abilio pacheco

professor de literatura (ufpa), escritor e revisor de textos

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Brincar é criar vínculo

Publicado por Abilio Pacheco em 9 09UTC dezembro 09UTC 2011

Brincar é criar vínculo (¹)(*)

Em Belém (do Pará), o Natal tem uma data para chegar: logo após o Re-círio. Duas semanas após o círio, é o dia em que se faz algo muito semelhante ao dia de reis. Todo e qualquer elemento decorativo referente ao Círio, principalmente o cartaz de Nossa Senhora colocado na porta de casa, é retirado.

Eu fiz isso este ano e fui zanzar numa importadora pertinho de onde moro. Saí carregando comigo uma palestra que havia assistido em DVD. Perca tempo com seu filho, de Pe. Léo – Canção Nova. Carregando comigo na memória e junto com ela uma cena que havia visto no condomínio há poucos dias. Sabe esses carros de brinquedo que cabem a criança dentro? Pois bem, vi um desses a controle remoto. A minha hipótese de que os pais compram brinquedos para si depois que os filhos nascem já havia encontrado respaldo ao ver pai e mãe brincando com um helicóptero de modelismo junto com o filho de 14 meses.

Ouvindo as lições de Padre Leo sempre vindas com boas narrativas ou interpretações de narrativas, bíblicas ou não (no DVD citado, a história da chapeuzinho vermelho interpretada sob a ótica das relações familiares é digna de nota), fez-me – mais tarde – lembrar-me de um episódio quando eu lecionava numa escola particular em Marabá.

Eu lecionava redação e a proposta de atividade do livro era para ser feita junto com os pais, aliás com o pai. Os pais desses meus alunos eram muito ocupados e não tinham tempo a perder com baboseiras de escola ou de ficar de conversa com os filhos. A atividade, portanto, tinha tudo para não dar certo. Só o autor do material didático não havia percebido isso. Alguns alunos nitidamente haviam falseado a entrevista (eles mesmo me confessaram depois), poucos realmente haviam feito a atividade com o pai, mas tinha uma menininha tristezinha que não fizera. Professor, papai é muito ocupado.

Fico pensando hoje o quanto a gente pode ser grosseiro, indelicado e inconveniente. Eu fui. Olhe, seu pai tem uma secretária, não tem? Ela respondeu que sim. Pois bem, ligue para a secretária do seu pai e marque com ele uma hora.

Eu passei pelos corredores da importadora observando os brinquedos. Muitos brinquedos novos pecam pela falta de possibilidade de interação da criança com os pais ou com outras crianças. Existem brinquedos que são mesmo para o divertimento dos pais e não dos filhos. O carro a controle remoto com a criança dentro parece mais uma extensão dos brinquedos infantis dos pais que algo para a diversão da criança. Ademais não favorece o contato: os pais controlam o carro à distância e o filho fica sozinho no cockpit balançando-se feito um joão teimoso.

Neste Natal, e também no decorrer do ano, dê dois presentes para seus filhos: um brinquedo que possibilite o contato com outro ser humano e dê a si mesmo de presente para brincar com ele. Afinal, brincar é criar vínculo (¹).

Abilio Pacheco, professor, escritor.
Professor universitário, escritor, revisor de textos e organizador de antologias. Três livros publicados. É membro correspondente da Academia de Letras do Sul e Sudeste Paraense (com sede em Marabá), integra o conselho de redacção da Revista EisFluências, de Portugal, é Cônsul dos abilioescritor. Site: www.abiliopacheco.com.br.

(¹) A palavra brincar vem do latim vinculum, que significa ligação, atadura. Passou pelo seguinte processo de modificação até chegar ao português atual: vinculum > vinculo > vinclo > vincro > vrinco > brinco > e o verbo brincar.

(*) Texto a ser publicado na Revista Eisfluências de Dezembro de 2011. Com circulação a partir do dia 15.

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Enem e nem eu hein

Publicado por Abilio Pacheco em 3 03UTC novembro 03UTC 2011

ENEM, e nem! Eu, hein!

