abilio pacheco

professor de literatura (ufpa), escritor e revisor de textos

Arquivo da categoria ‘Abilio Pacheco’

falando agua

Publicado por Abilio Pacheco em 23 23UTC janeiro 23UTC 2012

Falando água

A região era inóspita, quente e seca, além do ar rarefeito; carecia de chuva. E de um milagre. Profetas, anciãos, pregadores… já haviam tentado rezas, orações, sacrifícios. A ciência também não deu jeito; quando foram bombardear as nuvens o céu estava limpo.

O filho do prefeito disse que deveriam chamar um primo parolador. Afinal, todos diziam que ele só falava água.

A primeira dama trouxe-o de uma cidade vizinha e levou-o a mais alta torre.

De lá o primo começou um discurso lento e longo. E úmido. Logo o calor e a aridez foram vencidos por gotículas de saliva.

Abilio Pacheco

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poesia silencio

Publicado por Abilio Pacheco em 6 06UTC janeiro 06UTC 2012

a poesia requer silêncio, requer ausências, ócios,
mesmo em meio a barulhos, ruídos e gritos,
mesmo em meio a gente, multidões, afazeres

o que ela quer é instalar-se, impregnar-se, emprenhar-nos
e de dentro fazer-se voz e grito, presença e trabalho

Abilio Pacheco – Belém, 06 de janeiro de 2012.

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cancao para 2012

Publicado por Abilio Pacheco em 2 02UTC janeiro 02UTC 2012

canção (desnorteada) para 2012

tenho pra mim que este ano será diferente
tudo indica que não será como o que passou
vejam na tv que já começou deveras desigual
não teve mortes, acidentes, desastres ou explosões

começou sem notícias de bebês nascendo,
sem votos de felicidades, sem fogos de artifício
ninguém prometeu mudar, consertar erros,
fazer diferente, emagrecer ou aprender línguas

tenho pra mim que este ano será diferente
sem reformas em ministérios ou secretarias
sem salário de fome acrescentado um pouquinho
sem novos projetos pessoais, familiares ou públicos,

é que a cartilha rota e gasta não deve mais ser usada
e ano novo nasce como nasce um dia novo
sem mais quê nem por quê
mas farto de quês e por quês

abilio pacheco – 02-01-2012

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Fotografia – memória

Publicado por Abilio Pacheco em 25 25UTC dezembro 25UTC 2011

Fotografia

Queria a realidade,
mas à câmera
o olho no espaço escuro

Cria a realidade,
mas a câmera ao olho
é espaço obscuro

Cromos, cronos;
cones, ícones
captura o que
(não) há

: memória

Abilio Pacheco

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poema de natal

Publicado por Abilio Pacheco em 13 13UTC dezembro 13UTC 2011

À ceia

Abilio Pacheco

À espera do menino-deus
Todos nos reunimos à mesa farta
Em salas limpas e claras.

Senhor, nos dezembros sempre perdoai-nos;
Vós – feito homem – em Belém,
Viestes a nós em manjedoura.

Que vosso (re)nascer na gruta
(suja e escura) de cada coração
venha aclarar-nos e aclinar-nos
paredes, vãos e galerias
de nossos espesso, fissurado ser.

-> Este poema obteve menção honrosa no I Concurso de Natal organizado por Ângela Togeiro.

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