual – quando o visitava para conversar e olhar suas obras e a de outros intelectuais estrangeiros. Havia entre elas o menor livro do mundo – cabia à palma, uma raridade! Visitar sua casa equivalia a uma viagem ao mundo literário.
    Com relação ao seu mini conto e à sua crônica só posso ter palavras elogiosas, embora essas possam ser simplesmente dispensáveis por sua pessoa. Quem é bom ou já nasce feito ou vai buscar a excelência pelos estudos e pela dedicação. É o seu caso.
    Gostei de ambos. Se eu deixar de lhe responder alguma de suas mensagens terá sido pelo fato de me encontrar bastante fragilizado por problemas cardíacos e renais. Tenho 75 anos, mas entusiasta de nossa literatura. Grato por sua atenção.

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