Ano passado eu escrevi sobre o ENEM em duas crônicas que publiquei aqui e aqui. Mas o problema soa tão recente que não parece ter sido ano passado. Ademais o ministro da Educação (não satisfeito com um vexame por ano e do ano retrasado) querer transformar o ENEM em exame semestral dá mesmo esta sensação de que foi ontem. Num dos textos, eu falo da necessidade de salvar o ENEM. E de novo precisamos salvar o exame. Acusem logo o ministro de qualquer corrupção para que ele cai logo. Inventem qualquer coisa, porque já deu para notar que falta de competência não é suficiente para que ninguém deixe o cargo. Um Cristóvão Buarque até que não seria mal. Que me desculpem os paulistanos, mas tomara que ele ganhe para prefeito caso se candidate. Vá lá, ser descurado numa só cidade que no país todo.

Agora. Vejamos o ENEM deste ano. Tem uma coisa que não faz sentido. Quer dizer que as questões usadas num (pré-)teste ano passado e que, por algum mau acaso, foram parar na prova do ENEM vasaram para um simulado aplicado pelo Colégio Christus uma semana ou três dias antes. Repetindo: questões de outubro de 2010 também presentes no exame de outubro deste ano vasaram para um simulado de uma semana anterior? Não faz sentido. Foi um vasamento anacrônico!? Vamos colocar na ordem temporal: houve um pré-teste em outubro de 2010, o colégio Christus usou questões não-inéditas (provavelmente provenientes das mais variadas fontes, inclusive do pré-teste) num simulado uma semana ou três dias antes do exame e o MEC/INEP reutilizou as questões não-inéditas no ENEM.

O problema se tornou evidente por causa do simulado. Se retirarmos o simulado da cronologia, teremos simplesmente: questões usadas num pré-teste aplicado a 90 alunos em outubro de 2010 foram reutilizadas no ENEM em outubro deste ano. Nos jornais a manchete poderia ser: “questões usadas num pré-teste do ano passado estariam no ENEM”, ou “MEC reutiliza questões de um pré-teste no exame Nacional do Ensino Médio”, ou apenas… Eu pensei que em concursos públicos houvesse a obrigatoriedade de se usar questões inéditas. Pensei também que ao usar questões não-idéditas em concurso fosse plágio. Alguém aí me responde: você já viu alguma situação semelhante em concurso público? Como a mídia nomeio o fato? Talvez as manchetes dos jornais, caso o simulado não tivesse ocorrido, fosse: “Suspeita de plágio no ENEM”. Os mais sensacionalistas fariam a manchete sem a “suspeita”.

Apesar disso, precisamos salvar o ENEM. Afinal, o custo para uma nova prova seria enorme e talvez nem todos os salários do ministro dêem conta de pagar o prejuízo. Mesmo que a nova prova tenha apenas as questões plagiadas ou reutilizadas (não digo que vasaram, porque não é bem o caso no meu entendimento) no Ceará, em Minas e onde mais lá ainda se venha a saber. Parece que não querem fazer o mais simples: anular as tais questões e pronto!

E pronto, nada! Para salvar o ENEM são necessárias outras medidas, dentre elas acabar com o peso das questões de acordo com um hipotético nível de dificuldade. As questões deveriam entrar no ministério público e reclamar por isonomia. Todas as questões são iguais perante a lei. Eu sempre achei fórmula de báscara mais fácil que tirar a raiz quadrada de números com mais de 5 dígitos. Sempre achei análise sintática mais fácil que acentuação gráfica. Ademais, a sabeoria popular é fértil em provérbios que desmentem a teórica dificuldade ou facilidade: “quem como um boi, se engasga com um mosquito”, ou “quebra toras, tropeça em gravetos”, “mata cobras, teme lagartixas”.

Além disso, o que pode parecer extremamente evidente, porém radical. Desvincular o ENEM dos vestibulares! Radical, sim. O ENEM precisa voltar às origens. Precisa ser novamente um exame para avaliar o Ensino Médio. Ouvi exatamente isso do ex-ministro Paulo Renato, quando ocorreram problemas com o ENEM ano passado. Ele disse em entrevista ao Entre Aspas da GloboNews que ”não se deve confundir um instrumento de avaliação de um nível da educação básica com um instrumento de acesso ao nível seguinte” (repito de memória).

Sendo o ENEM um instrumento de acesso ao nível superior, para o qual os alunos se preparam em convênios, cursinhos, preparatórios online, o objetivo de avaliar a qualidade da educação (e do ensino) no nível passou a ter um resultado mascarado. Especialmente se pensamos em escolas públicas. Já faz muito tempo que o EM público não prepara para o vestibular, assim como não prepara para uma vivência acadêmica e mal prepara para a vida (bem! aí já é relativo).

Num dos textos do ano passado (no quinto parágrafo de Salvemos o ENEM), eu apontava outros dois problemas do ENEM: a complexidade estrutural que poderia resultar em questões que os nossos próprios professores de Ensino Médio (especialmente das escolas públicas) não dariam conta de responder e os conteúdos nacionais que terminam por nivelar os estudantes brasileiros num país tão desigual. E aqui acrescento um terceiro: como o ENEM é um exame para avaliar uma etapa da educação básica nacional num contexto atual, ele deveria ser realizado apenas por alunos termiram o ensino médio há – no máximo – 3 anos. Alunos que terminaram o EM há mais de 15 anos (como eu), ou vão contribuir para possibilitar uma visão equicada do ensino atual (posto que muitos conteúdos passaram por mudanças, qualquer dia faço uma crônica só dizendo o que mudou nos conteúdos nestas duas décadas) ou vão fazer um preparatório para obter uma boa nota e aí camuflar o perfil do ensino médio.

Acho que apenas assim o ENEM poderá ser realmente “um ensaio para a vida”. Ano passado, disse que os alunos além do exame tinham “que se preocupar com o que escreviam nas redes sociais, pois estavam sendo monitorados” e advertidos para possíveis punições quanto ao que escrevessem (o que é lógico, monitoramento e punição, faz parte do exercício da cidadania, mas a advertência com ares de ameaça, não era absolutamente necessária). Este ano (e eu queira muito que os professores, e principalmente, os 639 alunos da Escola Christus lessem este esboço de crônica) são os alunos de Fortaleza que estão vivendo o tema da redação e estão tendo uma lição de cidadania muito maior do que se esperava ou que se desejava. Estão aprendendo, por exemplo, o quanto, nesta nossa 6ª economia mundial, estamos atrasados quanto ao direito individual, o quanto há de preconceito e discriminação velada, mas que vem à tona quando há oportunidade ou ‘necessidade’ de se defender interesses individuais, e estão aprendendo o quanto o cidadão é menor que o estado; não importa o quanto uns poucos serão prejudicados para que muitos se beneficiem (vejam Belo Monte através do filme “Os Narradores de Javé“). O ENEM mais uma vez não está sendo apenas um ensaio para a vida, pobres jovens de Fortaleza e de outros lugares do Brasil que estão tendo estas lições não só na teoria, mas na prática.

Nós deveríamos estar gratos aos alunos e professores de Fortaleza. Afinal, usar em simulados questões não-inéditas não é nenhum erro ou crime; é prática comum, inclusive recomendada. Se você vai fazer um concurso, veja questões de outros anos ou de exames semelhantes. A gente aprende isso em qualquer preparatório. Não imagino que apenas o ‘trânsito’ do pré-teste para o exame (sem serem utilizadas no simulado) daria tanta repercussão e assim não estaríamos, como estamos, tendo a oportunidade de debater mais e novamente sobre o ENEM. Torço para que sejam fortes e consigam (alunos e professores) ter seus direitos garantidos. E tomara que o governo (a boa mãe Dilma) coloque novamente o ENEM nos trilhos, porque a coisa vai – e não é de hoje – destrambelhada.

Belém, 03 de Novembro de 2011
Abilio Pacheco

Professor universitário, escritor, revisor de textos e organizador de antologias. Três livros publicados. É membro correspondente da Academia de Letras do Sul e Sudeste Paraense (com sede em Marabá), integra o conselho de redacção da Revista EisFluências, de Portugal, é Cônsul dos Poetas Del Mundo para o Estado do Pará e é Embaixador da Paz pelo Cercle Universal des Ambassadeurs de la Pax (Genebra-Suiça).

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God saves the little Elza

Publicado por Abilio Pacheco em 15 15UTC outubro 15UTC 2011

God saves the little Elza

Ano passado disse que todo ano iria escrever sobre um ex-professor por ocasião do dia 15 de Outubro. A crônica sobre o Mestre Honorato trouxe-me bons e inesperados frutos. Além de algumas surpresas e aprendizados. A literatura sempre foi uma forma de levar as pessoas a tantos e tão diferentes lugares; com a internet isso tomou outra dimensão, incontrolável. Curioso é que a crônica sobre meu professor de elétrica é a mais acessada neste meu site e é a que mais resultou em comentários fora da net. Eu que sempre escrevi literatura ficcional, pouco me havia preparado para a literatura sobre pessoas vivas mesmo. Como é o caso da crônica. Talvez por isso fique pouco à vontade para escrever sobre a outra professora que comento en passant no texto do ano passado e opte por escrever sobre uma professorinha da minha querida Coroatá, interior do Maranhão.

A escolha também tem outro motivo. Ao dizer na crônica do ano passado que dois professores logo saltaram a minha lembrança, não me dava conta que dias depois muitos outros iriam emergir. Inclusive às queixas. Não, leitor curioso, nenhum me pediu ou cobrou crônica, fui eu mesmo que terminei por colocá-los vivos e falantes na minha memória. Afinal, pus-me no lugar deles. Como eu iria me sentir se preterido… A profissão tem lá seu quê de afetivo, afeiçuoso. Daí, zelos e gelosias. Por isso, reporto-me a minha longínqua e presente Coroatá, onde tive apenas dois professores (no rigor termo, no estrito). Um deles dava-me aulas num antigo chiqueiro de porcos e só me recordo das palmatórias e do nome que hoje uso para lembrar dele: Juvêncio. A outra era a tia Elza, a pequena tia Elza.

Não. Ela não professora de inglês. Era alfabetizadora. Destas muitas que tem pelo Brasil desbravando matagais, abrindo veredas, tangendo pedras e seguindo em caminhos hostis que são as cabecinhas tolas desses cidadãos pueris. Vá lá que ensinar o gênero textual (essa coisa aí bonita da Linguística) seja algo deveras útil para o aluno no seio da via social. Mas, dá cá esta palha, ensinar a juntar consoantes e vogais para fazer sílabas; rabisco sonoro com rabisco sonoro igual a outro rabisco sonoro – ou debuxo ruidoso… Isso, mano velho, quem vai passando pela estrada asfaltada e chã parece que esquece o quanto teve de gente abrindo picada, amansando pedras e orientando asfaltos. Cada pedágio que pagamos pelas Dutras da vida deveriam reservar bons quilhões para quem foi de fazer juntar o “bê” com o “a”.

Se bem vou conseguir não sei, mas a homenagem a pequena tia Elza pode ser estendida a tantas outras professorinhas esquecidas neste pindorama que vai já à sétima economia mundial. O país se construiu gigante por ação política como um prédio de muitos andares. Cada IDH, belo como uma janela barroca. Cada fator social como uma voluta no alto de uma coluna. Nem vou falar dos pavimentos para que a alegoria não seja toda explicadinha. Mas, sustentando este “belo impávido colosso”, está coisa que ninguém vê: o alicerce. Nem falo do alicerce de hoje, cuja fachada só veremos daqui a pelo menos uma década. Mas sim das professorinhas primárias como a tia Elza de cerca de 30 anos atrás.

Há 30 anos – afirmo por conta e risco – , as professoras primárias ganhavam menos um salário mínimo, não existia FNDE, não recebiam em dia, tinham malmente o curso ginasial de Normalista (muitas nem ist0). Curso superior de qualquer coisa, noções de linguística para alfabetização, saber o que era dislalia ou dislexia, nem sonhando. Parâmetros Curriculares, quê? Livros didáticos ou mesmo de história… a tia Elza usava era a cartilha do MOBRAL para me ensinar. Imagino meu avô dizendo que a cartilha era dela, da professora. Só não faltavam paciência e boa vontade na sua casa amarela de pé direito baixo, calha de zindo num dos lados do telhado e uma ou outra telha transparente. Ô sôdade boa de sua casinha de porta e janela (ou de janela e garagem) na rua do Sol, pertinho da minha travessa da Mangueira.

Não era uma escola, não. Ela dava aulas em casa mesmo. Nada de reforço ou complemento. Minha escola era sua copa. Sem quadro negro ou campainha. Nada de turma, apenas um ou outro colega. Era quando havia algum menino mais turrão que ela mais se mostrava paciente. Uma vez deixou-nos, eu e um super almado, com seu filho. O rapaz tinha menos de 25 anos e estava de castigo na copa e cozinha, pois tinha que tomar uns litros de água (para fazer lavagem estomacal). Ela nos recomendou que não bebêssemos das garrafas dele, pois era medido (se a memória não me falha ou não me excede). Meu colega inventou de atazanar para beber da água do secretário de nossa escolinha. Como o filho da professora não deu, meu colega enfiou-lhe o lápis no braço. O lápis dele tinha sempre uma ponta longa feita a facão. Enfiou! Não em 90 graus como se cravasse faca, mas na tangente como se enfiasse injeção. O buraco no braço não bastou; ficou encravado um pedaço do grafite. Vendo o mal feito, ele sentou-se, cruzou os braços fazendo bico e assim congelando até quando a tia Elza chegou.

Seu filho foi muito cônscio. Outro teria rodado mão no pé de lata do encapetado. Quando a mãe chegou, apenas mostrou o braço e ela entendeu. Chamou-nos, eu e meu colega, para perto; para ver o machucado. Premiu para sair a ponta; fazia mais para nos provocar que para extrair o grafite. Com não sei que ternura foi explicando o que havíamos feito e se ele ficar sem o braço, como vai ser? Meu colega olhava empedernido para o vazio escondido atrás do braço ferido. Ela apertava o machucado, falava e falava e eu ia ficando “atulermado” (hoje devem dizer “constrangido”). Quando tirou o corpo estranho do braço do filho e suspendeu o grafite sujo de sangue pinçado entre os dedos, falou daquele objeto como uma coisa muito assombrosa, como algo que poderia causar coisas pavorosas. Palavra não lembro nenhuma, mas a essência e o tom da voz… Talvez tenha passado dias lembrando do incidente sempre ao ver um lápis de ponta mais alongada. Certo é que aquela candura imprimiu em mim melhor resultado que uma palmada bem dada, melhor que as palmatoradas que eu levava no chiqueiro-escola do Sr. Juvêncio.

Depois que saí de Coroatá ainda fui à casa dela uma ou outra vez. Nenhuma vez a revi. Ela sempre estava viajando para São Luís, sempre consulta ou tratamento. Já faz tempo que faleceu, uns dez ou quinze anos. Mas ela está cá neste aprendiz de professor. Deve estar comigo (metafisicamente – matéria mística) quando preciso ser mais parcimonioso com “minhas crianças”, quando o que preciso ensinar não é a lição, não é o conteúdo, mas algo de proveitoso para vida, quando (como ouvi um professor de português no CEFETPA dizer aos seus alunos) “é preciso forjar nos alunos, gente”, ou, sendo menos grosseiro, quando é necessário ser mais educador que professor e conduzir os alunos para um bom exercício de humanidade.

Belém, 14 de outubro  de 2011
Abilio Pacheco

Professor universitário, escritor, revisor de textos e organizador de antologias. Três livros publicados. É membro correspondente da Academia de Letras do Sul e Sudeste Paraense (com sede em Marabá), integra o conselho de redacção da Revista EisFluências, de Portugal, é Cônsul dos Poetas Del Mundo para o Estado do Pará e é Embaixador da Paz pelo Cercle Universal des Ambassadeurs de la Pax (Genebra-Suiça).

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Aliquando bonus

Publicado por Abilio Pacheco em 18 18UTC maio 18UTC 2011

Aliquando bonus

“Aliquando bonus dormitat homerus”, “de vez em quando o bom Homero cochila”, ou “mesmo homens da grandeza de Homero cometem pequenos erros”, ou simplesmente “até o sábio se engana”. Existem outros provérbios correlatos: “quem come um boi, se engasga com um mosquito”, “mata cobras, teme lagartas”, “quebra toras, tropeça em gravetos” ou o mais recente: “todo mundo tem cinco minutos de idiotice por dia”.

Na literatura, acho que a frase de Mário de Andrade para conceituar o conto ilustra bem o ditado. O modernista heróico (!?) de São Paulo afirmou que conto é tudo aquilo que o autor chamar de conto. Poderia contrapô-lo apenas citando uma frase de Shakespeare na famosa cena da sacada: “se a rosa não se chamasse rosa, não teria por acaso o mesmo perfume?”. Ou seja: não importa o nome que se dê para a coisa, ela não deixará ou passará a ser apenas por causa do nome que lhe derem ou lhe tirarem.

Mas o maior problema da frase de Mário de Andrade em seus cinco minutos de “desgenialidade” não está no fato dele a ter dito. Ele tem todo o direito de ter seu “aliquando bonus”. O problema maior o quanto ela é repetida. Ora, a teoria é, por si, um terreno movediço. Para piorar, mestres e doutores em Letras repetem a exaustão esta afirmação instável. Talvez por isso tantos autores têm dúvidas sobre a diferença entre conto e crônica (existem outras dúvidas binárias que deixo para outras reflexões).

A explicação pode ser longa, deveria ser longa, mas simplifico. O conto (assim como as narrativas literárias maiores, a novela, o romance, a saga…), aprendi isto com a Professora Doutora em Literatura Tânia Sarmento-Pantoja, tem que ter conflito. A crônica, não. A crônica deve falar de assuntos relativos ao cotidiano. Ela pode até ser narrativa, mas o conflito, se existir, estará a favor da informação cotidiana e não para causar suspense e levar o leitor à expectativa, até meio catártica, do clímax e do desfecho. Vejam as crônicas escritas a partir de notícias publicadas na Folha de São Paulo, pelo escritor gaúcho Moacyr Scliar e que o autor denominou de crônicas ficcionais. Não custa nada lembrar que o Bruxo do Cosme Velho também era costumaz em escrever crônicas ficcionais.

Para não ficar apenas num critério, vale acrescentar que o conflito é essencial para o conto e incidental para a crônica. Consequentemente poderíamos afirmar que o cotidiano é essencial para a crônica e incidental para o conto. Entretanto, o conto pouco se prende ao cotidiano e, quando se refere a este, procura diluir tempo presente tornando-o a-histórico. As crônicas ficcionais não se apresentam atemporais.

Eu, por minha vez, penso em fazer crônicas com um toque bem pessoal (o que é óbvio). Numa ou noutra tenho apresentado ao leitor a minha “poética para a crônica”. O leitor atento já pode ter percebido isto, por exemplo, nas crônicas sobre política (entre elas a “Operação Cavalo de Tróia“), em “Cheiro de café” e na “Crônica de retorno”. Nelas, e sempre que possível, discuto no fio do texto minha forma de conceber o gênero, no que se refere ao estilo e ao fator mais discutido na crônica que é sua efemeridade e sua perenidade.

Agora, é importante pontuar que tanto crônica quanto conto não são textos de aconselhamento. A experiência – algo importante para a literatura em prosa – não está abolida. Conselhos, porém, no imperativo, aborrecem a literatura e fácil, fácil, cambam para a auto-ajuda. Isto talvez seja o pior de tudo: autores iniciantes (e mesmo uns que a mídia tem promovido) pouco trabalham o texto e o transformam em lições de vida; abandonam a estética, a memória, a narrativa ou a reflexão hodierna para “enquadrarem o leitor”. Este, melindrado e bombardeado por lições de todo tipo (como falar corretamente, como se vestir direito, como agir no trabalho, como pentear o cabelo), encontra lições de bem viver em textos (que se apresentam como) literários.

Muitos outros pequenos problemas existem em torno da teoria literária. Oportunamente ainda poderei meter meu bedelho em um ou outro. Sem esquecer que o meu é um ponto de vista. Menos que aplausos, espero provocar reflexão. Afinal, receitas fáceis, mastigáveis tem aos montes e eu poderia ter feito uma crônica desse tipo: “conceito de crônica: tudo que o autor chamar de crônica, será crônica” ou para sair da paráfrase e cair (propositalmente) na paródia: “tudo que o autor chamar de crônica, será dito por um autor crônico”.

Belém, 18 de maio de 2011
Abilio Pacheco

Professor universitário, escritor, revisor de textos e organizador de antologias. Três livros publicados. É membro correspondente da Academia de Letras do Sul e Sudeste Paraense (com sede em Marabá), integra o conselho de redacção da Revista EisFluências, de Portugal, é Cônsul dos Poetas Del Mundo para o Estado do Pará e é Embaixador da Paz pelo Cercle Universal des Ambassadeurs de la Pax (Genebra-Suiça).

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O outro e eu mesmo

Publicado por Abilio Pacheco em 11 11UTC maio 11UTC 2011

O outro e eu mesmo

Assisti na TV que existem no Brasil 27 mil Josés Pereira da Silva e que destes 813 tem mães chamadas Maria José da Silva. A reportagem explicava que o levantamento existe por causa da previdência social, que precisa certificar-se da existência real de seus beneficiados. Em caso de homônimos a previdência usa para diferenciar o nome da mãe.

Impossível não ouvir a reportagem, pelo menos impossível para quem estuda literatura brasileira, e não se recordar do início do auto de natal pernambucano: “Morte e vida Severina”, de João Cabal de Melo Neto. Eu, entretanto, lembrei-me também de um episódio bem particular, pessoal. Afinal, onde se encontrar outro Abilio ou outro Pacheco, outro Abilio Pacheco então…

Mas tem, e não tão poucos como eu pensara. Fui advertido por uma aluna quando eu lecionava na Escola Tenente Rego Barros. Uma aluna da sétima série. Quando cheguei à sala no primeiro dia de aula e fui me apresentar, a menina espigoita já havia dado uma googada no meu nome e foi emendando os “abilio pachecos” que ela encontrou na web. Eu ainda não tinha um site pessoal, mas não foi difícil para ela reconhecer qual era o “abilio pacheco” que entraria em sala. Não repito todos aqui, pois não vou privar o leitor da curiosidade e do trabalho de ir também ao Google (se o desejar, é claro!) e lá encontrar um rol de homônimos meus.

Um deles eu já conhecia de nome. Opa! Conhecer de nome é estranho. Digamos que um deles eu já havia dado de acordo que existia. E confesso que tive dificuldade de assimilar que aquele que eu via na TV tinha o mesmo nome que eu. Devia me sentir como as crianças que ao se depararem com alguém com o mesmo nome demoram a aceitar que isso seja possível.

Eu ainda morava em Marabá e cursava o mestrado em Belém. Colocava sempre a televisão para despertar por volta das cinco e meia. Assim eu poderia acordar bem cedo para ler, estudar e – raramente no hotel – escrever. Não sei precisar quanto tempo depois da televisão ligada, ele apareceu num programa sobre agricultura. Sei bem que ainda deitado, em vigília, eu ouvi: “Abilio Pacheco, da Embrapa, nos fala mais sobre…”.

“Abilio Pacheco”!? Saí dos lençóis, pus pés ágeis no chão, erguido cruzei os braços e fiquei olhando para aquele que não era eu, mas tinha meu nome. Ora, mal havia saído do sono. Estava letárgico e o Abilio Pacheco, pesquisador da Embrapa, nem de longe se parecia com o que eu via no espelho, nem de longe falava de literatura e estava explicando algo sobre cuidados com solo e plantis – temas que, confesso, não me agradam ou nem me atraem.

Quando lancei meu mosaico primevo fiquei com vontade de saber o endereço dele e para lhe mandar um exemplar autografado: “de Abilio Pacheco para Abilio Pacheco”, mas não encontrei, talvez não tenha me empenhado muito nisso. Ano retrassado quando Rui Baiano entrevistou-me na feira do livro, por ocasião do lançamento dos três volumes da Antologia Literária Cidade (vídeo) e do meu Riscos no Barro, fui ao youtube procurar pelas entrevistas e lá encontrei meu xará novamente falando sobre Silvicultura.

Existem outros episódios interessantes entre eu e os outros “abilios pachecos” ou apenas entre eu e algum outro Abilio. Ainda bem que estou longe 27 mil Josés Pereira da Silva o que reduz quase a zero a possibilidade de ter um homônimo com mães homônimas. Pelo menos nisso sei que não terei problemas com Previdência.

Belém, 11 de maio de 2011.
Abilio Pacheco

Professor universitário, escritor, revisor de textos e organizador de antologias. Três livros publicados. É membro correspondente da Academia de Letras do Sul e Sudeste Paraense (com sede em Marabá), integra o conselho de redacção da Revista EisFluências, de Portugal, é Cônsul dos Poetas Del Mundo para o Estado do Pará e é Embaixador da Paz pelo Cercle Universal des Ambassadeurs de la Pax (Genebra-Suiça). Email para contato: abilioescritor. Site: www.abiliopacheco.com.br.

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